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Assim que “as preferenciais” terminaram a comida no sábado, a guia abriu o bagageiro do ônibus e pouco a pouco as mulheres saíram dos quartos da pousada com suas malas, comidas e jumbos. Cabelos molhados, vestindo pijamas e com cobertores e travesseiros nas mãos, já estava na hora de irmos para porta da cadeia. A guia cuidadosamente arrumava o bagageiro de modo a caberem todas as malas sem amassar os jumbos. A comida era levada no colo ou em sacolas separadas no bagageiro. Em certos casos os recipientes plásticos iam com a tampa aberta, pois, como era sempre lembrado, “comida quente no pote fechado, azeda”. Ainda não eram nove da noite, mas as cunhadas se apressavam para chegarem logo à fila para a visita do dia seguinte. O quanto antes chegassem, antes estariam com o preso no domingo. Lembravam que na saída da visita naquela tarde de sábado já havia carros parados na fila para a visita do domingo. As cunhadas, então, ocuparam seus lugares dentro do ônibus e deixamos a pousada. Desviamos o caminho duas vezes para buscar as mulheres que se hospedavam em outros lugares antes de, definitivamente, seguirmos para a cadeia.

Passar a noite na fila à espera da visita do domingo, desconfortavelmente dentro dos ônibus ou em barracas ou em lençóis esticados no chão, apesar de ser consensualmente considerado cruel e sofrido pelas mulheres, era avaliado positivamente no que concernia ao cuidado e à dedicação conferida ao preso. Era por situações como essas, que incitavam sentimentos paradoxos como crueldade/sofrimento de alguma forma positivado, que a visita, segundo as mulheres, era considerada sagrada pelos apenados. De acordo com as cunhadas, todos os sacrifícios que brotavam da caminhada condicionavam um caráter sagrado à “família” segundo os apenados. Mais uma vez, “família” aparecia como sinônimo de visita que, especificamente neste caso, diante do ponto de vista dos presos ressaltado pelas cunhadas, propiciava um sentido sagrado ao termo.

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Logo, este capítulo centraliza-se no ponto de vista das cunhadas sobre o ponto de vista dos apenados a respeito da “família”. No capítulo 1 foi privilegiado o ponto de vista das cunhadas sobre o ponto do vista do corpo institucional, o que descortinou sentidos específicos à “família”. Primeiro, consonante à frequência na visita que, como vimos, imprimia uma referência positiva ao apenado (por ter família), além de colocar em evidência a intencionalidade das cunhadas ao visitarem com assiduidade por, convenientemente, jogarem o jogo da instituição. Depois, decorrente do tratamento dispensado às mulheres, nas revistas ou a quilômetros de distância do perímetro institucional, o que conferia suspeição extensiva às cunhadas derivada do relacionamento com o apenado. Assim, como já mencionado, neste capítulo, diante da perspectiva das cunhadas sobre o ponto de vista dos presos, confere-se à “família” um sentido sagrado fundamentado no sacrifício que se combinava à caminhada.

De modo precedente, serão explorados os componentes disso que os presos, segundo suas mulheres, denominavam sacrifício. Em seguida, a análise se concentrará nos enunciados sobre o proceder32. Em primeiro lugar, porque ter ou não ter proceder era igualmente um enunciado evidenciado pelo ponto de vista dos presos, conforme enfatizavam as cunhadas. Em segundo lugar, porque, ainda que toda família fosse considerada sagrada pelos apenados em virtude dos potenciais sacrifícios relacionados ao evento-prisão, de acordo com as narrativas de minhas interlocutoras de pesquisa,

32Marques (2009: 24) chama a atenção para a qualidade extensiva da noção de proceder, visto os

diferentes contextos sociais em que a noção é articulada: ruas, campos e estádio de futebol, escolas, pista de skate, lotações, ônibus, letras de rap e de funk. O autor também apresenta as contribuições da literatura sobre esse caráter extensivo do proceder: entre pixadores, grupos ligados à periferia, movimento Hip Hop, torcidas organizadas, baloeiros, skatistas (Pereira 2005) e compondo uma gramática comum ao futebol de várzea, ao Primeiro Comando da Capital (PCC), perueiros, fiscais, ladrões, traficantes (Hirata 2006). Além disso, Marques mostra que a noção de proceder excede limites espaciais, sendo acionada em diferentes lugares na capital paulista, no interior do estado, no litoral, no estado do Rio de Janeiro e Brasília. De todo o modo, como sugere o autor, apesar de sua recorrência ao termo não se configura um sentido homogêneo. O que, por outro lado, não implica em contradições de pontos de vistas, como ressaltam Biondi e Marques (2010: 43) inspirados no uso que Villela (2004: 22) faz dos termos perspectivismo e ponto de vista. Trata-se, antes, de “diferenças”. Dessa forma, entende-se que os sentidos heterogêneos evidenciados em termos recorrentes, antes do que “veracidade” ou “falta de exatidão”, nas palavras de Biondi e Marques, indicam que “o real se multiplicava a cada vez que trocávamos de ponto de vista” (: 44).

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eram dissonantes as opiniões a respeito das visitas que, de fato, enfrentavam os sacrifícios da caminhada. As mulheres, por exemplo, que optavam em dormir confortavelmente na pensão e chegavam à fila pela manhã (salvo as “preferenciais”), eram negativamente avaliadas pelas outras cunhadas e muitas vezes consideradas “mulheres sem proceder”. Ter proceder, como se verá, agregava às mulheres uma adjetivação positiva. Visto que o adjetivo tinha como superfície de contato uma disciplina/ética implicada na caminhada que, como se verá, era constantemente negociada entre as mulheres em virtude dos potenciais constrangimentos morais que atingiam a estabilidade do enunciado ético. Estratégias, negociações e táticas que se estabilizavam no debate, o último assunto abordado neste capítulo. O debate atuava como um mecanismo capaz de trazer visibilidade à mulher de proceder. Um dos elementos que compunham a mulher fiel, tema do terceiro, e último, capítulo desta etnografia.