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“Os poetas são os legisladores não-reconhecidos deste mundo”.
(Percy Bysshe Shelley)
Na Inglaterra vitoriana, em meio ao medieval revival, a narrativa dos poetas se fundia a voz profética exaltando as possibilidades de implantar ideais civilizadores entre as diferentes camadas sociais. A crença de que o poeta era um artista diferenciado dos demais, vinha sendo construída entre os ingleses, desde fins do século XVIII. Edmund Burke dizia que “...a poesia, com toda sua
obscuridade, exerce um domínio tanto mais geral quanto mais intenso sobre as paixões do que a outra arte [pintura]”81.
A ideia de que a poesia poderia exercer um “domínio sobre as paixões”, começou a ser difundida no século XVIII, mas ganhou força no XIX, quando foi – muitas vezes – associada ao caráter educador e civilizatório. Na sociedade inglesa do século XIX, o poeta era visto, muitas vezes, como artista diferenciado, que poderia educar por meio de seus poemas e de sua visão de futuro. Na primeira metade do XIX, Percy Bysshe Shelley escreveu que os poetas eram chamados de legisladores e de profetas, pois neles se resumiam esses poderes. Para Shelley, o poeta é capaz de não apenas ver “...com
intensidade o presente como é, descobrindo as leis através das quais as coisas presentes devem ser ordenadas, mas também vê o futuro no presente, e seus
pensamentos são as sementes da flor e do fruto do tempo futuro”82.
Shelley não dizia que os poetas eram profetas no sentido daquele que “prevê” o futuro, mas sim, que os poetas poderiam prenunciar acontecimentos com a segurança de quem conhece muito bem o presente em que vive. Nesse sentido, a profecia aparece como atributo da poesia, “...a poesia vence a
maldição que nos obriga a ser escravos do acaso das impressões circundantes.”83.
81 BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo. Campinas, SP: Papirus; Editora da Universidade de Camplinas, 1993. pp. 69.
82 SHELLEY, P. B. In: CHIAMPI, Irlemar. Fundadores da modernidade. São Paulo: Editora Ática, 1991. pp. 66.
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Na segunda metade do XIX, Matthew Arnold escreveu ensaios sobre a natureza da poesia e da crítica literária. Para o autor a poesia revelava a interpretação mais “perfeita” da sociedade na qual foi produzida. Escreveu Arnold: “Espero que não seja considerado exagero de minha parte, se eu
acrescentar que, em geral, é na poesia de uma época que devemos procurar interpretação mais perfeita e mais conveniente desta, para a realização de um trabalho que requer de todas as forças do espírito uma atividade muito intensa e harmoniosa”84.
Tennyson atribuía à função de poeta um caráter civilizador e, portanto, político. Como esses autores, Tennyson acreditava que o poeta tinha uma missão dentro da sociedade inglesa, ser poeta era enxergar mais sobre sua própria sociedade do que o restante da população. Por isso, os poetas deveriam utilizar suas sabedorias para educar a “multidão”.
Dessa maneira, os exemplos a serem seguidos, ou repudiados, estavam constantemente presentes em suas obras através das ações de suas personagens. O corpo, como vimos, deveria ser educado, civilizado, em nome do progresso e da nação. Como poeta oficial da corte, entendia exercer uma função social de relevância, tinha consciência dos problemas e das transformações pelas quais o país passava em sua contemporaneidade. Como “assalariado da cultura”, colocava-se na posição dignificante daquele que ensina. Como Coleridge, Southey e Wordsworth “exaltava o papel social da ‘intelligentsia”85.
O corpo era entendido, pelo poeta, como orgânico – era passível de ser educado e, ao mesmo tempo, precisava controlar suas paixões e seus
impulsos. A cultura nacional foi evidenciada nas maneiras, nas atitudes, nos
costumes e nas palavras dos personagens presentes nos seus poemas. Com base nessa ideia, Tennyson utilizou a personagem Merlin para expressar a voz profética do poeta, voz de quem se preocupa com a formação de uma cultura nacional.
