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De multinasjonale koalisjonsoperasjonene over Libya

Militærmakt versus FN-mandat

I. De multinasjonale koalisjonsoperasjonene over Libya

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Dentro do ônibus, ainda na madrugada de sábado para domingo, não foi uma tarefa fácil encontrar um espaço para dormir. Completamente escuro e com as mulheres deitadas em toda a extensão do corredor, a passagem ao fundo do ônibus (a única esperança em haver lugares) foi realizada diante de muitos obstáculos. Uma cunhada à frente, sussurrando a evitar acordar as mulheres que dormiam (ainda que ao passar fosse inevitável não pisar em seus cabelos, mãos e pés), indicou um espaço à Isadora no corredor: “olha, aqui cabe você e a Jacque no valete”. De fato coubemos as duas “no valete”, deitadas contrariamente de modo a alinhar os pés de uma com a cabeça da outra. Mas foi impossível adormecer. Qualquer posição era muito desconfortável e rapidamente pudemos sentir a umidade do lençol que havíamos esticado no chão. Tomadas pelo desalento, às 5h30 da manhã resolvemos sair do ônibus e ir ao banheiro. Ao sairmos, estranhamos a ausência das mulheres que dormiram na pensão e das que saíram de São Paulo no sábado à noite. Afinal, comumente às 5h da manhã muitas delas já tomavam café no trailer de Leo e Simone. Depois de traçarmos algumas teorias sobre o que poderia ter ocorrido com as mulheres, ficarmos apreensivas e preocupadas, lembramos que o horário de verão havia acabado e ainda eram 4h30 da manhã. Ironicamente, Isadora resumiu aquela noite: “Nada como ter uma hora a mais na vida, na porta da cadeia, dormindo nessas condições. Gostou da experiência, Jacque?”. Eu sorri, enquanto nos dirigíamos à fila do banheiro. Estava muito escuro e o frio intenso continuava. Muitas mulheres e crianças esperavam pelo uso do banheiro, composto, apenas, por um sanitário e uma pia ao lado de fora. Nos fundos do banheiro, as mulheres organizavam-se para o banho de mangueira com água fria. Naquela manhã a porta da cadeia estava lotada. Saímos do banheiro e as cunhadas já caminhavam de um lado para o outro a se arrumarem para a visita. Entre a neblina e o nascer do dia já era possível enxergar o colorido das calças leggings.

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Depois de muita espera na fila do banheiro, sentamos no trailer de Leo e Simone e muita conversa rolou até que as cunhadas voltassem ao ônibus para a chamada feita pela guia de modo a organizar a ordem da fila de entrada na prisão. Eu ajudava nas vendas dos doces da Nicole e, quando solicitada, auxiliava algumas mulheres a preencherem os formulários de visita requisitados e distribuídos pela instituição. Após algumas semanas em campo, também arriscava algumas maquiagens nas mulheres que me eram mais próximas. Em geral, antes da chamada as mulheres costumavam estar prontas para a visita: vestidas com a roupa exigida pelo estabelecimento penal, maquiadas, perfumadas e com a comida e o jumbo prontos. O ambiente era tomado por ansiedade, o que se evidenciava nas reclamações das mulheres pela demora em abrirem os portões da prisão, assim como nas especulações sobre a impaciência dos presos que as aguardavam. Em momentos como aqueles era que mais se escutava sobre a saudade e o desejo em ter o preso em casa para que, assim, “a família ficasse completa” e, consequentemente, “tudo fosse diferente”.

Conforme me disse uma das mulheres naquela manhã:

Não vejo a hora de esse sofrimento acabar, essa saudade, de ter o meu marido em casa e a minha família completa. Por isso que não é em vão tudo o que eu faço pra tá aqui. É pra ter a minha família completa. Todo mundo aqui tem na mente que caminhada é longa. Mas ela não é eterna. E só quem é fiel pra ir até o fim.

De acordo com a fala da cunhada, pode-se dizer que “família” era compreendida por meio de três sentidos distintos do ponto de vista das mulheres. Primeiramente, ao termo família garantia-se um sentido imperfectivo proporcionado pela saudade, pelo sofrimento e pela ausência domiciliar do marido (efeitos do cárcere e da caminhada) que agiam como obstáculos para sua realização plena. Sendo assim, o caráter imperfeito atribuído à família estava diretamente ligado aos sacrifícios (cf. capítulo 2) enfrentados pelas mulheres que estavam na caminhada, e não por constituírem uma deformação

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mediante um modelo ideal que lhe ditaria os parâmetros de ser família. O primeiro sentido atribuído ao vocábulo família pelas cunhadas era, portanto, de incompletude.

