• No results found

3.2 A NALYZING THE IMPACT FROM MNC S ON THE N ORWEGIAN TAX BASE

3.2.1 Norway as a high tax country and thin capitalization

Ao produzir a história do MST no Pontal, a partir, principalmente dos relatos dos assentados, militantes e dirigentes, textualmente estou produzindo também uma representação sob minha ótica. Isto, é claro, não elimina a necessidade da problematização e do diálogo com as evidências, mas desnuda uma produção que não está isenta de valores, como se pudesse ser apresentada independente das representações que carrega, do foco que prioriza. Daí a necessidade da percepção das entrevistas e de outras fontes utilizadas no decurso desta tese, como prenhes de vida, haja vista as práticas e representações que elas trazem consigo.

Na busca do desnudamento de valores, concepções, referenciais teóricos e opções de abordagens, entendo que se o foco se deslocasse para outros pontos que não os enunciados, a interpretação poderia ser outra. Não obstante, como contraponto a essa afirmativa, indago se esta história, ao ser produzida, e as representações que se originam também de suas interpretações, não estariam aprisionadas pela subjetividade do pesquisador ou, como discute Jovchelovitch (1998a), por outro lado, pela do sujeito analisado.

Essa autora, discutindo as representações sociais, observa que, longe de se darem numa discussão neutra e asséptica, nasceram e cresceram “sob a égide de interrogações radicais, que repõe contradições e dilemas [...] talvez a principal dessas contradições seja a relação indivíduo-sociedade e como esta relação se constrói”. (JOVCHELOVITCH, 1998a, p.63)

fazem parte e da história que o antecede, serão trabalhados alguns jornais de época, principalmente os que se referem à luta dos posseiros e pequenos arrendatários e o processo de grilagens envolvendo os anos de 1920 a 1960, principalmente por meio do jornal: “A Voz do Povo”; “O Correio da Sorocabana” e “O Imparcial”, todos de circulação regional, produzidos em Presidente Prudente, SP. Para os anos 80 e 1990, utilizo “O Imparcial” e “Oeste Notícias”, de Presidente Prudente, bem como jornais de circulação nacional como: “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”. Todavia, observo que o trabalho com as fontes, principalmente na discussão do MST, no tempo presente, se centrou mais na utilização de entrevistas e na análise da produção interna do Movimento, por meio dos cadernos de formação. Saliento que, em vista da quantidade de matérias produzidas acerca dos conflitos agrários na região nos anos 1990, o trabalho minucioso com os jornais e demais publicações da imprensa escrita, acompanhando os inúmeros acontecimentos que marcaram esse período, por si só exigiriam uma outra tese (ou várias outras teses).

Jovchelovitch aponta os impasses para se pensar a relação entre indivíduo e sociedade. Assinala que, se de um lado há uma compreensão demasiada individualizante, “psicologicista na compreensão da subjetividade”, por outro, muitas vezes a tentativa de introduzir conceitos sociológicos à psicologia social, neste caso, à história, corre o risco do inverso, ou seja, tratar a sociedade e a história como abstração. Assim: “Uma sociedade sem sujeitos ou sujeitos sem uma história social são parte de problemas que todos nós conhecemos muito bem – e recuperar essa conexão é uma das tarefas cruciais que temos pela frente” (JOVCHELOVITCH, 1998a, p.63). Conforme essa autora:

Representações são construções sempre ligadas a um lugar a partir do qual sujeitos representam, estando portanto, intimamente determinadas por identidades, interesses e lugares sociais. Nessa medida, elas representam uma forma particular de construção do objeto e estão constantemente em relação com outras representações que representam outros sujeitos e outros lugares sociais. (1998a, p.77)

Seguindo as orientações dessa pesquisadora, assinalo que não se objetiva a apresentação de conceitos fechados, apriorísticos, para pensar as práticas e representações camponesas ou, por outro prisma, abertos de um todo impossibilitando percebê-las, já que importa analisar as histórias e memórias dos camponeses em vista da produção da história em sua urdidura.

Ao propor essa discussão, compreendo que as práticas e representações se encontram inter-relacionadas, por dimensionarem espaços objetivos e subjetivos, em que os homens e mulheres atuam e sentem. Assim, além de presentes em lugares como no acampamento e no assentamento, elas se tornam também expressão do que se vive e do que se sonha para a sociedade mais ampla.

