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Winsor McCay, nos Estados Unidos, então famoso por seu trabalho como cartunista, principalmente pela criação de “Little Nemo in Slumberland”, “quadrinho surrealista no estilo art noveau” (Bendazzi, 1988, p.21), publicado no jornal New York Herald, aproveitou a popularidade dos quadrinhos e realizou diversos espetáculos de “Lightning Speed”.72

71É o caso dos dinossauros em “Jurassic Park”; a panorâmica sobre o navio “Titanic”, citado e

exemplificado, anteriormente: tanto o navio é animação como as pessoas que andam pelo convés e o mar. Igualmente, no efeito da continuação do vôo na vassoura de “Hary Potter”. Estas utilizações não demandam uma classificação em separado. A presença da animação está cada vez mais ampliada, em especial quando assume destaque nos efeitos especiais. Para isso, ela precisa se tornar a mais integrada possível, para resultar em “invisível”.

72 McCay utilizava lousa e giz, permitindo uma série de transformações no desenho, seja

apagando, acrescentando ou alterando alguns traços, produziu uma opereta, com três atos, seguido de uma linha de produtos, como sandálias e relógios de bolso. Houve muita crítica à postura comercial de McCay, com relação aos espetáculos e produtos relacionados ao cartoon (Solomon, 1994, p.16). Estes espetáculos, já tinham similaridade muito grande com as técnicas de mudança de posições dos desenhos, necessárias para animação. É possível que McCay já estivesse pensando

Em 1911, ele transpôs “Little Nemo” para animação cinematográfica, desafiado pelo cartunista George McManus, criador de “Bringing up Father”, conhecido no Brasil como “Pafúncio e Marocas” (o primeiro quadrinho a ter projeção internacional e o segundo em longevidade, cerca de 40 anos, só superado por “Sobrinhos do Capitão”, de Rudolph Dirks, que continua sendo editado).

Motivado pela velocidade com que McCay desenhava. John Fitzsimmons, antigo assistente de McCay, responsável pelos desenhos dos cenários de “Gertie, o Dinossauro”, relatou que “Little Nemo”, foi resultado de uma aposta feita entre os dois cartunistas em uma taberna. McManus teria sugerido jocosamente que McCay fizesse alguns milhares de desenhos, fotografasse e apresentasse em seus espetáculos como um filme (Solomon, 1994, p.16).

Ilustração 44 - Fotograma do filme "Little Nemo”. 73

em cinema, uma vez que os quadros desenhados para seus espetáculos já mostravam características de fases de movimento.

73 “Little Nemo” 1911, produção e direção de Winsor McCay. Fotograma extraído do DVD

Para “Little Nemo”, McCay produziu cerca de quatro mil desenhos, feitos em nanquim sobre folhas de papel branco, alinhados por uma guia de madeira, em forma de “L”, colocada no canto da prancheta, que permitia manter o registro entre os desenhos. As cópias foram colorizadas posteriormente, pelo processo manual de colorização diretamente na película. 74

McCay tinha habilidade natural para desenhar movimentos e perspectivas. Ela pode ser notada na animação dos personagens; principalmente, nos movimentos de um “réptil carruagem”, ao final de “Little Nemo”, que se vira lentamente diante da câmera e vai em direção ao fundo, com grande naturalidade anatômica.

Ilustração 45 - Fotogramas de "Little Nemo”. 75

Winsor McCay inicia a construção de uma linguagem própria para a animação, utilizando elementos da montagem e da linguagem cinematográfica que começava a ser estabelecida nos filmes de ação “ao vivo”, por Edwin S. Porter, com “Life of an American Fireman”, de 1902, e “The Great Train Robbery”, de 1903, seguido por D. W. Griffth, com “The Birth of a Nation”, de 1915, e “Intolerance”, de 1916.

74 Estas informações sobre a complexidade de produção eram amplamente divulgadas por McCay,

que se orgulhava do gigantismo do processo que atribuía aos filmes uma característica mágica, como simples desenhos em papel podiam tomar vida? Tudo isso era usado por ele para promover os filmes, inclusive encartes em jornal com um papel mais grosso que as crianças podiam recortar e montar, com elásticos pequenos, flip-book com seqüências de animação publicadas nas edições de domingo do jornal “New York American” (Solomon, 1994, p.16).

75 “Little Nemo” 1911, produção e direção de Winsor McCay. Fotograma extraído do DVD

Porter, para envolver o espectador, usou artifícios inovadores como o dos cortes, as variações de enquadramentos, movimentos de câmera, zoom, montagem paralela e de ações, impensáveis para a época, como o uso de armas apontadas diretamente para o público.

O pernilongo “Steve”, personagem de “How to Mosquito Operate”, segundo filme animado de Winsor McCay, realizado em 1912, provavelmente inspirado pelos filmes de Porter, em vários momentos olha em direção ao espectador buscando cumplicidade com a platéia, além de a saudar, no início do filme, com sua cartola, acena diretamente para a câmera, atraindo a atenção para si, antes de realizar uma série de cambalhotas.

O homem, importunado pelo pernilongo, realiza movimentos com precisão fotográfica e mudanças de ponto de vista e ângulo de câmera, como o da cena em que o pernilongo percebe que é muito grande para passar pelo buraco da fechadura. O ângulo de câmera é trocado, para mostrar-lo entrando pela clarabóia. Em outro momento, a aproximação do pescoço do homem, para mostrar a picada, chega ao close-up extremo.

O realismo das expressões, inclusive dos movimentos secundários, como a respiração do homem ou o movimento de sua mão, surpreendem até hoje. Demonstram não só uma grande habilidade em desenhar, mas um profundo conhecimento de anatomia, além das análises de movimentos de animais e humanos, já muito divulgados nos trabalhos de Marrey e Muybridge. “A nossa reação ao pernilongo sugando o sangue causa o mesmo desconforto que a cena do olho sendo cortado pela navalha em “Un Chien Andalou”, de Luis Brunuel e Salvador Dali” (Crafton, 1993, p.109).

Ilustração 46 - Fotogramas do filme "How to Mosquito Operate". Dois momentos do filme: a esquerda, no início, quando o pernilongo cumprimenta a platéia antes de iniciar seu ataque; a direita, quando acena ao publico, chamando a atenção para a série de cambalhotas.76

Quando ocorre a sobreposição personagens, o desenho posicionado por trás, necessita que se apaguem os traços na área sobreposta, para impedir a impressão de transparência, o que chamamos, hoje, “checagem”.

Ilustração 47 – À esquerda, desenhos sobrepostos, sem checagem. À direita, a mesma sobreposição de desenhos, com checagem. 77

Isso nos sugere que o processo utilizado por McCay estava muito próximo das etapas de produção estabelecidas até hoje. Ele consiste em “animação”, “Intercalação ou intervalação” e “clean-up”.

76 “How to mosquito operate” 1912, produção e direção de Winsor McCay. Fotograma extraído

do DVD Animazing volume 1.

Na fase de “animação”, o animador prepara a seqüência de desenhos do movimento, ainda como esboço, sem se preocupar com o traçado final do personagem.