Também como sugere a fala reproduzida acima, tratava-se de uma família- imperfectiva que se completaria em virtude dos esforços condicionados pela caminhada, visto que “não é em vão tudo o que eu faço pra tá aqui. É pra ter a minha família completa”. Assim, a frequência nas visitas, o jumbo, a comida, o fato de aderir à caminhada, não abandonar o preso, enfrentar os sacrifícios, estar na disciplina e ter proceder (como vimos no capítulo 1 e 2) deslindava o sentido de família-manutenção, visível nessa situação não permanente proporcionada pelo evento-prisão. Desse modo, manutenção é o segundo significado atribuído ao termo família pelas cunhadas. Sentido que não seria viabilizado sem o primeiro significado conferido pelas mulheres, o imperfectivo. Afinal, intencionava-se manter aquilo que carecia de manutenção. No caso, a família-incompleta. Tampouco, faria sentido sem a terceira acepção formulada pelas cunhadas que se associava à ideia de completude, como apresento a seguir.

A família-completa aparecia nas falas das interlocutoras de pesquisa como um projeto posterior à “sonhada liberdade” dos maridos. Ela só se realizaria no futuro. Sabia-se, como indicado na fala da cunhada, que a “caminhada é longa” para que a família se completasse, contudo, mais do que a liberdade do apenado, a família- completa tinha como protagonista a mulher fiel, pois “só quem é fiel pra ir até o fim”. Para atingir a plenitude da família, portanto, mais do que estar na caminhada, que era equivalente a ter a família incompleta, mais do que manter a família e ter a liberdade do marido, era preciso ser fiel.

O protagonismo da fiel é o tema abordado nesse capítulo. No capítulo 1 o esforço analítico foi centrado no ponto de vista das cunhadas sobre o ponto do vista do corpo institucional sobre a “família”, o que desanuviou dois sentidos ao termo, além do

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sentido sinônimo de visita observado em todas as perspectivas atravessadas pelo evento- prisão. Primeiramente, um sentido positivo pelo reconhecimento de que o apenado tinha família. Depois, um sentido negativo pela suspeição extensiva às cunhadas ao serem reconhecidas como a família do preso. No segundo capítulo, foi privilegiado o ponto de vista das cunhadas sobre o ponto de vista dos presos. O que conferiu à família um sentido sagrado fundamentado nos sacrifícios que se combinavam à caminhada. Assim, neste terceiro capítulo, apresento os elementos que compõem a mulher fiel de acordo com os enunciados das cunhadas, mas não sem percorrer os três sentidos de “família” que brotaram da concentração da análise no ponto de vista destas interlocutoras: a família-imperfectiva, a família-manutenção e a família-completa.

A condição incompleta associada à família era inescapável às mulheres que aderiram à caminhada. A família-manutenção, diferentemente, era caracterizada pela intencionalidade. Intenção em conformar a família-completa, cuja distinção se evidenciava pelo seu caráter teleológico. Sugiro, desse modo, que esses três sentidos de família não se descolavam uns dos outros. Ainda assim, por exigência analítica, proponho suas imagens diferenciadas.

Dessa maneira, como já mencionado, discorro a seguir sobre os enunciados articulados pelas cunhadas no que concerne à composição de uma mulher fiel, dado sua centralidade para a existência dessas famílias. Mais especificamente, descrevo o que as cunhadas diziam sobre o que era ser fiel. Visando este objetivo, apoio-me em suas práticas discursivas tanto estáveis, quanto díspares, a respeito da imagem da mulher fiel. Sem, contudo, ignorar seus contrários e suas adjacências. Dito de outro modo, a análise que se segue discorrerá sobre os enunciados sobre a imagem das mulheres fiéis e as não consideradas fiéis, além dos demais “tipos de mulheres” que estavam na caminhada que, contrastivamente, contribuíam com a construção da mulher fiel.

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Em seguida, abordo os investimentos das cunhadas evidenciados nas negociações e nas variações de atualizações de condutas decorrentes da adesão à caminhada. Sobretudo, aclaradas pela ideia de “meter o louco” que, como veremos, ensejava o modo como as mulheres conduziam situações particularmente experienciadas face às vontades e aos desejos de seus maridos. Sugiro, a partir da ideia de “meter o louco”, a configuração de um efeito-resistência. Sugestão que instaura um oximoro diante da coexistência de um efeito-resistência e mulheres consideradas “submissas” (tantas vezes lembradas entre as cunhadas). A fim de apreender esta aparente contradição, exploro, ancorada ao material etnográfico, os enunciados acerca do termo submissa mobilizados pelas interlocutoras desta pesquisa.

3.1) “Aqui quem fecha é a fiel”. Família-imperfectiva, família-