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Plotino diz que Afrodite é dupla ( ): a primeira é descendente de Urano, a segunda é filha de Zeus e Dione269. Com efeito, aqui ele retoma a divisão estabelecida no discurso de Pausânias, no Banquete, segundo o qual Afrodite e Eros são inseparáveis; havendo duas Afrodites, há conseqüentemente dois Eros270. A mais velha não tem mãe e é filha de Urano, o céu, por isso é chamada Urânia (celeste), a outra, mais jovem, é a filha de Zeus e Dione271.

Pausânias, ao estabelecer essa distinção, tenta definir qual Eros deve ser elogiado272. Assim, ele parece retomar a Afrodite da Teogonia de Hesíodo para estabelecer a universalidade de Eros e Afrodite, pois, nascida do esperma de Cronos mutilado, esta Afrodite não participa do feminino; a ela atrela-se um Eros que se dirige somente aos homens273. Ora, o amor masculino, com sua esterilidade física, abre a possibilidade para que a força erótica se ligue a outras coisas: o pensamento se erotiza, dirigindo toda a força erótica ao belo, que se situa acima dos corpos e das relações sociais. Nada é mais belo que a virtude, por isso o Eros celeste faz com que aqueles que amam e os que são amados cuidem de si mesmos com o fito de se tornarem virtuosos274. Este Eros é digno de elogio. Todos os demais Eros concernem a Afrodite Pandêmia, a mais jovem que, sendo filha de Zeus e Dione, participa tanto do masculino, como do feminino. Portanto, os amores pandêmios dirigem-se assim a homens

269 Cf. III, 5 [50] 2, 15.

270 “Fazendo Pausânias destacar a Afrodite celeste da humana, o fixo e o móvel, Platão introduz o pensamento

que ele próprio elaborou e que será exposto por Diotima. Ao declarar que não se pode falar de Eros sem lembrar Afrodite, Pausânias adere às versões recentes do mito que subordinam Eros à deusa como filho ou auxiliar. Nessa deriva, Eros vai depondo as qualidades cósmicas que os antigos lhe tinham conferido para assumir feições definidas e para se vulgarizar em conflitos privados no caminho da subjetivação” (SCHÜLER, D. Eros: dialética

e retórica. São Paulo: Edusp, 2001, p. 41).

271 Cf. PLATÃO, Banquete, 180 d. 272 Cf. PLATÃO, Banquete, 180 d. 273 Cf. PLATÃO, Banquete, 181 c. 274 Cf. PLATÃO, Banquete, 184 b -185 c.

como a mulheres275. Não sendo este Eros digno de elogio, Pausânias não se detém em explicá- lo. Mas ora, a Afrodite homérica está ligada a uniões sexuais, inclusive sob a égide do adultério e da traição276. Além disso, é sabido, por exemplo, que o templo de Afrodite, em Corinto, abrigava grande número de hetairas. Também é sabido que o casamento reproduzia nomes e riquezas. Ou seja, por um lado, tem-se uma erótica ligada ao prazer das uniões carnais, que é dado em troca de somas monetárias. Por outro, uma erótica que visa reproduzir estruturas sociais. Portanto, parece estar subentendido, no pensamento de Platão, que Eros pandêmio é ligado ao que concerne, não somente o corpo individual, mas também a pólis.

Plotino acolhe as duas Afrodites e os dois Eros do discurso de Pausânias, estabelecendo, através dessa diferença de nível marcada pela genealogia, uma outra estrutura hierárquica, não à guisa de louvar um amor em detrimento do outro, e sim, com o intuito de explicar os diferentes planos da Alma: a Urânia é mais antiga e, portanto, hierarquicamente superior, representa a Alma hipostática, enquanto a outra, mais jovem, corresponde à alma do mundo e às almas humanas.

O esquema geral das genealogias de Eros ligado a cada uma das Afrodites, em suas relações vertical e horizontal, a primeira representando os níveis hierárquicos, a segunda as correspondências internas entre figuras e realidades metafísicas, pode ser assim esboçado:

Urano Um

Cronos Zeus + Dione Métis Intelecto

Afrodite Urânia Afrodite daím n Poros + Penía Alma/alma do mundo e almas particulares/lógos + matéria inteligível

Eros deus Eros daím n Eros daím n amor

275 Cf. PLATÃO, Banquete, 181 c.

276 Quanto à traição, refiro o episódio do enforcamento das escravas que se deitaram no leito dos pretendentes de

Lido verticalmente o esquema, as três primeiras colunas apresentam as genealogias de Eros deus e Eros daím n, e a quarta coluna traz as correspondentes realidades metafísicas. Lido horizontalmente, percebe-se que mais de uma figura refere-se a uma mesma realidade. Essa polivalência, a bem da verdade, reflete diferentes aspectos da realidade. É, portanto, digno de nota que, nesse mito, ao Um corresponda somente uma figura, a de Urano. Por outro lado, o caso mais evidente de polivalência, no quadro acima, é o da Alma. Com efeito, nesse tratado a dificuldade em compreender a que nível da Alma – superior ou inferior – Plotino se refere é mitigada, em um primeiro momento, pela diferença entre Afrodite Urânia, considerada uma deusa, e a segunda Afrodite, tida por daím n. Considerando a estrutura do real proposta nas Enéadas, é possível organizar o esquema genealógico diferentemente, desnivelando as duas Afrodites e os dois Eros, de acordo com as divisões internas da Alma. Quanto a Zeus e Dione, se eles são os genitores da alma do mundo, talvez devessem ser postos no nível da Alma, ou ainda, Zeus no mesmo nível de Cronos, representando o Intelecto, o que estaria de acordo com a interpretação da figura de Zeus nos três capítulos finais do tratado, e Dione, sobre quem Plotino nada fala, no nível da Alma. Tal divisão obedeceria ainda a um princípio exegético também apresentado ao final do tratado, de que os deuses correspondem ao Intelecto e as deusas à Alma.

Então, para a primeira parte do tratado, que se ocupa de Afrodite e Eros, tem-se:

Urano Um

Cronos Zeus Intelecto

Afrodite Urânia Dione Alma (parte superior) Afrodite daím n alma (parte inferior)

Eros deus Amor da Alma

Eros daím n Amor da alma inferior e das almas humanas

Aqui novamente a leitura vertical apresenta, nas duas primeiras colunas, as genealogias de Eros deus e Eros daím n. Na terceira coluna, tem-se a hierarquia das

realidades superiores, agora mostrando a divisão interna da Alma e o amor correspondente a cada uma das partes. Cabe, agora, ver em detalhe as figuras de Afrodite e Eros, começando por Urânia.