Outra seção necessária nesta fundamentação bíblica, que está sendo levada a efeito, aborda o relacionamento de Jesus com as crianças. Qual o simbolismo da criança para a cultura do tempo de Jesus? Será o mesmo dos dias de hoje? O que de fato Jesus quer pôr em relevo quando apresenta a criança como modelo para a pertença ao reino? Pensa-se que o ensinamento de Jesus a partir da sua vivência com as crianças iluminará a hipótese de que a ação evangelizadora da Igreja, no seguimento de Jesus, há de se fortalecer na medida em que envolver os mais vulneráveis no seu caminhar. Mais vulneráveis por terem sido feitos assim pela sociedade, ou porque assim se entendem. A criança, na concepção de Jesus, apresenta muitos paralelos com o entendimento que a teologia tem hoje da pessoa com deficiência. Este parece ser um aspecto fundamental da ação inclusiva de Jesus.
68 ―Os doentes faziam parte do mundo da ignorância, desconhecedores da Torá. O Midrash de Samuel prescreve:
―É proibido compadecer-se de quem não tem instrução‖. Jesus, pelo contrário: Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos (Mt 11,25)‖. BAUTISTA, Mateo. Jesus: sadio, saudável e terapeuta, p. 27.
69 ―O primeiro ensinamento, ou seja, não ocupar os lugares privilegiados, no banquete, avizinha-se das
precavidas boas maneiras, especialmente se o objetivo é gozar de maior honra à mesa (Lc 14,10)‖. BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento, p. 354-355.
Mateus registra o ensinamento do Senhor, segundo o qual, no reino dos Céus, reino da vida, o maior é o que se faz como criança (cf. Mt 18,1-4). A beleza desta postura de Jesus com as crianças e os marginais, com os pecadores e os pobres, superando determinados estágios compreensíveis da revelação, provoca em Barbaglio a seguinte análise:
Junto aos ―pobres‖ como beneficiários do poder régio divino aparecem, na palavra e na ação de Jesus, as crianças e os pecadores. Na realidade, trata-se de marginais desprezados, irmãos dos ―pobres‖. E é justamente por esta sua situação de marginalidade que Deus se encarrega deles, acolhendo-os gratuitamente no espaço salvífico de seu domínio régio. A concepção idealista de criança inocente e pura é moderna; na antiguidade ela era considera um ser ignorante, imaturo, digno de pouca estima. Por exemplo, em Sb 12,24-25, é eloquente a seguinte comparação: ―Deixaram-se enganar com menores sem inteligência (nepion aphronon); por isso como a crianças privadas de razão (hos paisin alogistois) lhes proporcionaste teu castigo‖. Notem-se os adjetivos qualificativos com alfa privativo grego: sem sabedoria e sem inteligência. Em Qumrã, ficam excluídos do combate final: ―Nenhum menino e nenhuma mulher entrará nos seus acampamentos quando saírem de Jerusalém para ir à guerra‖, porque podem participar nela somente os que são ―perfeitos de espírito e de corpo‖ (1QM 7,3-5). O próprio Paulo em 1Cor 13,11 contrapõe o menor de idade ao homem maduro (nepios versus aner) e em 1Cor 3,1- 2 define os coríntios crianças (nepioi) incapazes de receber um conhecimento maduro do projeto salvífico divino (cf. par. Hb 5,13-14: nepioi versus teleioi).71
Percebe-se que o ensinamento do Reino dos Céus por parte de Jesus é um ensinamento para todos. Jesus privilegia com especial atenção não os mais dignos, pois como pessoa todos são dignos, mas sim os mais necessitados de compaixão.
Também em Marcos, para esclarecer sobre o maior no reino de Deus, Jesus invoca a figura da criança (cf. Mc 9,33-37).72 Apresentando a criança como símbolo daquele que é maior no reino, Jesus corrige a mentalidade que acredita ser necessário possuir habilidades especiais para participar do mesmo. Jesus demonstra grande preocupação com os pequeninos, advertindo severamente para que se evite escandalizá-los (cf. Mc 9,42-50) 73. Para Barbaglio:
Jesus em Mc 10,14 mostra seu privilégio: ―Deixai que as crianças venham a mim/O Reino de Deus é para os que são como elas‖: acolhida de crianças e de adultos do mesmo nível sociocultural. Não aludem a eventuais e supostas qualidades morais e espirituais, mas à sua condição de imaturos, privados de toda consideração social, mas justamente por isso beneficiários por graça do poder régio de Deus. O mesmo
71 BARGABLIO, Giuseppe. Jesus, hebreu da Galileia: pesquisa histórica, p. 295.
72―O critério para essa pouca aceitação é o da imperfeição. A criança é um homem ainda não feito, um esboço,
um projeto que não se sabe se chegará a bom termo‖. BAUTISTA, Mateo. Jesus: sadio, saudável e terapeuta, p. 45. ―Jesus não apresenta a criança como modelo ético, mas como exemplo de que seu Reino está perto dos pequenos que manifestam uma atitude incondicional de simplicidade e acolhida. Os adultos são convidados, com seriedade e urgência, a mudar de mentalidade e atitude para com os pequenos e para com Deus, assumindo uma atitude filial e confiante, como a criança que se relaciona com seu paizinho, chamando-o Abbá (cf. Mc 14,36)‖. Ibidem, p. 51.
73 ―A maioria (dos estudiosos) opina que, na passagem acerca das crianças em Mc 10,13-16, existe a correção de
uma atitude errônea que exigia conquistas, habilidades, modos de agir ou status da parte daqueles que quisessem ser conduzidos ao reino, ao passo que, para Jesus, o reino/senhorio de Deus exige apenas receptividade humana, da qual a criança é um ótimo símbolo‖. BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento, p. 223.
vale para os adultos à sua imagem. A fórmula promissiva é idêntica à da primeira bênção e indica uma próxima e incipiente atuação de sua exaltação.74
Em Lucas, Jesus, na sua convivência com as crianças, também apresenta caminhos para a implantação de uma nova forma de ser e de viver. Evitar o escândalo (cf. Lc 17,1-3); corrigir-se fraternalmente (cf. Lc 17,3-4); alimentar a fé (cf. Lc 17,5-6); viver o serviço em atitude de humildade (cf. Lc 17,7-10).75 Parece haver possibilidade de aproximar a humildade, da qual fala Jesus, dos conceitos de vulnerabilidade e complexidade da condição humana. Perceber que todos são vulneráveis e frágeis, numa condição humana que tem potência para a solidariedade ou para o egoísmo, abre caminho para a aceitação e auxílio mútuo na fraternidade.76
Por esta via, pode-se compreender o ensinamento do Senhor, que brota do seu contato com as criancinhas (cf. Lc 18,15-17). Brown afirma que esta narração de Lucas ―serve como modelo da dependência em relação a Deus, que é condição para entrar no reino‖.77
Quem não entende e assimila a gratidão e a humildade, não se desapega, dificilmente herdará a vida do reino (cf. Lc 18,18-30). Diante deste contexto, Jesus anuncia mais uma vez a paixão, mas os discípulos não compreendiam o que ele dizia. A revelação dos mistérios de Deus, em Jesus, respeita o ritmo de absorção dos seus interlocutores (cf. Lc 18,31-34).