A educação moral do Sr. de Saint-Marie deve seguir essa regra do aprender pelo coração, pelos sentidos e pela razão. A axiologia rousseauniana não é apriorística, pois não é feita mediante preceitos; ela é baseada em princípios práticos. Rousseau escreve a Dissertação para o Sr. de Mably com o intuito de ensinar ações ao seu filho; não que Rousseau despreze as matérias teoréticas, como a filosofia ou a lógica, por exemplo, mas ele sabe que existe uma idade certa, que não é a infância, para ensiná-las. Entre os valores defendidos por Rousseau
para uma formação moral do seu jovem educando, dois aspectos devem ser destacados: o disciplinar e o do convívio social da criança. Sobre esse último, podemos acrescentar as reflexões de Rousseau concernentes à educação e à felicidade mundana, que, de alguma forma, antecipam o tema do interesse presente na Lettre à Offreville.
Rousseau (2004b, p. 19-20) rejeita os métodos violentos praticados pelos
precepteurs no século XVIII159: “[...] um homem de bem não poderia jamais usar as suas
mãos de modo mais vergonhoso do que empregando-as para maltratar uma criança”. Um mestre severo e feroz, pontua Rousseau (2004b, p. 34):
[...] inveja nos outros prazeres que não estão ao seu alcance desfrutar, crê fazer maravilhas realçando aos olhos de seu aluno todas as faltas que vê cometer, todos os defeitos que avista e, sob pretexto de ensiná-lo a evitar os mesmos defeitos, não deixa, ao sair de uma assembleia, de passar em revista tudo o que se pensou ver de mal e de exortá-lo a tomar sobre a conduta do Senhor tal e da Senhora tal boas lições para nunca imitá-los; é sobre essas belas instruções que se formam todos os dias, esses pequenos fazedores de sátiras e de epigramas e essa multidão de fúrias cujas línguas e penas perigosas, depois de terem estado em moda durante algum tempo, tornam-se, enfim, o horror e o flagelo da sociedade.
Essa passagem da Dissertação é reveladora, dado que nela Rousseau identifica as causas morais e psicológicas da violência do mestre sobre o seu aluno. A inveja e o ressentimento fazem da “moralidade cristã” a porta-voz das punições que o preceptor deve infligir ao seu educando, sob qualquer sinal de desobediência. Nessa parte importante de seu opúsculo, Rousseau (2004b) descobre que os preconceitos teológicos estão na base de uma visão pessimista do homem. A ideia hobbesiana de que o homem é mau imediatamente dá a outorga ao preceptor de punir fisicamente o seu pupilo, com a intenção de corrigir nele as maledicências que ele carrega desde o pecado original. No entanto, sob o véu da “santa moralidade”, Rousseau (2004b) descobre o símbolo da hipocrisia; ele observa que o mesmo homem que constrange seu aprendiz é aquele que horas mais tarde prega amor ao próximo publicamente.
O homem é mau porque tornou-se mau, no entanto essencialmente ele permanece bom. Rousseau é pessimista frente ao progresso histórico e otimista com relação ao homem. Sua intenção na Dissertação é resgatar o pouco que sobrou da bondade original do homem, cultivando-a no coração do seu jovem aluno. Ele aconselha ao Sr. de Mably que permita seu filho conviver em meio às pessoas de bem, para que com elas possa aprender desde cedo princípios de sabedoria e de virtude (ROUSSEAU, 2004b). Uma outra sugestão de Rousseau ao Sr. de Mably é a de que ele tome as rédeas sobre a educação do Sr. de Saint-Marie, ensinando-o, inclusive, a reconhecer no preceptor (que é ele Rousseau) uma autoridade
159 Uma das grandes contribuições de Rousseau (2004b) aos direitos das crianças, observa Nacarato (2004), foi a
constituída160. Paradoxalmente a isso, no entanto, Rousseau (2004b) incentiva o Sr. de Mably
a ocasionalmente estimular seu filho a participar, através de suas próprias opiniões, sobre os assuntos da sala; isso seria uma forma de valorizar sua autonomia e, ao mesmo tempo, de conferir-lhe uma importância social (ROUSSEAU, 2004b).
