Enquanto os coreanos que trabalhavam em oficinas de costura nos primeiros anos de imigração ascendiam gradativamente até possuírem confecções próprias, muitos outros que se dedicavam a diversos tipos de atividades comerciais, de pequenos varejos, tais como butiques, charutarias e quitandas, deixavam o que haviam conseguido até então para começar novamente na confecção, inspirados no sucesso das confecções do Bom Retiro e do Brás. Com isso, os coreanos passaram a concentrar-se no mesmo ramo de
atividade. E, apesar de serem atacadistas, a modalidade de pronta-entrega, que se asse- melhava à venda varejista, trouxe a necessidade de concentração espacial como estraté- gia comercial, formando uma espécie de cluster34 nesses dois bairros. Essa concentra-
ção provocou uma disputa acirrada por melhores pontos comerciais do Bom Retiro e do Brás, fazendo o preço dos aluguéis disparar.
Segundo uma corretora de imóveis do bairro, no caso da Rua Aimorés, onde 109 das 110 confecções presentes ali são de donos coreanos35, os proprietários são de todas as
etnias – judaica, sírio-libanesa, grega, brasileira e coreana – sendo baixa, até hoje, a par- cela de posse dos imóveis comerciais por coreanos. Isso significa que a maioria reserva uma boa parte dos seus lucros para custear a locação de um ponto comercial. Para que houvesse uma transferência de posse, precisaria haver quem quisesse comprar, mas tam- bém precisaria haver outro que quisesse vender e abrir mão de uma renda estável e cada vez mais lucrativa. A oferta escassa, naturalmente, também contribuiu para a valoriza- ção dos imóveis. Por essas razões, os pontos comerciais da Rua Aimorés sofreram uma supervalorização, tornando-se os imóveis comerciais mais caros do centro da cidade, ficando atrás somente da Rua 25 de Março, segundo os dados da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio do Estado de São Paulo (Embraesp) de 2006 (DANTAS, 2006).
Para estimar o valor real da locação de um imóvel comercial, é necessário considerar o valor da “luva”. Cobrar luva é uma prática comum que acontece na ocasião de firmar um contrato de locação de um ponto comercial de grande demanda e significa pagar uma quan- tia adiantada para adquirir o direito de uso. É um pagamento sigiloso e de caráter informal, e o inquilino está sujeito a ser cobrado a cada renovação do contrato. Para ter-se uma ideia, no início dos anos 90, houve registro da luva de 250 mil dólares paga por coreanos por um ponto comercial (CHOI, 1991, p. 107). Já em 2006, um imóvel de pequeno porte localizado na Rua Aimorés, de 750m2 com dois andares, seria locado por 27 mil reais de aluguel mediante o pagamento da luva de 300 mil dólares (DANTAS, 2006).
Em abril de 1988, um grupo de confeccionistas coreanos, insatisfeitos com o alto custo de locação, organizou-se e inaugurou o Shopping Center Luz, no edifício locali- zado na Praça Júlio Prestes, onde havia funcionado uma rodoviária, desde 1961 até 1982, quando esta se transferiu para a atual Rodoviária Tietê (FIGURA 4.10). Inicialmente, o
shopping oferecia espaço para 130 lojas de 90m2, sendo 100 delas de moda feminina. Todas as unidades vendiam em atacado e 70% das lojas ali instaladas eram de proprietá- rios coreanos (SUCESSO ... , 1988).
No começo, o ânimo era grande: parecia que o empreendimento viera para ser a solução definitiva, uma oportunidade de adquirir um ponto de preço acessível e não depender mais dos aluguéis. Entretanto, um shopping localizado longe do movimento
34. Segundo Marcuse (2005), “um cluster é uma área de concentração espacial de grupo de pessoas. É um termo genérico aplicável para qualquer concentração de membros de um grupo particular, porém definida, no espaço, numa escala maior do que um edifício”.
35. Contagem realizada no campo em novembro de 2015.
FIGURA 4.10
Shopping Center Luz em atividade. Fotos da autoria de Roberto Loffel, in: SUCESSO oriental. Veja São Paulo, p. 28. Hemeroteca do Arquivo Histórico da Cidade de São Paulo. São Paulo, 04 de maio de 1988.
FIGURA 4.11
Terreno do antigo Shopping Center Luz hoje. Foto de Marcelo Lee, 2016.
da José Paulino, isolado no meio da região conhecida como “cracolândia” e sem a pre- sença da rodoviária que trazia fluxo de compradores, não conseguiu ser atrativo. Quando foi interditado em 10 de fevereiro de 2010, por fiscais da Prefeitura que alegavam falta de equipamentos de combate a incêndio e irregularidades no plano de fuga, tinha apenas 127 das 300 unidades em operação (BRITO, 2009). Em seguida, houve a desapropria- ção do imóvel e, em março de 2010, o Shopping Center Luz foi demolido para dar lugar ao futuro Teatro da Dança com previsão de ser inaugurado em 2014 para fazer parte do Complexo Cultural Luz (BRANDALISE, 2010). Hoje, com o empreendimento suspenso e sem previsão de início da obra, o local continua vazio e cercado por gradis para evitar a invasão por moradores de rua (FIGURA 4.11), e muitos dos que possuíam lojas no sho-
pping ainda lutam na justiça para ganhar indenização.
Esse evento mostra a fragilidade da dinâmica de um polo comercial. Ao se imaginar que a relação com os comércios vizinhos, intervenções viárias e pequenas mudanças que modificam fluxo de pessoas já interferem no desempenho do comér- cio, consegue-se ter a ideia da complexidade da tarefa de transferir um polo comercial inteiro. Com o fim do empreendimento, o sentimento que ficou foi o de impotência, frustração e injustiça frente à ação do poder público. Por outro lado, a situação dos que continuam a pagar aluguéis gera uma sensação de que trabalham em vão: nada do que se paga para ter um espaço, nada do que se investe para melhorá-lo será deles em última instância enquanto não lograrem o sonho de possuir um imóvel próprio. Quando apostaram na revitalização da Aimorés e da Lombroso no início dos anos 2000, financiando diversas reformas com dinheiro do próprio bolso, os confeccio- nistas coreanos não imaginavam que aquilo iria voltar em forma do aumento de 60% do valor de aluguel em três anos (DANTAS, 2006). Ainda assim, no que essas ruas se tornaram hoje é o motivo de orgulho da colônia.
4.1.4.
TRANSFORMAÇÃO URBANA: DA ZONA DE MERETRIZES AO POLO