A exemplo do Emílio, em que Rousseau faz do método negativo o roteiro para conduzir seu aluno a um tipo de educação natural, na Dissertação a sistemática não muda. Claro que Emílio é um selvagem e sua educação é orientada para a liberdade em meio à natureza, diferentemente do tipo de pedagogia ofertado ao Sr. de Saint-Marie, uma criança citadina. Rousseau recomenda que Emílio não conheça a literatura antes dos 15 anos e não se preocupe com nenhum tipo de instrução formal até atingir a idade da razão; com o Sr. de Saint-Marie, como perceberemos, Rousseau recomenda o estudo do latim, do francês, da história e da geografia, entre outras disciplinas formais. Contudo, antes que se comece a estudar qualquer coisa, é importante conhecer aquilo que devemos evitar, no caso do seu pupilo, o Sr. de Saint- -Marie, Rousseau recomenda que não lhe sejam apresentados o catecismo, a retórica, a lógica e a filosofia escolástica, que são matérias demasiadamente abstratas para a sua idade; o método negativo rousseauniano consiste nessas interdições iniciais junto à formação do seu educando.
164 Rousseau, nesse aspecto, é pascaliano. Suas opiniões sobre esse ponto em muito se assemelham à de Pascal
(2013), em especial na section XXVI, intitulada Misère de l’homme, em que Pascal condena o divertimento (divertissement), que, em sua opinião, consiste na distração que o homem impõe a si para camuflar o desgosto interior que o acompanha. Por isso, ele (o homem) tanto se aplica das coisas exteriores para não se obrigar a ver aquilo que está dentro de si, ou seja, sua miséria interior (PASCAL, 2013).
165 Essa discussão, de algum modo, antecipa a questão do interesse presente na Lettre à Offreville. Lembremos
que o que está em questão aqui é o valor moral da ação na Dissertação da verdadeira felicidade e na Lettre do autêntico interesse. O que une essas duas perspectivas, portanto, é a virtude do couer, ora expressa na felicidade interior que se exterioriza nas moderadas relações sociais, ora expressa no interesse individual solidário ao interesse do outro.
Rousseau recomenda ao Sr. de Mably um roteiro de estudos para o seu filho que possa, ao mesmo tempo, tornar-lhe um cavalheiro polido e um homem de bem; como vimos, ele recomenda que o Sr. de Saint-Marie opine, quando solicitado, das reuniões dos adultos, o que seria um meio pensado por Rousseau de valorizar sua autonomia e conferir-lhe uma importância social. Todavia, Rousseau também cria mecanismos de barrar-lhe a vaidade, que o tornaria um adulto indolente; como vimos: o desprezo, um raciocínio convincente ou uma privação sensível
dissuadiria a criança de seu orgulho. Na lista de estudos ofertada por Rousseau ao Sr. de Saint- -Marie, estão outras matérias formais, além das já citadas, como a história natural, a matemática
e as belas-letras. Contudo, assim como a intenção de Rousseau não era criar um tagarela, em recomendando a participação do pequeno Saint-Marie nas reuniões de família, seu objetivo, com a educação do seu pupilo, não era o de formar um pequeno erudito ou torná-lo desde cedo um pedante. Sobre esse último aspecto, Rousseau (2004b) se opõe ao pedantismo dos mestres; a soberba, com relação aos estudos, cria disposições ruins e péssimos hábitos; a saída para isso só a humildade intelectual poderá nos fornecer.
Montaigne (1987, p. 70), lido atentamente por Rousseau166, diz que: “[...] assim
como as plantas morrem por excesso de seiva e as candeias se apagam com abundância de azeite, os espíritos curvam-se e se ancilosam sob o peso dos estudos e das matérias com que os encheram e que eles não puderam deslindar”. A intenção de Montaigne, semelhante à de Rousseau, não é a de mostrar à criança o mundo sem que antes ela o tenha conhecido167. O
excesso de teoria torna a educação infértil e cria uma realidade demasiadamente abstrata, distante da realidade da criança; por isso, o plano de estudos de Rousseau (2004b), em consonância com as práticas que o infante está em condições de aprender, tem a intenção de ligar o estudo ao prazer, motivando-lhe a adquirir conhecimentos e fazendo-lhe perceber a estreita ligação entre as ciências e as coisas que fazem parte do seu cotidiano. Um exemplo disso é a recomendação de Rousseau (2004b, p. 42) ao Sr. de Mably, de trocar as diversões inúteis do Sr. de Saint-Marie por objetos que lhe sirvam de brinquedo e, ao mesmo tempo, de instrução: “[...] Recortes, um pouco de desenho, a música, os instrumentos, um prisma, um
166 Sobre as influências das ideias pedagógicas de Montaigne atinentes a Rousseau, ler a segunda parte,
especialmente o primeiro e o segundo capítulos do livro de Pierre Villey, intitulado L’influence de Montaigne sur les idées pédagogiques de Locke et de Rousseau.