As percepções do poeta são expressas pelas marcas dos corpos do mago representados em seus poemas. Entendemos, também, que a presença do
84 ARNOLD, M. In: CHIAMPI, I. 1991. Op. cit. pp. 86. 85 DIAS, Maria Odila da Silva. 1974. Op. cit. pp. 33.
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corpo nos poemas de Tennyson são menos evidenciadas do que a ideia do orgânico. Ao pensar o corpo, Tennyson, preocupou-se, muito mais com o corpo social e político do que com os corpos de cada indivíduo.
O corpo representado nos poemas de Tennyson é menos o corpo como gestos e posturas, do que o lugar onde as várias percepções sobre o mundo foram apreendidas, justamente porque o corpo é o mediador da relação homem-mundo. É por meio dele que estamos em permanente contato com o que é externo, é através do corpo que percebemos e nos relacionamos com os outros, que marcamos nossa existência, e que o mundo marca sua presença em cada um de nós. Nesse sentido, o corpo também é cultura, pois constitui e é constituído pela sociedade à qual pertence.
Assim, o ato de escrever também passa pelas sensações dos indivíduos que o exercem, remete às percepções que um escritor teve de sua própria vida e do mundo em que viveu. É parte do ato de exprimir, e “Exprimir não é então nada mais do que substituir uma percepção ou uma ideia por um sinal convencionado que a anuncia, evoca ou abrevia”86. O conceito de orgânico em
Tennyson pode ser rastreado por meio das escolhas de palavras que o poeta utilizou em seus poemas, pois essas palavras passaram por suas sensações mais exaltadas que estavam relacionadas a seus ideais e posicionamentos políticos.
Dessa maneira, por meio do que exprimem e de como exprimem, artistas e escritores evidenciam em suas obras parte das percepções, das visões de mundo que cada um deles possui, ou possuíram, no período em que vivem, ou viveram. Segundo Merleau-Ponty, pintura e escrita são manifestações da percepção que os artistas têm de sua contemporaneidade. No caso de Tennyson, seu filho Arthur Hallam escreveu: “...I see him [Tennyson] in every
Word which He has written”87.
Para nos aproximarmos de algumas percepções que Tennyson teve de sua contemporaneidade, analisaremos Merlin and The Gleam. O poema é uma autobiografia literária em que o poeta se denomina Merlin. Logo de início, o poeta dialoga com um “Young Mariner”, a expressão pode remeter ao “diálogo”
86 MERLEAU-PONTY, Maurice. A prosa do mundo. 2ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. pp. 23. 87 TENNYSON, Hallam. 1889. Op. cit. pp. XI.
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com os jovens da sociedade em que viveu – aqueles que, aos olhos de Tennyson, precisavam de um ideal de civilização e para quem ele apresentou um pouco de sua própria história por meio desse poema.
“O young Mariner, You from the haven Under the sea-cliff, You that are watching The gray Magician With eyes of Wonder, I am Merlin
(...) Who follow The Gleam”88.
Merlin é descrito como “The gray Magician”, a marca do corpo remete aqui ao envelhecimento, “gray”, pode remeter a cor dos cabelos tingidos pelo tempo. Merlin não é um menino, mas alguém que já viveu o suficiente para ter seus cabelos e, quiçá sua barba, embranquecida. Mas, a grande novidade, não está no fato da relação entre Merlin e a velhice (sabedoria), mas sim, na última linha do excerto: “I am Merlin”. Lembrando que o poema é uma autobiografia literária, Tennyson se apresentou como o próprio Merlin. Estava estabelecido o vínculo entre o poeta e o “bardo”, “profeta”. A voz narrativa do poeta na sociedade inglesa do século XIX, em especial, do poeta laureado, relacionava- se, mais uma vez, com a do profeta.
Se pensarmos que esse status vinculava-se não a Tennyson como indivíduo, mas à sua função de poeta, o autor se via como um corpo separado do corpo social, no sentido que se pensava através de um ideal de cultura, por acreditar que enxergava uma realidade moral e espiritual, também se achava na posição daquele que pode resgatar ou construir (se preciso fosse) valores sociais. “This sense of a public, prophet’s duty, became, for good or ill, a major
88 TENNYSON. Merlin and The Gleam. Disponível em:
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element in Tennyson’s poetic life. After He became Laureate He rarely wrote private poetry”89.
