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Antes da invenção dos tipos móveis, o acesso à escrita era ainda mais restrito e difícil. Pois, como os registros escritos eram todos feitos à mão, a reprodução de documentos e de livros era demorada e os suportes de que se fazia uso, tais como o pergaminho, eram muito caros. A necessidade de conhecimento de um código específico dominado por poucos e o alto valor dos materiais envolvidos no registro escrito faziam dele um privilégio restrito às classes mais abastadas. Esse quadro só começou a se reverter com o advento da imprensa, que possibilitou a produção e reprodução de textos escritos em larga escala, diminuindo o custo e possibilitando a mais pessoas o acesso a este código tão seletivo.

O crédito da invenção da imprensa é, comumente, dado ao alemão Johannes Gutenberg e, apesar de sua criação ser de ordem técnica, é importante observar que suas implicações repercutiram nas mais variadas áreas da cultura.

espécie de papel chamado papiro, feito a partir de uma planta de mesmo nome. “Mas o que a civilização esperava era um alfabeto.” (Kiernan, 1993: 265). Um código capaz de sintetizar um conteúdo infinito de informações através de um número limitado e reduzido de signos. Os povos semíticos

Com ela, a interatividade e o envolvimento emotivo na transmissão do conhecimento e da informação via oral entre as pessoas encontrou um contraponto. A memorização já não era mais um elemento tão importante para a comunicação das idéias. Seu alto grau de fixação estimulou o processo de reflexão, possibilitando e facilitando a verificação e averiguação das idéias e do conhecimento transmitido, bem como a interpretação deste.

Também foi com o advento da imprensa que se tornou possível a transmissão de idéias e informações a partir de uma única fonte (um enunciador) para uma quantidade grande e dispersa geograficamente de pessoas (um público); tinha início aqui o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. E a tipografia começou a provocar as mudanças necessárias à configuração de seu meio ambiente, pois “qualquer nova tecnologia de transporte ou comunicação tende a criar seu respectivo meio ambiente humano” (McLuhan, 1977: 15).

Um único enunciador se dirigindo a um público disperso implicava em um ponto de vista uniforme, as pessoas recebiam a mesma mensagem, do mesmo emissor e através do mesmo meio. Embora este fato despertasse uma tendência à homogeneização, a possibilidade de ter consigo a mensagem impressa para interpretá-la despertava uma força em sentido contrário, permitindo que as pessoas discutissem o conteúdo impresso, seus diferentes pontos de vista e interpretações.

Essa maior possibilidade de discussão e de reflexão adquirida com o surgimento da imprensa sinaliza o pensamento de McLuhan (1977: 160), segundo o qual “O campo auditivo é simultâneo; o modo visual, sucessivo”. A audição é um

localizados na margem dos mares Vermelho e Mediterrâneo tiveram essa idéia despertada no segundo milênio a.C., e possuíam como ponto a favor o fato de as palavras de sua língua serem compostas essencialmente por consoantes. Eles buscavam uma forma de expressão gráfica que fosse mais simples do que as escritas cuneiforme e hieroglífica (Higounet, 1988).

processo desenvolvido concomitantemente à fala. Mesmo que o texto seja gravado e depois reproduzido, cada vez que a fala for acionada, a audição também o será, e é impossível escutar sem que seja durante o momento de reprodução de determinada fala ou som.

A simultaneidade não fornece tempo suficiente para a elaboração de uma reflexão e a percepção da existência de múltiplos pontos de vista a respeito de um assunto; a informação tem dificuldade de se desenvolver em camadas de profundidade, já que não há tempo hábil para o desdobramento destas várias camadas.

Já o caráter sucessivo do registro escrito da língua natural prolonga o texto no espaço do tempo e, conseqüentemente, o seu processo de semiose. Ele possibilita que o texto revele suas diferentes camadas do discurso, uma após a outra, aprofundando a informação e permitindo ao leitor a compreensão do ponto de vista do enunciador, a análise do discurso feito por este e a comparação com outros discursos. A informação passa a ser facilmente arquivada, portável, verificável e, junto com todas essas características, discutível.

É importante esclarecer que não estamos, com isso, afirmando que antes não havia discussões acerca de múltiplos pontos de vista de um assunto; o que se pretende clarificar aqui é que, com a imprensa e as mudanças trazidas por ela, a informação passou a ser verificável e seu discurso, analisável e compreendido nas diferentes esferas de profundidade, pois a durabilidade do suporte da escrita não só permitia e permite, como também favorece, o registro da informação. Essas mudanças implicaram uma maior reflexão sobre o discurso, sua manipulação e o questionamento dos seus pontos de vista, uma vez que a

O elo entre a escrita silábica e a alfabética é a escrita pseudo- hieroglífica encontrada em Biblos, gravada em pedra e bronze. Estima-se que estas inscrições datem do século XV e XIV a.C. A língua usada nesta escrita é o fenício e, embora o número de sinais seja elevado (cerca de 114), há características que aproximam este registro escrito da escrita alfabética. São

escrita funciona como prova material da difusão do pensamento. Tal possibilidade resultou também numa análise mais profunda do verbal escrito e de seus aspectos sensíveis, a possibilidade de explorar suas formas e de passar a percebê-las e apreendê-las de maneira simultânea, por meio da linguagem gráfico-espacial, que se apresenta como uma forma de organizar a informação não apenas no espaço, mas também no tempo; articulando os elementos que a constituem de forma a orientar a leitura. Essa necessidade de organização visual da informação para torná-la mais fácil e rapidamente apreendida, surgiu por causa do grande fluxo e volume de informação escrita desencadeados pela tipografia, desenvolvendo a linguagem gráfico-espacial da diagramação e intensificando o sentido da visão.