167 No capítulo XXVI dos seus Ensaios, intitulado Da educação das crianças, Montaigne (1987, p. 77) faz uma
crítica à educação ofertada nas escolas e, em seguida, sugere como as crianças merecem ser tratadas no ato educativo: “[Os mestres] Não cessam de nos gritar nos ouvidos, como que por meio de um funil, o que nos querem ensinar, e o nosso trabalho consiste em repetir. Gostaria que ele [o mestre] corrigisse este erro e, desde logo, segundo a inteligência da criança, começasse a indicar-lhe o caminho, fazendo-lhe provar as coisas, a escolhê-las e a discerni-las por si próprio, indicando-lhe por vezes o caminho certo ou lho permitindo escolher. Não quero que fale sozinho, e sim que deixe também o discípulo falar por seu turno”.
microscópio [...], um ímã e mil outras pequenas curiosidades me forneceriam assuntos contínuos para diverti-lo, para instruí-lo, mesmo sem que ele notasse168 [...]”.
O estudo da história, por exemplo, para que seja agradável ao pequeno aluno, deve vir acompanhado de uma significação moral. Através dos grandes exemplos que a história nos fornece, pensa Rousseau (2004b), é possível extrairmos exemplos de grandeza e coragem. Tudo na personalidade de um grande homem deve ser observado, até mesmo suas fraquezas, para que sejam extraídos exemplos de virtude e de sabedoria (ROUSSEAU, 2004b). A exemplaridade dos ícones históricos inspiraria Saint-Marie a tomar gosto pelo mundo e a valorizar as boas companhias. Para o jovem pupilo, sublinha Rousseau (2004b), devem ser expostos exemplos de emulação e de desprezo público, para que desde cedo ele possa apreciar os valores consagrados pelo apreço popular. O desenvolvimento da reta razão e a admiração pelos grandes homens são estímulos ao progresso moral do pequeno estudante, enfatiza Nacarato (2004).
A valorização do universo das letras mediante a leitura de autores como Molière e La Bruyère deve estar presente na instrução do seu orientando, recomenda Rousseau (2004b). A leitura deve elevar o coração do Sr. de Saint-Marie e ajudá-lo a conviver no meio dos homens (ROUSSEAU, 2004b). A ideia de Rousseau (2004b) é acostumar o espírito do seu aluno desde cedo à reflexão, a fim de que ele possa considerar as coisas por seus efeitos e consequências. A cultura da razão, que deve ser cultivada nos estudos do pequeno Saint- -Marie, deve estar acompanhada de um cuidado de não tornar obrigatórios e enfadonhos os seus estudos; assim, “[...] não exigindo dele uma atenção penosa e contínua, esses temas não terão nada de nocivos à sua saúde” (ROUSSEAU, 2004b, p. 25). Aplicando o método negativo na instrução do seu jovem infante, Rousseau (2004b) traça o roteiro de estudos próprio à idade de seu educando. No latim, por exemplo, deve-se evitar a composição das versões e incentivar-lhe o gosto pela boa literatura; na história, em suprimindo de início a parte antiga, deve-se instruí-lo sobre as questões mais atuais, por intermédio da história moderna (ROUSSEAU, 2004b).
168 Rousseau (2004b) dá ao seu aluno uma pseudossensação de autonomia; na realidade, tudo é previamente
planejado e a execução das brincadeiras com fins pedagógicos é sempre supervisionada de perto por ele. Algumas passagens da Dissertação dão provas dessa constante busca de controle de Rousseau (2004b, p. 42-43) sobre o seu aluno: “[...] Por outro lado [diz Rousseau à mãe de Saint-Marie], ter-se-ia o cuidado de enviá-lo para junto de mim logo depois de se levantar sem que nenhum pretexto pudesse dispensá-lo [...]. Nas horas em que quisesse ocupá-lo, eu suprimiria toda a sorte de divertimento e lhe proporia o estudo dessa hora [...], eu não o maltrataria: mas suprimiria todas as suas distrações nesse dia; [...] o divertimento, não sendo legítimo, senão quando é o descanso do trabalho [...]. Meu objetivo com essa conduta seria acostumá-lo a ligar tão bem as ideias do estudo e do prazer, por um lado, e, por outro, as da ociosidade e do tédio [...], pois, por mais que se faça, a ideia de constrangimento e de aplicação que o estudo traz consigo jamais se tornará agradável a ele senão pela adjunção de alguma ideia estranha e risonha que se possa apresentar sempre ao mesmo tempo”.
Rousseau (2004b) adota um tom moderado no ensino das disciplinas oferecidas ao seu pequeno aluno. Claramente oposto ao método de coação e contra a obrigatoriedade dos estudos, Rousseau (2004b) segue uma didática que inclui recreação e passeios ao Sr. de Saint- -Marie. No estudo da física, por exemplo, Rousseau (2004b) pretende, através de caminhadas, explicar-lhe as diferenças entre os sistemas de Descartes e de Newton. Sem tratar nem a um nem a outro como absolutamente verdadeiros, Rousseau (2004b, p. 46) explica ao seu educando que nem as suposições abstratas de Descartes nem a recorrência aos fatos de Newton constituem verdades integrais: “[...] contentemo-nos em saber o que é, sem querermos investigar como as coisas são, já que esse conhecimento não está ao nosso alcance”. Rousseau (2004b) expressa desconfiança com relação aos conteúdos das ciências naturais, que se pretendem irrefutáveis. Ele encerra o roteiro de estudos do Sr. de Saint-Marie aconselhando a prática da atividade física; elas são boas, diz Rousseau (2004b), porque, além de favorecerem a saúde, servem de relaxamento e de recreação aos trabalhos do espírito.