Além de se denominar Merlin, o poeta era aquele capaz de perceber vislumbres de criatividade. A expressão “The Gleam” parece carregar múltiplos sentidos, pode referir-se à ideia da sabedoria, do conhecimento. Como Merlin, Tennyson seguira o “brilho”, o “vislumbre” da sabedoria e do conhecimento.
Nesse contexto, Tennyson parecia seguir uma tradição dos poetas que trabalharam oficialmente para a realeza inglesa. “Para Wordsworth ‘apesar de coisas silenciosamente apagadas do pensamento dos homens, e de outras violentamente destruídas, cabia ao poeta manter unido e coeso, através da paixão e do conhecimento, o vasto império da sociedade, tal como se espraia por toda a terra e através dos tempos”90.
Segundo Maria Odila L. Silva Dias, autores como Wordsworth e Coleridge pretendiam “regenerar as almas, os sentimentos, e redimir valores morais, sem os quais toda revolução política estaria fadada ao malogro,”91. Entretanto,
embora Tennyson também se preocupasse com a educação do corpo e com a transmissão de valores morais, diferentemente dos românticos que valorizavam a experiência interior – o chamado “self” / “eu” romântico – Alfred Tennyson situava homens e mulheres, primeiramente, como seres políticos, colocando-os todo tempo como responsáveis pelo bom funcionamento do Estado, valorizando atitudes tomadas para o bem da coletividade.
Embora o poeta tenha sido influenciado pelos românticos no início de sua vida como escritor, não foi por acaso, que após receber o título de laureado, Tennyson raramente tenha publicado poemas relacionados à sua vida enquanto indivíduo, ao contrário, quase todos os poemas publicados voltavam- se para a preocupação com os rumos da Inglaterra vitoriana. O poeta parecia não ter espaço, ou ter um espaço bastante reduzido, para o “self”, a subjetividade de Tennyson não se voltava para seus sentimentos em relação ao eu, mas sim, às preocupações em relação ao corpo nacional.
Entendemos que Merlin and The Gleam, que situamos como a autobiografia literária do poeta, possui uma trajetória de identificação entre, a
89 PITT, Valerie. Tennyson Laureate. London: Barrie and Rockliff, 1962. pp. 149. 90 DIAS, Maria Odila da Silva. 1974. Op. cit. pp. 33-34.
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função do poeta na sociedade inglesa do século XIX e a preocupação com os rumos da Inglaterra. Na primeira estrofe do poema Tennyson retratou seu estado melancólico, estado daquele que agoniza: “I am Merlin, And I am dying”. Lembrando que o poeta publicou o poema em 1889, o corpo do poeta já era mesmo o da velhice. Tennyson morreu em 1892, aos 83 anos de idade, portanto, o Merlin, de Merlin and The Gleam, evidencia traços do poeta, que era, fisicamente, o “Mágico cinza”.
Mais uma vez Tennyson utilizou metáforas, alegorias e ambiguidades em sua poesia. Se pensarmos que o corpo da personagem Merlin, foi o que em
Idylls of The King transitou temporalmente por duas sociedades diferentes (o
reino de Uther e o de Arthur), o corpo do poeta, depois de tantas vivências, pareceu aos olhos de Tennyson, semelhante ao do mago.
Alfred Tennyson viveu as transformações da Inglaterra vitoriana. Como vimos, período em que a vida e a cultura inglesa modificaram-se amplamente e que autores, filósofos, poetas etc. não apenas vivenciaram a rapidez das transformações, como também, colocaram essas transformações como um dos principais temas de seus escritos. A nova legislação ampliou a participação política da maioria da população, a Inglaterra consolidou-se como império industrial e liberal, foram realizadas reformas no exército e nas universidades, assim como foi implementada de uma reforma do sistema nacional de educação que atendesse à nova “consciência política” por meio da alfabetização dos recém-eleitores.