No entanto, a intenção de Rousseau (2004b) não é a de criar tagarelas ou fazer das crianças pequenos eruditos161. Rousseau é contra a opinião corrente no século XVIII de que a
criança é um pequeno adulto162. Uma visão precoce dos homens é capaz de estragar, ainda que
prematuramente, o espírito do infante, enchendo-o de preconceitos, por isso não o abandonemos às suas próprias reflexões para não acostumá-lo a corrigir a conduta dos outros quando suas luzes ainda não lhe oferecem condição para tal (ROUSSEAU, 2004b). Nesse sentido, Rousseau (2004b, p. 26) defende que toda a vaidade lhe deve ser censurada: “Se há algumas ocasiões em que a severidade seja necessária em relação às crianças, é nos casos em que os costumes estarão sendo atacados e quando se trata de corrigir maus hábitos”. A forma de corrigir esse desvio na formação do caráter da criança não deve ser o castigo físico, mas o desprezo, uma opinião convincente ou uma privação sensível, reitera Rousseau163 (2004b).
No decorrer da Dissertação, Rousseau analisa o papel da educação e da felicidade mundana no desenvolvimento do seu pupilo. O verdadeiro objetivo da educação de um jovem é torná-lo feliz (ROUSSEAU, 2004b). Rousseau (2004b, p. 29) afiança que existem duas maneiras para se chegar à felicidade, “[...] Uma satisfazendo suas paixões e a outra moderando-as: pela primeira desfruta-se, pela segunda não se deseja, e seríamos felizes por ambas se não faltasse a uma aquela duração e à outra aquela vivacidade que constituem a verdadeira ventura”. Quanto mais a ação do prazer é forte, sublinha Rousseau (2004b), menos duração ela tem. O prazer em demasia está ligado às paixões tristes. Pascal, antes de Rousseau, já havia afirmado, em seus Pensées, em especial na section XXVI, que, quanto mais o homem
160 Nacarato (2004, p. 21) declara que: “A insistência de Rousseau em que o pai lhe atribuísse poder diante dos
alunos está ligada às diferenças sociais [no século XVIII], que punham o preceptor num papel de subalternidade, que lhe tirava qualquer autoridade. Veja-se com que formalidade Rousseau devia tratar as crianças: Sr. de Saint-Marie e Sr. de Condillac”.
161 “[...] Para bem julgar a maneira do mundo e a vida humana, para desenvolver as suas causas e para nelas
conduzir um jovem com sucesso, não creio, entretanto, que seja necessário ter um talento extremamente sutil; pensar certo, ter bom senso e um pouco de gosto, não ser singular nem pela tolice nem pela fatuidade, só com isso um mestre zeloso deve conseguir formar um menino e fazer dele um cavalheiro polido e um homem de bem, o que constitui o duplo objetivo da educação” (ROUSSEAU, 2004b, p. 39).
162 Essa crítica endereçada a Locke está exposta no Prefácio e no Livro II do Emílio.
163 Sobre isso, Rousseau (2004b) mostra-se mais uma vez paradoxal; ele rejeita o uso dos castigos físicos, mas
não considera uma violência – do tipo psicológica – o desprezo ou a privação dos objetos de desejo de seu aluno. De clara influência maquiavélica, Rousseau (2004b) considera que um mestre deve ser temido, mas também estimado. Ele também considera normal e até edificante os exemplos de humilhação e de escárnio públicos contra os “ridículos” detratores da ordem e da moral (ROUSSEAU, 2004b). Sempre que necessário, avalia Rousseau (2004b), é necessário punir o Sr. de Saint-Marie com a aparência de indiferença e de desprezo; ou seja, atacar pela raiz suas inclinações à vaidade e suas faltas eventuais.
se diverte, menos ele é feliz. As paixões tristes surgem quando não somos donos de nós mesmos, ou seja, quando não temos controle sobre nossos sentimentos, tampouco sobre nossa razão. No divertissement, exteriorizamos nossas angústias, ao mesmo tempo que perdemos a nós mesmos numa sociabilidade vazia e artificial164.
As boas paixões, ao contrário, nascem da tranquilidade da alma. Rousseau (2004b, p. 30) liga a verdadeira felicidade a um convívio social moderado e principalmente às ações altruístas: “[...] Não consideremos como se estivéssemos sozinhos na natureza, prestemo-nos às necessidades de outrem a fim de que ele se preste às nossas reciprocamente [...]”. Depois de analisar o comportamento do homem, no aturdimento e na quietude da alma, Rousseau (2004b) conclui que, para ser feliz, é preciso moderar as paixões, de modo a exercitá-las no convívio social165. Um jovem educado através do equilíbrio das suas paixões tomaria gosto pelas boas
companhias, aprenderia a polidez e as considerações que nós devemos reciprocamente na vida em sociedade, em resumo, tornar-se-ia um bom cidadão (ROUSSEAU, 2004b).