A atividade de trabalho, conforme já referido, é lugar de efervescência, à medida que constitui espaço de retrabalho das normas. Com efeito, embora as prescrições sejam observadas, na atividade de trabalho essas produções serão objeto de renormalizações.
Nessa perspectiva, o pressuposto de que a atividade é o espaço dos usos de si, da microgestão, do (re)fazer, remete à dinâmica de produção de saberes. De acordo com Schwartz (2003, p.23), toda atividade de trabalho “encontra saberes acumulados nos instrumentos, nas técnicas, nos dispositivos coletivos, toda atividade de trabalho está saturada de normas de vida, de formas de exploração da natureza e dos homens uns pelos outros”. Contudo, não obstante a relevância desse patrimônio no que tange a informar sobre as maneiras de fazer, seja em função das variabilidades do meio, seja devido as instabilidades, escolhas, valores dos trabalhadores, essas produções não conseguirão abarcar a totalidade das demandas que precisam ser geridas na atividade. Nesse sentido, sempre, na atividade, haverá a possibilidade de ressignificação desse legado, com a consequente criação de outros saberes.
Para a ergologia, os saberes podem emergir diretamente da atuação dos sujeitos, em função das suas escolhas, das suas renormalizações, das suas experiências. Nesse caso, esses saberes são denominados práticos, investidos, aderentes à ação.
Há também os saberes que pertencem ao plano do histórico, que foram estocados pela coletividade, constituindo um patrimônio comum, que é socializado pelos grupos sociais. Estes são nomeados como disciplinares, acadêmicos, instituídos, desaderentes. Sua elaboração
ocorre em momento anterior às situações de trabalho e, nessa medida, podem ser convocados no exercício da atividade de trabalho, como forma de promover a antecipação dos eventos.
Dessa forma, quando se deseja conhecer as situações de trabalho, é preciso ter em vista que há os saberes conceituais, desaderentes, mas que, na atividade, são realizados debates de normas que ocasionam as renormalizações com a consequente produção de novos saberes. Assim, com o intuito de melhor conhecer a atividade de trabalho, a ergologia propõe o Dispositivo Dinâmico de Três Polos (DD3P). Explica Schwartz (2013, p.336) que:
Se quisermos conhecer a atividade humana que se apresenta frente a nós, nas empresas, em qualquer situação onde existe atividade, não podemos vacilar quanto ao resultado. Temos que nos dar um dispositivo para fazer o trabalho em comum. De um lado as pessoas que aprenderam conceitos, teorias que são pertinentes em qualquer situação, porque em qualquer situação teremos as normas antecedentes, os procedimentos técnicos, jurídicos, que se aprendem, e há pessoas, como na universidade, que são peritos sobre conceitos. Mas, já que sabemos que nenhuma situação de trabalho pode ser abordada unicamente com esse patrimônio conceitual, porque esse patrimônio conceitual não pode antecipar as renormalizações, temos que trabalhar em comum entre os que detêm mais ou menos conceitos e os que são centros de renormalizações. São os dois polos. E porque um terceiro polo? Porque se não compartilhamos esse ideal antropológico da atividade humana, não precisamos de um dispositivo como esse.
Nesse sentido, o referido dispositivo, de acordo com os pressupostos ergológicos, possui a seguinte conformação: o primeiro polo “refere-se a todos os conceitos, competências e conhecimentos disciplinares acadêmicos e/ou profissionais. Saberes que são necessários, mas exteriores e anteriores à situação de trabalho estudada” (TRINQUET, 2010, p.104). O segundo polo diz respeito “à experiência prática e, permanentemente, recriadora de saberes através dos debates de normas que, no instante em que são conhecidos, jamais podem ser apreciados e controlados pelos saberes constituídos” (TRINQUET, 2010, p.104). O terceiro polo é o das exigências éticas e epistemológicas que possibilita reconhecer o outro, na sua singularidade, como o seu semelhante e compreender que os diversos tipos de saber, separadamente, não conseguem explicar a realidade, sendo, dessa forma, preciso dialogar esses saberes. Esse polo, portanto, é necessário para “fazer trabalhar os dois primeiros de modo cooperativo [humildade e rigor na referência ao saber], de maneira a produzir um saber inédito a propósito da atividade humana” (DURRIVE E SCHWARTZ, 2008, p.25).