Tennyson vivenciou essas transformações como indivíduo, mas também, como poeta. Segundo Valerie Pitt, o que fez de Tennyson um dos maiores representantes do vitorianismo, foi a tentativa de resposta ao período em sua totalidade. “...his temperament and genius were near to the quick of the era
with all its aspirations and its absurdities. For in all the Victorian variety one thing was Constant – change”92.
Assim, Merlin and The Gleam pode ser considerado, juntamente com outros poemas de Tennyson, uma resposta a instabilidade do mundo ao seu redor. Se pensarmos que a sua poesia foi fruto das às mudanças da era
92 PITT, V. 1962. Op. cit. pp. 152.
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vitoriana então, Merlin and The Gleam pode ser entendido, também, como uma maneira de retratar a virtude de seu temperamento político enquanto poeta.
Voltemos ao fato de que Tennyson abre o poema utilizando uma ideia melancólica de morte: “I am dying”. Já vimos que o corpo físico do autor pode ser considerado “próximo da morte” por sua idade avançada, mas se a voz narrativa do poeta foi entendida como principal elemento do corpo do poeta, então, essa voz, no caso de Tennyson, tem uma característica bastante importante: a ambiguidade. Sendo assim, a morte não pode ser apenas física. Então, a qual tipo de morte o poeta se referiu? A resposta para a questão está relacionada à trajetória de Merlin no poema.
Tennyson remeteu não apenas à sua infância, mas também às fases de sua poesia: o ato de iniciar o poema com um profundo estado de melancolia pode associar-se ao sentimento nostálgico de rememorar o passado. Esse estado melancólico, que tornou presente a ideia de morte, foi uma maneira de exprimir a verdadeira natureza da poesia. A “melancolia” enquanto percepção de um estado de espírito foi importante na formação de Tennyson enquanto poeta. Segundo Valerie Pitt, provocou, na poesia madura de Tennyson, a percepção de que a mente humana possuía lugares obscuros, fator que contribuiu para torná-lo sensível às realidades sociais, impulsionando o poeta a preocupar-se com a instabilidade cultural e social da Inglaterra.
“When I see society vicious and the poor starving in great cities,’ he Said, ‘I feel that it is a mighty wave of evil passing over the world, but that there. Will be yet some new and strange development which I shall not live to see... You must not be surprised at anything that comes to pass in the next fifty years. All ages are ages of transition, but this is an awful moment of transition... The truth is that the wave advances and recedes. ...I feel sometimes as if my life had been a very useless life”93.
93 TENNYSON, A. In: TENNYSON, Charles. Alfred Tennyson. London: Macmilllan & Co. Ltd., 1950. pp. 491.
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Essa preocupação em relação a utilidade de sua vida se fez presente em seus poemas. Daí a caracterização dos personagens como exemplo de boas ou más condutas, e a tentativa de formação de uma cultura nacional que valorizasse a moral. Em Merlin and The Gleam o poeta apegou-se à construção da crença em um vislumbre de luz que pudesse ser seguido, por ele e pelos jovens.
Sua autobiografia literária evidencia as percepções de Tennyson sobre a sociedade em que viveu, a estrutura do poema, que tem início com um estado melancólico para abordar a infância do poeta, pode remeter ao ideal burkeano de beleza. Para Burke, o belo está relacionado a “uma qualidade social, porque toda vez que a contemplação das mulheres e dos homens, e não somente deles, quando a visão de outros animais nos proporcionam uma sensação de alegria e de prazer (e há muitos que causam esse efeito), somos tomados de sentimentos de ternura e de afeição por suas pessoas, gostamos de tê-las ao nosso lado e iniciamos de bom grado uma espécie de intimidade com elas (...)”94.
De “bom grado” Tennyson nos apresentou o momento de sua infância, quando se voltou para a percepção do belo. Narrou o poeta:
“Mighty the Wizard Who found me at sunrise Sleeping, and woke me And learn'd me Magic! Great the Master , And sweet the Magic, When over the valley, In early summers, Over the mountain, On human faces, And all around me, Moving to melody,
94 BURKE, E. 1993. Op. cit. pp. 51.
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Floated The Gleam”95.
