Det statistiske Centralbureau
I. Norges Handel i 1882
A consciência fonológica se refere à habilidade de segmentar, analisar e manipular intencionalmente os sons que compõem a fala (Spinillo, Mota & Correa, 2010). O conceito de consciência fonológica pode ser entendido como um construto multidimensional, uma vez que é composto por outras sub-habilidades como a segmentação, deleção e julgamento de sílabas ou fonemas. Essas habilidades variam também com relação à sua complexidade, que depende da análise fonológica requerida e da unidade sonora que é objeto da análise.
Um crescente corpo de evidências vem se somando como resultado de mais de 30 anos de pesquisas no enfoque metalinguístico. Essas evidências têm demonstrado a importância da consciência fonológica na aprendizagem da linguagem escrita em diferentes ortografias alfabéticas, como o português, francês, inglês e espanhol (Spinillo, Mota & Correa, 2010; Maluf, 2005; 2010; Santos & Maluf, 2010; Maluf, Zanella & Pagnez, 2006; Ehri, 2005a; 2005b; Capovilla, Capovilla e Suiter, 2004).
No entanto, essas evidências apontam também para diferenças no grau de importância das sub-habilidades de consciência fonológica para a aprendizagem de leitura de acordo com as distintas ortografias. Assim, no português do Brasil, por exemplo, são consideradas mais importantes as habilidades relacionadas à consciência silábica, por se tratar de um sistema de escrita mais transparente (a grafia corresponde mais à fonologia). Enquanto que no inglês, um idioma mais opaco (a grafia corresponde menos à fonologia), as habilidades de julgamento de rima e aliteração estão mais associadas ao desenvolvimento da habilidade de leitura (Spinillo, Mota e Correa, 2010).
Spinillo, Mota e Correa (2010) consideram que a relação entre consciência fonológica e alfabetização é de causalidade recíproca. Isto significa que certas habilidades de consciência fonológica precedem a alfabetização facilitando o processo de aprendizagem. E em contrapartida, essa aprendizagem promove o desenvolvimento ulterior de outras habilidades de análise fonológica, mais especificamente de consciência fonêmica. E essas habilidades, por sua vez, favorecem o progresso no desempenho em leitura e escrita.
Os avanços da Psicologia Cognitiva da Leitura nos estudos sobre a aprendizagem da leitura e escrita culminaram no refinamento da investigação das habilidades envolvidas nesses processos. Dessa forma, de habilidades mais amplas como a consciência fonológica, que se trata de um agrupamento de sub-habilidades de processamento dos sons da fala, os estudos têm se direcionado para habilidades mais refinadas, como a consciência fonêmica, que é uma das sub-habilidades da consciência fonológica (Morais, 1991).
De tal modo, é importante destacar o papel de pesquisadores como Isabelle Liberman que fez importantes contribuições e foi uma das pioneiras nos estudos sobre a aprendizagem da leitura e escrita e das relações entre a fala e a ortografia (Morais, 1991). Como afirma Morais, o objetivo dos estudos de Liberman pode ser resumido em entender como a falta de pistas acústicas invariantes para fonemas impõe sérias restrições sobre a aprendizagem inicial da leitura e escrita em sistemas alfabéticos. A relação entre fonemas e sons são mais complexas do que apenas uma correspondência de um-para-um. Desse modo, tomar consciência dos fonemas é difícil para as crianças e entender como essa consciência se desenvolve é fundamental para entender como se aprende a ler e a escrever.
De acordo com Morais (1991) o estudo das relações entre a consciência fonêmica e a aprendizagem da leitura e escrita tem sido dificultado, de certo modo, pela “confusão” que se faz entre os termos consciência fonêmica e consciência fonológica. Assim, é importante diferenciar os dois termos que se referem a aspectos distintos. A consciência fonológica se refere a um agrupamento de habilidades no processamento fonológico que inclui: consciência fonológica de sequências de caracteres (de forma global, i.e., um nível de consciência não-analítico), consciência dos fonemas (também
chamada de consciência segmental), consciência das sílabas, consciência das características fonéticas. Enquanto que a consciência fonêmica, como sugere Yopp (1988, citado por Morais 1991) trata da habilidade de manipular intencionalmente as unidades fonêmicas, isto é, as menores unidades sonoras.
As evidências das pesquisas têm demonstrado que a relação entre consciência fonêmica e a aquisição da leitura é uma relação forte e bi-direcional (Ehri, 2005a). Em outras palavras, assim como a consciência fonológica, a consciência fonêmica também se desenvolve com o ensino da linguagem escrita e por sua vez o desenvolvimento da consciência fonêmica favorece a aprendizagem da linguagem escrita. Contudo, segundo Yopp e Yopp (2000) o desenvolvimento da consciência fonêmica só é conquistado com o ensino deliberado e intencional. A consciência fonêmica não se desenvolve de modo acidental ou natural, pois os fonemas não são sons ouvidos naturalmente, a criança ouve sons maiores, como as sílabas. A consciência fonológica (dos sons maiores) pode até ser desenvolvida em pessoas que não aprenderam a ler, mas a consciência fonêmica depende do ensino da linguagem escrita.
Além disso, muitos estudos demonstram um decréscimo no papel da consciência fonêmica no desempenho em leitura posterior à aquisição inicial de leitura juntamente com um aumento do papel de outros fatores - tais como, a velocidade de nomeação e a consciência morfológica (Bosse & Valdois, 2009, Plaza & Cohen, 2006; Aghababian & Nazir, 2000).
Esses resultados sugerem que as habilidades fonológicas dão conta de explicar boa parte das diferenças individuais no início da decodificação, mas que, além das habilidades fonológicas, o desenvolvimento da fluência em leitura através do conhecimento ortográfico envolve outros tipos de habilidades cognitivas (Bosse & Valdois, 2009). Isso sugere que apenas a instrução em consciência fonêmica não pode bastar para explicar a aprendizagem da linguagem escrita. Outros processos cognitivos estão envolvidos e são necessários como o processamento visual que é pouco estudado de modo geral (Bosse, 2005). Mais adiante será discutido o papel do reconhecimento visual das palavras na habilidade de leitura.