• No results found

Phinney (2004) relata que a experiência migratória expõe o indivíduo no confronto entre culturas, valores, religiões, estilos de vida, etc., que resultam em questionamentos como: quem sou eu, quem quero ser, a que lugar pertenço. Embora a autora concentre seus estudos em adolescentes imigrantes ou filhos de imigrantes, acredita-se que suas considerações possam ser válidas no contexto dessa pesquisa que se refere a adolescentes, mas netos de imigrantes. No caso dos japoneses no Brasil, os questionamentos referidos pela autora parecem não se restringir apenas aos próprios migrantes e seus filhos, mas às gerações posteriores também. Pois a grande distância entre culturas (ocidental e oriental), o fato do nipo-brasileiros ainda serem considerados estrangeiros e o aspecto físico ser um elemento de forte distinção entre pessoas no Brasil tornam- se pontos de reflexão que nos fazem aferir que a exposição do indivíduo no confronto entre culturas e questionamentos identitários não são circunscritos apenas aos imigrantes japoneses, mas também às gerações posteriores.

Sendo assim, as proposições de Phinney (2004) serão expostas porque se mostram norteadoras para a compreensão deste estudo. No entanto, também serão consideradas algumas reflexões críticas referentes a como esta pesquisa se posiciona em relação ao conceito de adolescência e identidade, pontuando assim e, ao mesmo tempo, uma certa proximidade e distanciamento da referida autora.

Phinney (2004) propõe que a identidade de grupo represente para um indivíduo o sentido de pertencer e ser membro de um grupo. Este sentimento de pertenimento proveria uma perspectiva de como o indivíduo enxerga os outros e a si mesmo. Tanto a identidade étnica como a identidade nacional estariam contidas nesse sentimento pessoal de estar inserido e de se identificar em determinado grupo. A autora acredita que quando ocorre a migração, as identidades étnica e nacional para os migrantes e seus descendentes passam por um processo de desenvolvimento e mudança em decorrência de fatores individuais e contextuais. A identidade nacional seria:

“Uma identidade nacional é geralmente, embora não necessariamente, associada à cidadania e ao patriotismo, e é geralmente acompanhada pelo uso de uma linguagem nacional e pela adoção dos costumes nacionais. A identidade nacional pode mudar,

como quando se sai do país de origem e se desenvolve um sentimento de lealdade a um novo país; isto pode incluir a renúncia à cidadania do país natal e a aquisição de uma nova cidadania.” (Phinney, 2004, p.50)

Quanto a identidade étnica:

“(...) origina-se na herança ancestral do indivíduo que não pode ser mudada, embora possa ser negada ou ignorada. Uma identidade étnica refere-se ao self do indivíduo, como membro de uma grupo étnico, e aos sentimentos e atitudes que acompanham esse pertencimento (Phinney, 1990). Geralmente, um grupo étnico pode ser considerado um subgrupo, dentro de um contexto mais amplo, que afirma seus laços ancestrais comuns e compartilha de um ou mais dos seguintes elementos: cultura, raça, religião, linguagem e parentesco. (...)” (Phinney, 2004, p.51)

Os conceitos de Phinney (2004) sobre identidade étnica e nacional serão utilizados nesse estudo, porque designam vivências relacionadas ao sentimento de pertencimento de um grupo. Muitos adolescentes nikkeis devem ser assolados por dúvidas quanto ao ser brasileiro ou japonês e nesse sentido os conceitos de identidade étnica e nacional podem esclarecer o entendimento desta questão. Contudo o processo de desenvolvimento dessas identidades assim como a concepção de adolescência, serão vistos de forma diferente do proposto pela autora.

Phinney (2004, baseada em Érikson, afirma que a adolescência é um período crucial para o desenvolvimento de uma identidade segura. Nesse sentido qualquer adolescente passa invariavelmente por uma crise de identidade e no caso específico da experiência migratória no próprio adolescente ou dessa vivência na sua família, essa crise ganha um componente a mais. A dúvida de não saber a que grupo cultural possa pertencer em virtude da exposição à dupla cultura (a ancestral e da sociedade a qual está inserido) enfatiza esse conflito. A autora explica que o adolescente, para o desenvolvimento de uma identidade segura, deve construir um sentido de compreensão clara da própria etnicidade e da identidade nacional. Ele deve explorar de forma ativa os significados e implicações de tomar uma decisão e se comprometer com uma forma de ser membro de um determinado grupo.

