Através dos resultados acima apresentados foi possível concluir que, em geral, as empresas fabricantes de poltronas não possuem uma definição concreta do conceito
de ergonomia. A maioria delas acredita que a inserção do conceito ao desenvolvimento de produto se resume à adequação do mesmo aos parâmetros antropométricos, recebendo especificações prontas das montadoras.
Falando em parâmetros antropométricos estes são, na maioria das vezes, especificadas pelos clientes ou adequadas ao mercado ao qual o produto se destina. Geralmente chegam aos projetistas através de cadernos de especificações, livros ou dados de benchmark da matriz. Apenas a empresa D mencionou realizar medições antropométricas em suas pesquisas de campo. O percentil utilizado geralmente é especificação da montadora. Uma prática bastante observada durante o benchmark foi o dimensionamento de poltronas a partir do ponto H, ou seja, o ponto de interseção entre o torso e as pernas, bem como a utilização do Manequim Tridimensional para a realização das análises e testes. Apenas a empresa E mencionou fazer uso de outros pontos do corpo para dimensionar as poltronas e de outra ferramenta conhecida como Braço Romer, além do Manequim Tridimensional.
Outro fator que foi bastante observado nas empresas foi a preocupação com a segurança. Todas elas seguem as normas, que na maioria das vezes, são especificadas pelos clientes (montadoras) ou adequadas ao mercado ao qual se destina o produto e realizam os testes obrigatórios, seja no Brasil ou na matriz.
As empresas B e C relataram preocupações com a questão da usabilidade, com a realização de testes e simulações para evitar que o produto tenha problemas de acessibilidade após seu lançamento.
O fato de que a inserção dos conceitos de ergonomia ao desenvolvimento de poltronas nas empresas visitadas ainda se dá de forma falha pode ser ainda mais confirmado quando se observa a composição das equipes que cuidam dessa atividade, uma vez que apenas a empresa E mencionou ter em sua equipe um profissional especializado na área. As demais partem de especificações enviadas pelas montadoras acerca dos critérios de ergonomia a serem utilizados.
Falando em conforto, todas as empresas relataram preocupações, mas nem todas possuem ferramentas específicas de análise desse fator. Na maioria delas, o conceito não possui uma definição concreta. Apenas duas empresas deram definições mais objetivas com relação à esse assunto: para a empresa C que fabrica estruturas, o nível de conforto percebido pelo usuário é proporcional à variedade de ajustes que são oferecidos aos usuários. Já a empresa B considera a questão da distribuição da pressão uma grande determinante do conforto e vê no Pressure Mapping uma ferramenta capaz
de proporcionar dados mais objetivos nesse sentido. Todas as empresas citaram a realização do Pressure Mapping como ferramenta de análise de conforto. Esta mesma empresa acredita que o nível de conforto também é proporcional à quantidade de ruído emitida pela poltrona, realizando testes para evitar que este ultrapasse os 50 dB permitidos.
Na maioria das empresas os conceitos de conforto adotados são definições dos clientes (que são as montadoras). Geralmente, elas realizam pesquisas e estudos relacionados a esses aspectos e passam especificações prontas às fabricantes.
Em algumas empresas, as pesquisas de conforto são realizadas na matriz, que possuem centros tecnológicos de pesquisa, e as informações são repassadas às filiais. A empresa E mencionou que foi inaugurado um centro de pesquisas no Brasil, similar ao da matriz e deve começar a fazer pesquisas das necessidades dos usuários.
Algumas empresas se destacaram pelas análises de conforto realizadas, principalmente por terem como foco a análise da atividade dos futuros usuários. A empresa A, apesar de receber especificações prontas também realiza análises de uso e dos locais onde serão utilizados os produtos, para que estes conceitos sejam analisados e introduzidos aos projetos. Já a empresa D mencionou realizar pesquisas etnográficas com usuários e pesquisas de campo para realizar inovações incrementais, com aplicação de questionários sobre conforto, registro de dados antropométricos, registros fotográficos e observações do usuário em situação de uso (situações reais). As informações relacionadas ao conforto são armazenadas em um banco de dados que é consultado na fase de análise de uso, postural e acional, que precede a fase de criação dos parâmetros projetuais. Essa mesma empresa mencionou realizar validações do produto com usuários finais, utilizando mock-ups físicos e virtuais e protótipos em escala real, prática também observada em algumas das outras empresas.
Dessa forma, dados das necessidades dos usuários chegam através de pesquisas nas montadoras, benchmark na matriz e, em menor escala pesquisas nas próprias fabricantes. A empresa C mencionou ainda que possui um sistema de rastreabilidade das reclamações dos usuários em conjunto com as montadoras, para levantar críticas e recomendar soluções ao projeto.
Através do benchmark foi possível entender os principais conceitos utilizados pelas fabricantes de poltronas em termos de ergonomia e conforto, bem como fazer um levantamento das principais práticas, métodos e ferramentas utilizadas. Como conclusão, foi possível visualizar que apesar de algumas empresas darem exemplos de
boas práticas de análise da atividade do usuário como ferramenta para projeto, principalmente as empresas A e D, não foi encontrada uma consolidação enquanto metodologia universalmente aceita. O Mapeamento de Pressão, por exemplo, ferramenta utilizada em quase todas as empresas para analisar o conforto, é realizado com o usuário na posição estática e por pouco tempo, o que dificulta a compreensão do conforto. Essas práticas mencionadas podem ser mais investigadas nas montadoras e nas matrizes das fabricantes, pelo fato destas passarem especificações às empresas visitadas, bem como compartiharem dados de pesquisa realizados.
Assim, podemos observar que da mesma forma como acontece na literatura, também na prática o processo de desenvolvimento de poltronas se dá através de um conjunto de especificações que partem dos clientes. Apenas as empresas A e D mencionaram a preocupação com a análise da atividade dos usuários. As demais análises de conforto, como o Mapeamento de Pressão não refletem a dinamicidade das atividades a serem desenvolvidas pelos usuários, uma vez que é realizado estaticamente e por pouco tempo. Assim justifica-se a necessidade de mais pesquisas, em situação de uso, para a proposição de um desdobramento que possa ser utilizado em futuras pesquisas.
No próximo tópico, são apresentados os resultados do terceiro procedimento desta pesquisa, que consistiu na medição de aeronaves para posterior confrontação aos dados da literatura e na realização de um teste piloto de análise da atividade de um passageiro em situação real de vôo, buscando propor um desdobramento de análise de conforto baseado na atividade dos usuários que possa ser utilizado em pesquisas futuras.