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Logo após a consolidação do novo polo atacadista de moda feminina Aimorés-Lombroso, os primeiros cinco anos da década do ano 2000 são considerados, pelos confeccionistas locais, como o auge econômico desse polo. O ânimo era grande e os jornais de veiculação nacional espalhavam notícias sobre o Bom Retiro que queria assumir uma nova identi- dade ligada ao luxo.32 Junto a isso, organizou-se um movimento de intervenção urbana, 32. “Bom Retiro investe para ser fashion” – O Estado de São Paulo de 07 de junho de 2005; “Bom Retiro contra-ata-

ca” – Folha de São Paulo de 21 de março de 2004; “Bom Retiro quer ser distrito fashion de SP” – Folha de São Paulo

de 9 de fevereiro de 2003; “Bom Retiro pode virar boulevard da moda” – O Estado de São Paulo de 22 de fevereiro de 2002; “Bom Retiro busca modernização para ter o charme da Oscar Freire” – Diário de São Paulo de 11 de mar- ço de 2002 – são exemplos de títulos de artigos de jornais que propagaram a notícia do Bom Retiro revitalizado. Hemeroteca do Arquivo Histórico da Cidade de São Paulo.

MAPA 4.3

Localização dos negócios dos coreanos no polo têxtil do Bom Retiro. Elaborado a partir de: DIÁRIO JOONG-ANG. Lista comercial dos coreanos 2009/2010.

São Paulo, 2009. (Ver Apêndice 2)

LEGENDA

Limites do bairro Limites da área de estudo Limites dos setores Modalidades: Confecções Aviamentos Tecido Costura Passadeira Tingimento Plissagem

chamado de “Projeto Bom Retiro”, cuja repercussão avaliaremos no item 4.1.4. Com tudo isso, as duas ruas passaram por grandes transformações físicas, tanto nas unidades de confecção quanto na infraestrutura urbana e nos logradouros públicos.

Ao mesmo tempo, os confeccionistas almejavam maior grau de especialização profis- sional e a formalização dos negócios, eliminando aos poucos irregularidades e vícios típicos de pequenos negócios familiares. À medida que cresciam o faturamento e o volume de mer- cadorias que manipulavam, os confeccionistas sentiam mais urgência em regularizar seus negócios, desejo que se expressa quando mencionam em “deixar de ser comerciantes para virar empresários de verdade”. No entanto, este tem sido um desafio difícil para quem alcan- çou o sucesso econômico sem conhecimentos próprios de um administrador, copiando fór- mulas de negócios dos vizinhos e conhecidos, e sem ter refletido muito sobre a ética sub- jacente e sua validade. Ainda mais, quando acusados de explorarem mão de obra irregular, muitos confeccionistas exibem atitudes de perplexidade diante das mudanças de valores que incidem sobre o trabalho de costureiro, do qual eles mesmos se sabem beneficiários, quando nele se apoiaram e ergueram na fase difícil do início da imigração.

ATUALIDADE

Há alguns anos, o polo têxtil do Bom Retiro mostra uma forte tendência de retração (SINDIVESTUÁRIO, 2015). Independente da conjuntura econômica nacional, essa re- tração está relacionada aos sintomas gerais da economia neoliberal, tais como decadência de pequenos comércios locais, deslocamento do polo de produção para a Ásia e a concor- rência com as redes multinacionais do ramo do vestuário. A queda de desempenho das confecções do bairro nos últimos anos fez com que muitos fechassem suas portas. Por isso, os que permanecem até hoje se consideram sobreviventes. O consenso diz que uma mudança drástica deve ser introduzida na estrutura dessas confecções para que elas so- brevivam e prosperem novamente. Muitos confeccionistas consideram que o próximo passo é seguir o exemplo dos grandes magazines multinacionais: ter uma marca própria, elaborar estratégias profissionais de marketing e assumir o controle de toda a cadeia de produção e venda – desde a concepção dos produtos e a produção até a venda ao consu- midor final. E isso inclui, muitas vezes, o deslocamento da unidade de produção para a Ásia, solução que mantém o custo baixo e traz a regularização do processo de produção ao mesmo tempo, sem que houvesse necessidade de adaptar-se às exigências trabalhis- tas nacionais.

Por outro lado, chegou a vez de antigos confeccionistas coreanos encararem a necessidade da troca de geração. Na ausência de herdeiros, optam pela mudança de modalidade para sobreviver por mais tempo. Senhoras de idade continuam trabalhando na criação das peças, mas deixam de trabalhar com moda jovem e migram para tamanhos grandes, roupas de senhoras ou vestidos de festa, modalidades em que os modelos não mudam a cada temporada de acordo com as tendências. Sobre essa necessidade iminente de sucessão, a segunda geração está dividida: muitos herdam as confecções dos pais,

mas também há uma grande evasão para outros trabalhos mais especializados. O que se observa é que a evasão da segunda geração das atividades da confecção acontece princi- palmente quando os pais têm pouco poder aquisitivo. Por isso, a adesão da segunda gera- ção às confecções parece ser maior no polo Aimorés-Lombroso.

Portanto, há uma presença massiva da segunda geração, ou seja, brasileiros nas- cidos em famílias antigas da colônia coreana que migraram para o Brasil nos anos 60 e 70, e da geração 1,5 da colônia coreana no polo Aimorés-Lombroso. Sendo assim, podemos afirmar que o alto poder aquisitivo e maior grau de assimilação cultural são fatores que diferenciam esse grupo de confeccionistas do restante. Os confec- cionistas da segunda geração se consideram pouco coreanos e não se identificam como sendo do Bom Retiro, apesar de ter negócios da família ali há mais de trinta anos. Como pudemos ver no capítulo anterior, poucos imigrantes antigos fizeram do Bom Retiro sua moradia. Muitos permanecem na Aclimação e outros migra- ram para outros bairros de classe média alta, próximos da região central, tais como Higienópolis e Perdizes. O seguinte relato de um confeccionista de segunda gera- ção da Lombroso, que nasceu na Aclimação, mudou-se para Higienópolis, estudou num colégio internacional e concluiu os estudos em Los Angeles antes de voltar para o Brasil para dar continuidade à confecção da família, ilustra bem a relação que a segunda geração de confeccionistas estabelece com o bairro do Bom Retiro.

Não frequento nenhum outro lugar do Bom Retiro. Só venho para cá porque tenho que trabalhar aqui. Se não, nem viria para o Bom Retiro. Às vezes, para jantar, porque é onde tem mais restaurantes coreanos. Mas nunca morei aqui, não quero e espero que não.33

No entanto, apesar da adesão da segunda geração, a continuidade dos negócios coreanos no polo têxtil do Bom Retiro parece ser uma incógnita, pois a difícil concorrên- cia interna e o cenário econômico dos últimos anos fizeram com que o bairro deixasse de atrair novos imigrantes coreanos.

33. Trecho da entrevista 1-5 (ver apêndice 1).

4.1.3.