• No results found

Encontrei a professora Silvana entre uma aula e outra na minha urgência em retomar o curso das entrevistas perdido pela falta de retorno das professoras aos meus e-mails. A professora de História é objetiva e de muita clareza nas respostas. Marcamos nos encontrar no entreturnos, no horário do almoço de uma terça-feira.

No horário marcado, lá estava ela, corrigindo provas, organizando seu material, numa escola ainda com pouco movimento. Assim que esteve disponível, sugeri que começássemos e pedi que o fizéssemos em outro local. Então fomos a uma sala contígua, reservada à supervisão.

Silvana tem menos de 40 anos, é solteira, sem filhos e possui duas graduações, em História, concluída na Universidade Federal de Ouro Preto e a outra em Direito, pela Universidade Federal de Minas Gerais e possui uma Especialização. É professora efetiva na escola onde atua nos turnos da manhã e tarde. É formada há mais de seis anos.

Transparentemente objetiva, afirmou não ter atuado como professora das áreas de empregabilidade do REM e afirmou seu ponto de vista sobre o Projeto lá implantado no ano de 2012: “Foi tudo improvisado”.

Demonstrou muito conhecimento e entendimento do que se passou na escola desde a chegada da proposta do Projeto na chamada fase piloto. Não manifestou qualquer interesse em assumir aulas no Projeto e critica a escolha dos profissionais para a formação da equipe:

Não, foi... Foi um ato discricionário do diretor. Ele escolheu a equipe, e perguntou se as pessoas queriam, elas toparam e pronto! Não teve um processo... não me lembro dele ter, não me lembro mesmo dele ter chegado e falado assim se queria fazer parte da equipe ou não. Foi escolhida a equipe e depois a equipe foi apresentada. (Depoimento de Silvana, 2015).

Observadora, declarou seu envolvimento com as atividades desenvolvidas nas áreas de Empregabilidade, mencionando o Projeto Jovem de Futuro como um elo entre ela e o que acontecia entre seus alunos e o Projeto Reinventando o Ensino Médio, o que aproximou alguns professores na realização de trabalhos.

A aproximação da disciplina de História com as áreas da empregabilidade, no caso da professora com a Comunicação Aplicada, explica:

O CBC, né? Que eles estavam montando. Então estava bem mais próximos. Então foi bacana por isso. E, eu fiquei muito mais próxima da área de CA. Embora o Turismo, teoricamente fosse até uma área muito mais afim, mas, da História, mas a área da Comunicação foi mais próxima. Porque eu trabalhei muito com a professora de Arte quanto à professora de... que era no caso a era Cássia e a Ana Beatriz que eram professoras que davam aula de Comunicação (Aplicada). A gente trabalhou muita coisa junto, né? No primeiro ano. [...] A afinidade pessoal contou muito, nesse primeiro ano, é... E no primeiro ano, tinha a empolgação do Projeto. O Projeto era novidade, o Projeto parecia muito legal. O Projeto, apresentava um frescor muito grande. (Depoimento de Silvana, 2015).

Outra crítica da professora é quanto à definição dos professores por área afim e à falta de formação: “Se eu não tenho formação, como é que vou dar aula?”

Trabalhando com os mesmos alunos do REM e do Projeto Jovem de Futuro, seu envolvimento aconteceu naturalmente e comenta que “no primeiro ano as áreas ficaram mais próximas, inclusive o ensino regular e a empregabilidade. Foram mais próximos. Então tinha uma proximidade. Até porque os professores das empregabilidades estavam montando o currículo, estavam montando a grade, estavam montando quais era m as disciplinas, o que eles iam trabalhar”. (Depoimento de Silvana, 2015).

Destaca que o sexto horário na rotina do aluno era um grande problema, mas que abriu possibilidade de um ganho muito grande também.

Ressalvando que essa ampliação do turno impactou também na vida do professor, pois, sob seu ponto de vista, não considerou o vínculo de trabalho de vários profissionais com outras Redes de Educação. Embora não se enquadrasse nesse caso. E considera como erro a expansão do Projeto REM, sem que se tivesse experimentado o fechamento de um ciclo nas chamadas escolas-piloto.

Pergunto se para ela o REM não se apresentou como um Projeto, no seu ponto de vista, interessante, por não ter sido proposto como uma formação profissionalizante, ao que ela respondeu que o grande ganho foi o objetivo de oferecer uma formação cidadã. E me reporta o caso de um aluno que despertou para um talento descoberto a partir das atividades propostas no REM:

Então eles ficaram muito empolgados, os alunos ficaram muito empolgados. Então a gente... fez muita coisa aqui dentro da escola mesmo, a gente tem um aluno, mesmo, que ele era tido como aluno-problema que a gente descobriu um talento artístico nele, esse menino se desenvolveu muito. E ele é um orgulho pra mim até hoje. Então, a gente tem contato e ele fala assim: Olha, hoje eu sei quem que eu sou. O que eu sou porque vocês me abriram as portas... Então ele... (Depoimento de Silvana, 2015).

Com sua objetividade já mencionada, Silvana faz sua síntese sobre o REM de forma ampla:

Nós vamos oportunizar ao professor, por exemplo, numa pós-graduação na área? Eu vou remunerar o professor para isso? Você está fazendo o seu mestrado agora, mas você está sendo remunerada com a Bolsa. Tem como você estudar sem ela? Não tem. Não tem. Foi o que o Estado quis que nós fizéssemos. Que nós tirássemos coelho de cartola. Os professores construíram o CBC de forma heroica. Sabe? Se você for lá na Magistra, depois você vai lá e olha, não sei se você já teve a oportunidade de ler o CBC. Leia o CBC. Eles construíram o CBC do nada. Tiraram leite de pedra. E foi isso que foi feito aqui na escola durante os três anos. Com todos os revezes, com todos os problemas o que a gente conseguiu aqui foi muita coisa diante do que a gente não tinha. Aí, eu vi que (?) a gente trabalhou aqui no Projeto do Jovem do Futuro do Unibanco porque já estava todo estruturado. A gente seguiu direitinho as diretrizes que eles deram. E ainda assim, teve muita coisa que não deu certo, que deu errado. Aí, agora, assim, você prometeu aí pros alunos que vieram pro primeiro ano, foi prometido pra eles uma coisa e depois, nada. Aí você teve lá: no primeiro ano eles tiveram experimentado, chegou no terceiro ano foi escasseando... Terceiro ano: NADA. Os meninos que chegaram no 2º ano do Projeto, que entraram no primeiro ano do Ensino Médio, no segundo ano do Reinventando, não tiveram as mesmas oportunidades dos meninos. Aí os meninos que entraram no 1º. ano passado chegaram no segundo, o Projeto acabou. (Depoimento de Silvana, 2015).

Finalizamos a entrevista ainda com a sensação de que tudo havia sido dito com toda clareza e indignação que a professora não tentou disfarçar em momento nenhum. Ouvimos o

sinal anunciando o começo de novo horário. Silvana se despediu e com seu jeito determinado, pegou seu material e foi para a sala de aula.