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É válido afirmar que o exercício educativo do podcast não se limita a audição de seus episódios. A partir da comunidade que costumeiramente forma-se no entorno das produções, como já visto, viabilizam-se práticas de debates direcionadas a ampliar as temáticas trabalhadas nos programas. Essas ações relacionam-se intrinsecamente às características próprias do podcast, especificamente no que se refere ao seu modo de publicação.

Geralmente ligados a um sistema de blog, enquanto alguns podcasts contam com fóruns, a maioria costuma dispor de espaços potencialmente dialógicos na seção para publicação de comentários dos ouvintes. Além desses locais, o uso de comunidades em redes sociais e de perfis no Twitter possibilita o encontro entre produtores e ouvintes, e destes entre si.

Vale salientar também o caráter potencial dos aspectos dialógicos referidos. Nessa medida, a troca de mensagens entre Sujeitos configura, de acordo com o referencial freireano, ação potencialmente dialógica. Desse modo, será o desenrolar das ações que irá qualificar um encontro como mera troca de informações ou ação dialógica: aquela pautada pela simples emissão e recepção de uma mensagem; a última marcada pela participação conjunta reflexiva, pela quebra da hierarquia, pelo compromisso ético, pela suspensão de verdades em favor do diálogo.

A partir do referencial citado, o formato técnico das seções de comentários dos blogs propicia menor inclinação ao exercício dialógico. Isso se deve à ausência nesse espaço de uma estruturação mais elaborada, como uma divisão de mensagens por tópicos ou, ainda, ferramentas de citação de mensagens anteriores para resposta direta.

Como limitador da inclinação dialógica dessas seções é possível apontar, igualmente, sua estrutura hierárquica, na qual a formatação textual das mensagens do produtor destaca-o dos demais, imputando um desequilíbrio de veiculação expressiva antônimo a um cenário comunicativo. Por conseguinte, ganha maior potencial ao diálogo o uso de fóruns dos próprios blogs, bem como os de redes sociais, locais que,

164 por sua formatação, prescindem de um significativo destaque pré-estabelecido às expressões de alguns em detrimentos das de outros Sujeitos.

O potencial dialógico no cenário aqui em análise apresenta-se também na relação entre produtores e público. Nesta, as características de especificidades temáticas e audiência menos numerosa propiciam um contexto significativamente propenso à aproximação entre produtores e ouvintes, ao contrário do que ocorre com os grandes meios de informação, como rádio e TV comerciais. Apesar disso, cabe ressaltar que o crescimento de um podcast pode dificultar o acesso do público aos produtores, impossibilitando estes de darem conta do grande número de mensagens recebidas por uma produção de larga audiência.

O referido processo pode atrapalhar o exercício dialógico entre realizadores e público, levando a uma circunstância próxima daquela usualmente vista nos veículos tradicionais. Contudo, as possibilidades de contato do entorno on-line do podcast propiciam, ao contrário dos supracitados veículos, a comunicação entre os diversos Sujeitos constituintes da audiência de um podcast. Tal quesito será analisado mais detidamente na seção 5.10 desta tese.

No âmbito do podcast, observa-se a constante interação dos produtores com os usuários através dos meios já citados, além da participação direta destes nas produções, dada principalmente por meio de mensagens de texto lidas e debatidas nos programas e, em menor medida, pelo envio de mensagens de voz.

Outro modo de encontro exercido no entorno do podcast relaciona-se à participação do público ao vivo via chat durante a gravação de um episódio, como feito pelo Guanacast em algumas de suas edições. As práticas referidas apontam à quebra do distanciamento entre os Sujeitos como tônica do uso do podcast por mãos brasileiras. Essa perspectiva é sublinhada por depoimentos como os veiculados no podcast Fenixdown, em edição na qual se debate as motivações dos produtores em realizar o programa, bem como da relação destes com o público. No episódio em questão, seus realizadores afirmam:

NINJA INIMIGO: A gente não quer que a pessoa vá lá “babar nosso ovo”. A gente não quer que a pessoa vá lá dizer que nós somos foda. [...] A gente quer saber sua opinião sobre assuntos. Saber o que você acha, se você discorda da gente, se você concorda, por que você concorda. E, cara, eu quero saber a opinião das pessoas.