Todas essas questões levantadas pelo surgimento da escrita e da imprensa são inerentes não apenas à formatação do pensamento, mas também ao suporte de que faziam e fazem uso, sinalizando a máxima macluhaniana: o meio é a mensagem. O meio ocupa um local de destaque na comunicação e, ao contrário do que pode parecer, exerce um papel ativo no processo comunicativo. O canal não é um mero veículo que apenas transporta conteúdo, inócuo e passivo, um mero suporte material da comunicação. Muito pelo contrário, meio, suporte e a tecnologia por meio da qual a mensagem é transmitida afetam profundamente não apenas o formato da mensagem, mas também sua linguagem e conteúdo. Cada meio de comunicação estabelece relações específicas com emissor e receptor, desperta diferentes estruturas perceptivas e implica mecanismos de compreensão diferenciados. É tomando essa premissa como

elas: emprego, em alguns casos, de um sinal consonantal em vez de um silábico e o estabelecimento do valor fonético do sinal realizado de forma independente de sua origem. Aliás, esse estabelecimento do valor feito baseado numa regra arbitrária é justamente a forma como são definidos os valores fonéticos de cada símbolo do alfabeto (Higounet, 1988). O

base que os suportes do verbal escrito serão analisados em relação às interferências que provocam na comunicação.

A dimensão gráfico-espacial do jornal é simultânea, enquanto o verbal escrito se desenvolve na sucessividade de que falou McLuhan. O processo de leitura é um ato seqüencial, onde a significação é construída através da consecutividade de seus elementos, que, quando diagramados no espaço gráfico, passam a ser percebidos de forma simultânea. Portanto, a diagramação da primeira página do jornal é que possibilita ao leitor perceber numa primeira vista o conjunto de seus elementos e a variedade de notícias e informação ali presentes, apresentando-as de maneira organizada para que, embora percebidas de forma simultânea, não padeçam do efeito de poluição visual que poderia trazer dificuldade de interpretação. Feita esta primeira leitura, a heterogeneidade desses elementos e a diferente forma com que cada um deles se apresenta causa um estranhamento no leitor que, ao perceber a diversidade de formas e linguagens, desenvolve uma segunda leitura, consecutiva e ordenada, onde os elementos passam a ser percebidos e lidos um por vez. Esse processo de ordenação da heterogeneidade não possui certezas, acertos ou rigidez, ele é fluido, realizado por meio da percepção e construção de sentido através da memória cultural do leitor, caracterizando uma interatividade entre ele e a diagramação da página.

A linguagem gráfica que a imprensa desenvolveu prolongou o sentido da visão, em contraposição à cultura manuscrita onde havia uma maior interação entre os sentidos, principalmente entre o oral (da fala), o tato (das diferentes texturas dos suportes utilizados para a escrita na sua manufatura) e do visual (da escrita). Para McLuhan, as tecnologias mecânica e tipográfica especializaram o

estabelecimento de uma lei que rege o processo de significação do signo é a característica fundamental que o define como um símbolo e faz com que ele se liberte da função referencial do ícone e do índice.

O alfabeto surgiu na primeira metade do segundo milênio a.C. na região noroeste da costa do Mediterrâneo, e foi inventado por pequenos povos

homem, fecharam-no num mundo de produção em larga-escala, o mundo do público e da massa, um mundo em que uma única fonte fala com muitos, através de um único sentido e, com isso, os burgueses se aproximaram da especialização, do isolamento das funções e das etapas, não mais simultâneas.

As características da imprensa aqui citadas de forte estímulo a apenas um dos sentidos, grande fluxo de informação e massificação, participação limitada do público no processo comunicativo e informações fechadas, que não deixam muito a ser completado pelo leitor, foram apontadas por McLuhan ao classificar o jornal como um meio quente. Ao longo da análise deste meio nos dias atuais, perceberemos que esta proposição não se aplica mais de maneira tão rígida ao jornal, uma vez que este passou e tem passado por muitas transformações, pois, de lá para cá, assistiu ao desenvolvimento da televisão, ao surgimento da internet e do celular, para mencionar apenas algumas das muitas linguagens que passaram a dialogar com ele. São analisadas aqui a primeira página dos jornais Folha de S. Paulo (a Folha) e O Estado de S. Paulo (o Estadão).