Nas palavras de Schwartz (2007), o dispositivo dinâmico de três polos pode ser assim caracterizado:
O dispositivo de três polos é o lugar do encontro, o lugar de trabalho em comum em que se ativa uma espécie de espiral permanente de retrabalho dos saberes, que produz retrabalho junto às disciplinas, umas em relação às outras,
portanto que transforma eventualmente um certo número de hipóteses, de conceitos entre as disciplinas (SCHWARTZ, 2007, p.269).
Essa dinâmica de (re) processamento, de interfecundação dos saberes remete também à questão dos valores. Afinal, o agir humano está lastreado em valores. Assim, na atividade, há circulação, bem como ressignificação dos valores.
Com efeito, os indivíduos não agem, exclusivamente, a partir de determinantes sociais, pois interferem e transformam o seu meio, valendo-se, para tanto, das suas convicções pessoais. Todavia, é preciso ter em conta que essa autonomia do indivíduo não representa independência em relação ao seu ambiente e que a atividade ocorre em um mundo atravessado por valores. Dessa forma, se existem os valores que remetem ao indivíduo, há, da mesma forma, valores que dizem respeito ao contexto macro. Há, portanto, um jogo de valores envolvido na dramática do uso de si.
Quando se trata de trabalho, é preciso situá-lo no tempo e no espaço. Nessa perspectiva, considerando a inserção das sociedades contemporâneas no mundo capitalista, abordar o trabalho na atualidade implica considerar que há aspectos mercantis em vigor. Entretanto, se os elementos relacionados ao mercado se fazem presentes, é também verdadeiro o entendimento de que os homens não são conduzidos exclusivamente por valores de natureza econômica. Isso suscita considerar a vigência de interesses que têm como propósito criar condições favoráveis de existência, proporcionando o bem comum à coletividade. Esse caráter ambivalente, constitui marca das sociedades mercantis e de direito vigentes na contemporaneidade (SCHWARTZ, 2007).
Tendo em vista esse contexto, os valores se colocam em movimento, estabelecendo relação de intercâmbio, que o esquema tripolar, proposto pela ergologia, auxilia a compreensão. Na configuração prevista pela ergologia, há o Polo I – que faz alusão à gestão dos atores sociais, utilizado, portanto, para situar as pessoas no processo; o Polo II- refere-se ao mercado, que visa gerar lucro e o enriquecimento, e o Polo III – é o polo do político, que se relaciona à defesa das questões que preconizam o bem-estar da coletividade.
Nessa representação, o polo do mercado tenta colocar regras com o propósito de avançar e intensificar o lucro. Para tanto, faz uso de um tempo que pode ser qualificado como de natureza volátil, visto que tenta operar mudanças de forma rápida e recorrente, para atingir os objetivos mercantis. O polo político, ao preconizar o bem comum, intervém no polo do mercado e, com isso, trabalha numa dimensão em que as temporalidades são mais duradouras, uma vez que busca definir regras que sejam mais estáveis e que possam evitar excessos advindos de mudanças ocorridas ao sabor das conjunturas. Na relação que se estabelece entre
esses polos, pode haver tensionamento, uma vez que operam com lógicas diferentes, mas também é possível reconhecer pontos comuns, já que ambos produzem normas antecedentes.
O polo I - da gestão efetivada pelos sujeitos - será aquele que coloca as contradições que determina a maior ou menor interferência do Polo III (político) no Polo II (mercado).
Com efeito, esse esquema auxilia a compreensão sobre a relação entre as dimensões micro e macro da sociedade. Considerando a exposição retromencionada, as situações de trabalho serão atravessadas tanto pelos valores mercantis, também denominados valores dimensionados, que guardam expressa conexão com o valores do mercado, quanto por valores não quantificáveis, nomeados também como valores não dimensionados e que fazem alusão ao bem-estar da coletividade. A gestão desses valores, conforme já realçado, fica sob a responsabilidade da atividade na qual os sujeitos se encontram implicados.