ZABUZETA - O que a gente quer, além disso, cara, é fazer amigos. A gente acaba fazendo muitos amigos. Eu tenho bastante amigos que eu

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criei comentando ou até recebendo feedback no “meia lua”88, no

“level mais”89. A gente tem muitos amigos que a gente até encontra

hoje. Então, é bem maneiro esse retorno [...]. É um retorno bom pra você, bom pro seu coração, digamos assim, né? (CASTRO & SIQUEIRA, 2012).

As falas citadas ilustram a natureza das práticas observadas na podosfera brasileira, desvelando o exercício de uma tecnologia marcada pela propensão à aproximação entre os Sujeitos e, por consequência, ao diálogo, sinônimo de educação.

É válido afirmar que o referido diálogo expande-se a partir dos aspectos produtivos típicos do podcast. Considerando as possibilidades de produção personalizada dessa tecnologia, a inserção de múltiplas vozes ampliadas pela oralidade digital ganha ares de prática corriqueira no cenário potencialmente dialógico descrito. Tal fenômeno advém do crescimento da simplificação produtiva do podcast, como já esclarecido neste estudo.

Em vista da característica aludida, viabilizam-se as já descritas possibilidades de expressão por parte do público, tornando-se cada vez mais viável a veiculação da voz do ouvinte a partir do mesmo expediente que o estimulou a ouvir: o podcast. Assim, embora a produção elaborada de um programa ainda demande um significativo esforço produtivo, realizações mais simples propiciam que um podcast seja respondido com outro.

A fim de ilustrar a constatação posta, é válido citar uma discussão entre Luciano Pires, produtor do podcast “Café Brasil” e um de seus ouvintes, André Mazzeto, cuja participação no programa deu-se a partir da leitura de seu e-mail. Em meio a um acalorado debate sobre aquecimento global, na qual Mazzeto buscava dar descrédito a tese de Pires - defender a inexistência do fenômeno -, o produtor do “Café Brasil” afirmou:

O Café Brasil é um programa de opinião, não é um programa jornalístico que dá todos os lados e deixa que os ouvintes concluam. Nessa questão das mudanças climáticas eu não vou perder meu tempo defendendo o outro lado porque eu não acredito nele. Aliás, o outro lado se defende muito bem [...] e quem acredita nele pode criar seu podcast e fazer a defesa (PIRES, 2012).

88 É feita referência ao podcast “meia-lua x”, produção sobre games já encerrada. 89 Podcast sobre games.

166 O exemplo apresentado auxilia na representação dos potenciais da tecnologia analisada neste trabalho. Já a princípio, o autor desvela suas intenções, fugindo a uma distorção vista na prática do Jornalismo, que busca dar ares dialógicos a emissão de falas, intituladas de “Comunicação Social”. Tal designação, é sensato afirmar, acaba por caracterizar de “comunicação” o que se observa tratar, na verdade, de informação e opinião. Assim, esclarecendo que seu programa se trata de emissão constituída da parcialidade de um posicionamento pessoal, Pires foge de pretensas ambições de neutralidade ao afirmar seu distanciamento dos moldes tradicionais do Jornalismo, aproximando-se, desse modo, de uma ação dialógica com seu ouvinte.

Dessa feita, ainda que em tom de desabafo, a fala do podcaster ilustra o imenso potencial ampliador de emissão de vozes e, por consequência, aumento das possibilidades de diálogo em razão do podcast. Afinal, não se encontra impeditivo para que o ouvinte em questão produza, de fato, um podcast a partir da antítese à tese que lhe motivou a escrever ao programa de Luciano Pires.