Para a autora, este processo de desenvolvimento da identidade é marcado, inicialmente, por uma não compreensão por parte do adolescente sobre sua etnicidade. Esta fase pode incluir uma demasiada identificação deste com a sociedade dominante e sentimentos de desconforto ou até mesmo rejeição de seu próprio grupo étnico. Porém e provavelmente por experiências de sentimentos de diferença ou discriminação, o adolescente passa a enfrentar uma crise de identidade. Então, inicia-se um novo período que se caracteriza por uma procura de

conhecimentos referentes a seu grupo étnico, demarcando também, uma tentativa de conhecer a si mesmo. A autora acredita que a forma ideal de finalização desse processo seria “alcançar uma

identidade étnica caracterizada pelo sentimento confiante e seguro de pertencer a um grupo.” (Phinney, 2004, p.53)

É interessante ressaltar que a partir dos pressupostos de Phinney (2004), embasados por Érikson, a noção de um desenvolvimento da identidade na adolescência é delineada por uma visão que parece se apresentar de maneira universal, homogênia e padronizada. Como se todos os adolescentes que possuem a experiência de ser migrante ou têm essa vivência no seio familiar (como os adolescentes nikkeis) devessem passar pelas fases definidas acima. Assim, aqueles adolescentes que talvez não passem por essa crise ou que pareçam não obter uma identidade étnica segura, sugeririam um desvio do processo normal de desenvolvimento esperado, enquanto que o contrário, passar pela crise e pelas sucessivas fases, assim como conquistar uma identidade étnica confiante, se estabeleceria como um ideal de normalidade.

Ozella (2002) acredita que a forma de conceber a adolescência como um período marcado por crises e que este seja um processo normal do desenvolvimento de um jovem é sustentado pela ciência positiva que permeia a Psicologia. A noção de uma crise de identidade de ordem natural ancora a idéia de uma crise que sinaliza um alerta para o indivíduo, para que não saia e nem desvie do curso natural do desenvolvimento. Aqui o ideal a ser galgado seria a harmonia. Para a Psicologia Sócio-Histórica, a adolescência não é um fenômeno universal marcado por fenômenos típicos como crises, rebeldia, busca de identidade, instabilidade etc. Nem tampouco um momento com sentido único (linear) e com um único significado. Ozella (2002) acredita que a compreensão de qualquer fato social - a adolescência se insere nesse contexto - só pode ser apreendida a partir de sua inserção na totalidade.

“(...) É importante perceber que a totalidade social é constitutiva da adolescência, ou seja, sem as condições sociais, a adolescência não existiria ou não seria essa da qual falamos. Não estamos nos referindo, portanto, às condições sociais que facilitam, contribuem ou dificultam o desenvolvimento de determinadas características do jovem. Estamos falando de condições sociais que constroem uma determinada adolescência.” (Bock, apud Ozella, 2002, p22)

Isto quer dizer que as condições sociais e diferenças culturais criam possibilidades diversas que determinam também o modo como os indivíduos enxergam suas próprias experiências. Assim, não poderíamos falar de uma adolescência apenas mas de diversas delas que são determinadas historicamente e significadas de modos diferentes de acordo com as épocas, culturas e sociedades. Portanto, pode-se assumir que a concepção de Phinney (2004)

sobre a adolescência e desenvolvimento é uma das significações produzidas pelos homens em relação a este fato social e também uma concepção bastante difundida em dias atuais principalmente na psicologia. Mas alerta-se que neste estudo, a adolescência e a vivência da biculturalidade, marcada pelos sentimentos em relação às identidades étnica e nacional, não possuem uma linha de desenvolvimento pré-estabelecido. O homem e, logo, o adolescente é visto como ativo em seu processo de desenvolvimento, ele não é passivo às condições externas. Isto equivale a dizer que a crise de identidade não pode ser vista como algo esperado para que todos os adolescentes a experienciem sem exceção e a vivenciem da mesma forma. Há de se lembrar que o adolescente está inserido numa realidade social e que nessa constante relação, atribui e constrói sentidos pessoais às suas experiências.

Sendo assim, a conquista de uma identidade plena e segura não deve ser vista como obtenção de normalidade, nem como ideal a ser alcançado, pois ressalta a idéia de que depois de conquistada, o indivíduo preservará esta identidade de maneira idêntica por toda a sua vida. Gonzalez Rey (2003) diz que dentro da perspectiva do materialismo histórico e dialético, a identidade de um sujeito (que integra a subjetividade humana) é um sistema complexo, distante do equilíbrio e que está em constante transformação. Desta maneira, as identidades étnica e nacional estão em constante formação e transformação. Elas não se encerram na adolescência e nem se tornam uma característica individual cristalizada.

2. Formas de aculturação e as dificuldades em se estabelecer um padrão de