Gomes, Mendonça e Pontes ao discutirem as “representações sociais e a experiência da doença”, partindo de autores como Alves e Rebelo, sinalizam para o problema da dissociação entre as práticas e as representações. Segundo esses autores “[...] as representações não são sistemas fechados que determinam as práticas, uma vez que conformam um conjunto aberto e heterogêneo, que é continuamente refeito, ampliado, deslocado e problematizado durante as interações indivíduo-indivíduo e indivíduo e meio”. Observam ainda que essa separação se relaciona a “[...] outras dicotomias já conhecidas entre ação e estrutura, subjetividade e objetividade, indivíduo e sociedade, corpo e mente”. (2002, p.1208)

Foi na sociologia e na antropologia, conforme Moscovici, que se iniciou a discussão das representações:

O conceito de representação social ou coletiva nasceu na sociologia e na antropologia. Foi obra de Durkheim e de Lévi-Bruhl. Nessas duas ciências ele serviu de elemento decisivo para a elaboração de uma teoria da religião, da magia e do pensamento mítico. Poderia acrescentar que ele desempenhou um papel análogo na teoria da linguagem de Saussure, na teoria das representações infantis de Piaget, ou ainda na do desenvolvimento cultural de Vigotsky. E, de certo modo, este conceito continua presente nesse tipo de teorias. (apud GUARESCHI e JOVCHELOVITCH, 1998, p.9)

Moscovici ressalta a sua repulsa face ao dualismo imposto por determinadas leituras, para se pensar o mundo individual e o mundo social.

Num desses mundos, o da experiência individual, todos os comportamentos e todas as percepções são compreendidos como resultantes de processos íntimos, às vezes de natureza fisiológica. No outro mundo, o dos grupos, o das relações entre pessoas e grupos, tudo é explicado em função de interações, de estruturas, de trocas, de poder, etc. Para facilitar as coisas: somos tentados a incorporar o segundo no primeiro. Esse é o caso, tanto quando afirmamos, com respeito às cognições sociais, por exemplo que os processos que têm lugar num e noutro são idênticos, como é o caso quando reduzimos o social às relações interpessoais ou intersubjetivas. Outros se encaminham, enquanto isso, a uma redução adversa, negando a especificidade do indivíduo e fazendo do consenso o resultado de uma interação que faça desaparecer as distinções entre os indivíduos. (apud GUARESCHI e JOVCHELOVITCH, 1998, p.12)

São errôneos os dois pontos de vista, observa Moscovici, pois o conflito entre o individual e o coletivo não é somente do domínio da experiência de cada um, mas é igualmente expressão da realidade fundamental da vida social: “Não existe sujeito sem sistema, nem sistema sem sujeito. O papel das representações partilhadas é o de assegurar que sua coexistência é possível” (GUARESCHI e JOVCHELOVITCH, 1998, p.12). Guareschi e Jovchelovitch salientam, a partir daí, a importância da noção de conflito para se pensar as representações sociais.

Essa discussão fundamenta a análise que desenvolvo, por propiciar a compreensão de que a representação não existe sem os sujeitos, sendo eles: “[...] a fonte primeira e única de ação significante”. Mas, “[...] na solidão de um mundo sem objetos, o sujeito, é ele mesmo uma impossibilidade” (JOVCHELOVITCH, 1998b, p.72). Desse modo, compreendo a existência de uma interação entre sujeito e objeto, condições subjetivas e objetivas, indivíduo e coletivo, práticas e representações. Daí o alicerce que a teoria das representações sociais oferece para essa abordagem.

Com o olhar para o desenho da terra como âncora e das práticas de luta para conquistá-la e nela enraizar-se, é possível a apreensão das experiências dos camponeses

também no campo da história social, e nela, da historiografia inglesa, principalmente a partir de E. P. Thompson. Eu poderia dizer, então, que esta tese se fundamenta no campo das representações sociais coligadas às práticas políticas e culturais vivenciadas pelos assentados e pela organização do MST no Pontal. A cultura perpassa esta discussão, mas não é o elemento único a explicitá-la. Neste sentido, práticas e representações que envolvem o universo da política, do meio social, cultural, religioso, explicitam seu teor. Inspiro-me em E. P. Thompson, particularmente no modo como referenda a construção dos agentes sociais a partir de seu “fazer-se”, da “experiência” e da “economia moral” a fundamentarem tais práticas. Assim, quando me refiro à “economia moral” não estou propondo uma discussão exclusivamente no âmbito da cultura, mas também em vista da expressão política, social ..., que ela carrega.

Práticas referendam, nesta tese, o modo de vida e os sonhos, fundamentados tanto no desejo da “terra do trabalho” quanto no da “transformação social”. Reforço, então, a necessidade de compreender o processo de lutas para a conquista da terra e para nela permanecer, tal como a luta por novos e velhos direitos. Sendo assim, as representações fundamentam as práticas vividas no campo material e simbólico das lutas camponesas, de modo que os signos a substanciar a mística da terra constroem práticas, tal como são por elas construídos, explicitando a importância de se analisar o sujeito, tal como o meio em que está inserido.

CAPÍTULO 1 – NA HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE: A HISTÓRIA DOS