É sensato supor que a referida emissão, dado seu possível distanciamento de aspectos comerciais, tenderia a prescindir de um “invólucro publicitário”, cujo compromisso primeiro costuma ser a venda de uma imagem, não o esclarecimento tomado como ambição dialógica.

A prática sugerida sustenta a caracterização do podcast como tecnologia particularmente propensa a servir de âmbito comunicativo também pelo fato do podcast de Pires tratar-se de uma Ampliação Tecnológica, oriundo de um programa de rádio. Entretanto, ainda que se associe a um âmbito de tecnologia usualmente menos dialógico, a transposição do conteúdo para podcast propiciou uma possibilidade de expressão alargada ao público, o qual contou com os já explicitados potenciais comunicativos daquela tecnologia em seu entorno on-line. No cenário exposto, destacam-se novamente os potenciais comunicativos do podcast ante outras tecnologias de oralidade.

Seguindo-se no direcionamento posto, é possível afirmar, em vista dos aspectos apresentados, que grande parte dos podcasts nacionais nasce motivada pelo desejo inclusão de falas no conjunto daquelas ouvidas na podosfera nacional. A confluência de vozes presente na podosfera brasileira propicia, além de troca de informações e emissão de opiniões, práticas dialógicas entre seus usuários, e desses com os podcasters, por meio de encontros tecnicamente viabilizados pelas já funcionalidades informativas da internet. Os próprios podcasters possuem uma forte aproximação entre si, a qual se

167 observa, por exemplo, no constante debate dado em participações nas produções de colegas. Nesse exercício, cabe afirmar que são poucos os produtores de realizações com grande audiência que não participam habitualmente de produções de colegas90. A partir dessa constatação, é constatado mais um fator a sublinhar os potenciais dialógicos do podcast.

A já observada multiplicidade do podcast em seu exercício nacional propicia a disponibilização on-line de produções que abarcam temas muitas vezes ignorados na escola. O podcast, assim, marca sua pertinência educativa pelas vozes ouvidas por meio dele servirem recorrentemente como mote de aproximação educativa entre pessoas que partilham de dados do universo em comum. Na observação desse cenário, constata-se a dimensão das possibilidades educativas da tecnologia em análise como ampliadora dialógica também em contextos escolares. Tais potenciais serão analisados no capítulo 6 deste estudo.

Seguindo na reflexão acerca do entorno comunicativo do podcast, é sensato afirmar que ali se proporciona a sofisticação da identificação temática, o que ocorre por meio da divisão por temas e subtemas dada nas diversas seções dos fóruns que reúnem audiência e produtores, de modo que os Sujeitos aglutinam-se em torno de um tema em comum. Por meio da aludida sofisticação, torna-se possível a aproximação mediante a adição de condições técnicas e humanas para a interseção de interesses compartilhados. Nesse contexto, a tecnologia provê, além de exposição e multiplicidade temática, uma ampliação temporal advinda da possibilidade de troca de mensagens assíncronas. Além disso, a cessão de um parcial anonimato no uso dos fóruns em questão propicia aos usuários, inúmeras vezes, maior disposição à exposição on-line de posicionamentos que tenderiam a ser pouco defendidos face a face.

Em vista dos fatores desvelados nesta análise, contata-se que a apropriação comunicativa do podcast pode proporcionar uma experiência educacional rica que, nos moldes do pensamento de Paulo Freire (1971), possui condições de efetivar uma educação que transponha a simples reprodução de conteúdos simétricos, através de uma postura ativa de encontro pelo exercício educativo do diálogo. Por meio das práticas analisadas, portanto, observa-se a abertura de instâncias potencialmente comunicativas como fenômeno típico da natureza educacional do podcast no país. Em vista disso,

90 Como exemplo disso, pode-se citar a constante participação em outros podcasts dos produtores do

Nerdcast, Rapaduracast, Guanacast, Monacast, Nowloading, “Papo de gordo”, Teiacast, “Papo na estante”, dentre inúmeros outros.

168 configuram-se os amplos horizontes dialógicos possivelmente alcançáveis pela apropriação educativa daquela tecnologia.