Em harmonia com a natureza, Tennyson vislumbrou o poder mágico da poesia, aprendeu a ser Merlin, ganhou a voz profética e iniciou algo que o acompanharia para toda vida: ser poeta e traduzir a voz de sua nação. No excerto do poema, Tennyson cantou o vale, a montanha, a natureza que via todos os dias em Lincolnshire. O poeta não parece querer resgatar seu passado no sentido de fazê-lo renascer, ele apenas apontou a importância de sua experiência: o contato com a beleza foi importante para se tornar um poeta, cujo principal objetivo relacionava-se à construção de um ideal nacional.
Assim, Tennyson evidenciou, que, por um lado, foram suas experiências enquanto menino, experiências ligadas à natureza e, portanto, ao belo, que o tornaram um poeta; por outro, que suas primeiras poesias, sua meninice enquanto poeta, que carregava forte influência do romantismo de Byron, foram essenciais para a maturidade de sua poesia. O poeta não negou suas “infâncias”, colocou cada uma delas, como parte de um processo de amadurecimento e de conscientização de que o lugar do poeta, mais do que um lugar de individualidade, apontava para uma missão social e civilizadora:
“Floated The Gleam”.
Vislumbrava em meio às mudanças da sociedade vitoriana a constante ameaça de perda da civilização inglesa. Juntamente com o desenvolvimento de Tennyson como poeta, ocorreram as percepções de que o mundo não se resumia ao belo. As transições eram sentidas como “terríveis” (“...this is an
awful moment of transition...”), Tennyson se deparou com o que Burke chamou
de sublime.
“Once at the croak of a Raven who crost it, A barbarous people,
Blind to the magic, And deaf to the melody, Snarl'd at and cursed me.
95 TENNYSON. Merlin and The Gleam. Disponível
86
A demon vext me, The light retreated, The landskip darken'd, The melody deaden'd, The Master whisper'd "Follow The Gleam"96.
Na estrofe acima, percebemos que acontecimentos ruins, como o “ensurdecer da melodia”, “a escuridão”, a “terra adormecida” estão vinculados com o aparecimento de “pessoas bárbaras”. Podemos relacionar esse fator ao contexto vivido pelo poeta, lembremos que muitas vezes a “multidão” das cidades eram retratadas nos poemas por meio de metáforas. Uma das mais utilizadas pelos poetas do período era a expressão “bárbaros”, vinculando essa representação ao que não era civilizado. Assim, a população, considerada, “massa”, “multidão” acabava ligada a um sentimento de temor e desconforto.
Ao mesmo tempo, Tennyson utilizou a expressão “terra adormecida”, uma terra que não possui a melodia do bucólico, do belo, mas que está adormecida na escuridão, referindo-se às imagens das cidades, locais da multidão e do
sublime por excelência. Para Burke, “Tudo que seja de algum modo capaz de
incitar as ideias de dor e de perigo, isto é, tudo que seja de alguma maneira terrível ou relacionado a objetos terríveis ou que atua de um modo análogo ao terror constitui uma fonte do sublime, isto é, produz a mais forte emoção de que o espírito é capaz”97.
As percepções de Tennyson sobre a multidão – “não civilizada” – traduziam a iminência de um processo de destruição. As cidades industrializadas portavam, nessa visão, a possibilidade do progresso e do poder imperial inglês e, concomitantemente, uma viva ameaça de destruição da Inglaterra, pela constante incivilidade. Por esse motivo, o poeta entendia como relevante a educação dos corpos na sociedade.
Destaquemos, ainda, que as sensações de prazer e de dor, que Burke relacionou com os ideais de belo e de sublime (respectivamente), se
96 TENNYSON. Merlin and The Gleam. Disponível em:
http://www.lib.rochester.edu/camelot/merl&glm.htm Acesso em: 23 de Julho de 2008.
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manifestavam primeiramente no corpo. Segundo o próprio Burke, prazeres e tormentos se manifestam no corpo, as dores acabam sendo muito mais