Figura 21- Avaliação I de Antônio sobre vídeo. Setembro, 2014.
Figura 22- Avaliação II de Antônio sobre vídeo. Dezembro, 2014.
Figura 23- Avaliação III de Antônio sobre vídeo. Abril, 2015.
Antônio permanece registrando com base no desenho e mostra um movimento no seu modo de desenhar em cada uma das avaliações. Na avaliação I há poucos elementos, mas destaca-se a presença da figura humana. Como no registro da figura, na avaliação I há poucos elementos que permitam uma melhor interpretação de suas intenções por parte do interlocutor. Já na avaliação II há uma produção mais clara que permite interpretar sua intenção de indicar uma ação ao se observar a tentativa de desenhar o movimento do momento em que o personagem do vídeo pega a mesa com seu tronco (segundo desenho da segunda linha).
Os desenhos da avaliação III evidenciam grande evolução em relação aos anteriores. Além dos personagens, agora são representadas cenas com intenção narrativa do participante ao desenhar. A figura central da primeira linha, por exemplo, se refere ao momento em que o menino coloca a caixa na cabeça e sai andando. O modo de representar as ações usado por Antônio é repetir o personagem em cada „cena‟ para dar ideia de movimento, como em uma história em quadrinhos, evidenciando a intenção narrativa do participante em seu registro.
Aspectos apresentados no registro de Antônio nos remetem a aspectos pontuados de maneira detalhada por Lacerda (1995), ao afirmar que
o que está na memória da criança, internalizado, está perpassado por sua fala. Quando uma criança libera sua memória através do desenho, ela o faz à maneira da fala, contando histórias, narrando. Certa abstração característica da representação verbal está presente. Desta forma, Vygotsky conclui que o desenho é uma linguagem gráfica que surge tendo por base a linguagem verbal. Da mesma maneira como nos conceitos verbais, os primeiros desenhos tendem a comunicar só os elementos essenciais dos objetos. Entretanto, o desenvolvimento de simples rabiscos para o uso de letras não ocorre mecanicamente. É preciso que as crianças descubram que seus traços podem significar algo. Inicialmente, quando reconhecem alguma coisa em seus traços não percebem a dimensão simbólica disso, é como se o desenho fosse mesmo o objeto que o representa, e não apenas uma representação. Só após um determinado tempo é que o desenho ganha o estatuto de representação ou símbolo advindo da fala: “a representação simbólica primária deve ser atribuída à fala e que é utilizando-a como base que todos os outros sistemas de signos são criados (VYGOTSKY, 1984, p. 128)”. (LACERDA, 1995, p. 23, grifo nosso)
Pode-se notar claramente que em seus primeiros desenhos o participante se restringia a registrar apenas elementos pontuais que são apresentados ao longo do enredo do vídeo. Já na avaliação III, Antônio parece tentar narrar sentenças através de desenhos. Ele respeita a sequência das linhas e segue uma linearidade ao apresentar os fatos. Não se contenta em representar apenas objetos soltos no papel, mas cenas relacionadas ao vídeo. O ato de desenhar está todo atravessado pela oralidade. Lacerda (1995) afirma que no início a criança desenha sem intenções claras de representar e é
por sua oralidade, após desenhar, que seu traçado é nomeado, ganhando significado. Pode-se remeter aqui a oralidade à primeira língua do sujeito, no caso destes participantes, a língua de sinais. Posteriormente, a criança tem intenções de representar, e se vale de sua fala para acompanhar a produção de desenho, organizando-o. Mais tarde, quando a criança tem um plano prévio daquilo que pretende desenhar, sua fala serve como planejadora da ação, na medida em que anuncia o que será desenhado. É só num momento posterior que a criança prescinde de sua fala externa e planeja seu desenho internamente. A posição que a fala ocupa em relação ao desenho depende do processo de desenvolvimento da criança (LACERDA, 1995).
Os dados aqui apresentados vão ao encontro do estudo de Luria et al. (1988), que aponta que as crianças colocadas diante da tarefa de representar graficamente frases mais ou menos complexas, revelam a passagem de desenhos a formas mais próximas da escrita. As crianças vão da escrita pictográfica para uma escrita ideográfica, criando marcas simbólicas. Pode-se observar a dominância da fala sobre a escrita, levando-as a fazer desenhos que representam a fala, aspecto evidente nas cenas representadas por Antônio, que atende à solicitação feita narrando através de seus desenhos. Como já foi dito, o desenho pode ser visto como um precursor da escrita, e advém daí a necessidade do trabalho com o desenho como uma forma de desenvolver sistemas simbólicos de representação, que podem auxiliar no processo de construção da linguagem escrita (LACERDA, 1995). A escrita é vista como “deslocamento da atividade da criança do desenhar coisas para desenhar a fala” – língua de sinais, no caso deste estudo (LURIA et al., 1998, p. 173).
Considerando todos os dados apresentados até o momento, percebe-se que, embora tenham faixas etárias díspares, nesse contínuo há crianças usando o desenho como recurso principal para realizar registros, visto que o acesso destas à língua e linguagem ocorreu em momento tardio, comparado à idade considerada adequada para tal. Essas crianças possuem em comum o fato de ainda não terem se apropriado da escrita como forma de registro.
As representações dos desenhos ora apresentam sentido mais narrativo, ora sentido quase que ilustrativo. Exemplo disso é quando Marcos faz o desenho do personagem sozinho, evidenciando um sentido ilustrativo. Considerando-se os três momentos de avaliação, os registros de alguns participantes apresentam sentido mais evolutivo, outros não. Mas, diante das idas e vindas inerentes ao processo de aprendizagem da escrita, pode-se dizer que todos os participantes apresentaram indícios
significativos de elaboração em seu modo de registrar. Há movimento entre os momentos de avaliação, indicando processos de desenvolvimento dos sujeitos.
A topografia dos registros em desenho difere bastante entre si. A forma com que Antônio, por exemplo, expõe seus registros nos leva a inferir que ele “escreve” com o desenho, como numa „carta enigmática‟. Ele faz uso diferente de Rosana, que, por exemplo, sobrepõe os desenhos para descrever o que pretende. Pode-se dizer que ele faz o desenho quase tentando escrever, como se fosse uma forma mais evoluída. Ele está registrando como se estivesse desenhando as sentenças, enquanto ela registra apenas uma cena, a posição dos personagens do desenho, o que é mais comum nas produções de desenho infantis comumente percebidas nas escolas. Embora ambos utilizem a mesma forma de registro – o desenho, nota-se a evolução do registro de Antônio diante dos de Rosana, no que tange à sua aproximação com a escrita.