A avaliação objetiva da qualidade do ar, no interior dos compartimentos, foi realizada através da medição da concentração de CO2. A presença de elevadas concentrações de dióxido de
carbono, em espaços com presença humana, é um indício de ventilação deficiente, fator que poderá resultar na presença de concentrações elevadas de outro tipo de poluentes. A concentração de CO2 foi registada no centro dos compartimentos avaliados, tendo sido
adotado o valor que resultou da média dos valores obtidos durante o período de medição.
5.4.1. Análise dos resultados obtidos nas medições efetuadas na primavera
Na Tabela 17 encontram-se os resultados das medições objetivas da concentração de CO2 nos
compartimentos sala/cozinha e quarto/varanda. Nesta tabela encontram-se representados: o período de registo; o registo das concentrações de CO2; e a média dos valores obtidos durante
Tabela 17 – Resultados obtidos nas medições objetivas do CO2 na primavera Medição 1
Sala/Cozinha
Medição 2 Quarto/Varanda Hora Concentração (ppm) Hora Concentração (ppm)
16:15 797 16:25 736 16:16 797 16:26 724 16:17 807 16:27 725 16:18 810 16:28 721 16:19 810 16:29 723 16:20 818 16:30 738 Valor Médio 806,5 Valor Médio 727,83
Segundo a Nota Técnica NT-SCE-02, as concentrações máximas de referência de CO2 no
interior de edifícios (Tabela 6), deverão ser inferiores a 1800 mg/m3 (= 1000 ppm). Numa primeira análise verifica-se que as concentrações, em ambos os compartimentos do edifício, mantiveram-se dentro dos níveis recomendáveis, isto é, inferiores ao valor máximo de referência.
Sendo o compartimento sala/cozinha um espaço comum do edifício, com menores aberturas para o exterior e aonde se situam elementos que recorrem a processos de combustão (fogão e esquentador), estimava-se que as concentrações fossem mais elevadas neste compartimento, situação que se verifica.
As grandezas registadas refletem o período em que o edifício esteve encerrado, aspeto que poderá ter influenciado as concentrações deste poluente, uma vez que a ocupação humana e o metabolismo dos ocupantes representam umas das principais fontes de degradação da qualidade do ar interior.
Em resposta às avaliações subjetivas, os ocupantes não reportaram a presença de odores nos compartimentos em estudo, classificando a sensação de conforto, em ambos os compartimentos, como próxima de neutra, ou seja, estiveram confortáveis com a qualidade do ar.
5.4.2. Análise dos resultados obtidos nas medições efetuadas no verão
Na Tabela 18 encontram-se apresentados os resultados obtidos nas medições da concentração de dióxido de carbono, no período de verão, nos vários compartimentos do edifício e exterior.
Tabela 18 – Resultados obtidos nas medições objetivas do CO2 no verão
Medição de 06/08/2014 Medição de 10/09/2014
Local de medição Hora Concentração (ppm) Hora Concentração (ppm)
Exterior 15:00 370 14:10 460
Cozinha 15:05 490 14:13 735
Casa de banho 15:15 510 14:15 645
Quarto/varanda 15:18 600 14:20 590
Quarto 15:21 570 14:24 570
Na análise dos resultados verifica-se que, em ambas as medições, as concentrações de CO2
mantiveram-se dentro dos níveis recomendáveis, isto é, inferiores à concentração máxima de referência (1000 ppm). Ao contrário das restantes medições realizadas, as concentrações no compartimento quarto/varanda, de 6 de agosto, foram superiores às do compartimento sala/cozinha.
A utilização da porta de entrada principal aberta proporcionou a renovação do ar interior, que por consequente resultou na diminuição das concentrações deste poluente no edifício, em especial no compartimento sala/cozinha, que deste modo esteve em contacto direto com o ar exterior, onde as concentrações foram mais reduzidas.
Na análise das avaliações subjetivas verifica-se que os ocupantes voltaram a não reportar a presença de odores nos compartimentos em estudo, classificando novamente a sensação de conforto como próxima de neutra, isto é, os ocupantes sentiram-se confortáveis com a qualidade do ar interior do edifício.
5.4.3. Discussão dos resultados
O edifício vernáculo em estudo apresentou, em todos os períodos de monitorização, concentrações de CO2 inferiores às concentrações máximas de referência. Os resultados
manifestam-se dentro dos padrões aceitáveis de qualidade do ar e derivam da interação de vários fatores.
Tal como referido anteriormente, a presença humana em espaços interiores representa uma das principais fontes de degradação do ar. Uma vez que a ocupação do edifício não foi contínua (sazonal), em especial na estação climática de primavera, a ausência de ocupantes poderá ter influenciado positivamente as concentrações deste poluente.
Porém, neste estudo, a restrita relação entre a presença humana e as concentrações de CO2 é
de difícil determinação. Nas medições de primavera, o edifício encontrou-se encerrado e sem ocupantes e no período de verão, os ocupantes utilizaram medidas passivas que potenciaram a redução deste poluente. Deste modo, para melhor se compreender esta analogia seriam necessárias medições que representassem o período de ocupação do edifício, sem a utilização de medidas passivas de renovação de ar.
Em resposta às avaliações subjetivas, os ocupantes afirmaram-se confortáveis com a qualidade do ar interior, não reportando a presença de cheiros ou odores. No entanto, durante o período de ocupação do edifício utilizaram frequentemente a porta de entrada aberta. Embora esta medida promova ativamente a renovação do ar interior, reduzindo a concentração de poluentes, o seu principal propósito foi de melhorar as condições de conforto térmico e de luminosidade dos compartimentos.
Outro fator que terá favorecido a renovação de ar e influenciado as concentrações de CO2 no
edifício foi a sua permeabilidade ao ar (característica comum em edifícios vernáculos). A permeabilidade ao ar de alguns dos elementos construtivos, nomeadamente as portas e as janelas, poderão ter contribuído para a renovação do ar interior, reduzindo a concentração de poluentes e dissipando possíveis odores. No entanto, para melhor se compreender este fenómeno seriam necessárias medições pormenorizadas da taxa de renovação de ar.