A administração petista em Diadema, no período de 1983 a 1988, gerou muita expectativa em diversos segmentos sociais, por representar o primeiro governo municipal de um partido que teve origem nos movimentos sociais, principalmente no sindicalismo do ABCD paulista no final da década de 70 e início da década de 80.
A FSP, o OESP e o JT apresentaram a maior parte das matérias sobre Diadema no noticiário de política nacional, pelo fato da referida administração ser considerada como espelho do que seria o governo petista nos âmbitos federal e estadual.
O jornal O Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde, em grande parte das publicações, apresentaram uma série de críticas e “denúncias” referentes ao “caos” existente na cidade, onde principalmente a classe média sentia-se abandonada pelo poder público local, devido à “incapacidade administrativa”. A “corrupção”, as práticas “antidemocráticas” e mesmo “autoritárias” da administração, procuravam enfatizar as “contradições” de um partido que se propunha democrático, transparente e ético.
Nos períodos de disputa eleitoral, como nas eleições para os governos estaduais realizadas em 1986, a grande imprensa relacionou o Partido dos Trabalhadores às ações criminosas, como por exemplo, o assalto ao Banco do Brasil em Salvador e enfatizou a “incompetência administrativa” do prefeito de Diadema.
Os informativos municipais e as publicações dos departamentos da PMD foram extremamente significativos, pois se constituíram no principal canal de comunicação entre a administração e a população. Através desse material, constatamos a importância atribuída pelo poder público municipal à participação popular na efetivação do Orçamento Participativo, com o levantamento dos principais problemas da cidade e a tomada de decisões.
A prestação de contas realizada através de encontros coletivos e divulgada através dos Informativos tornou-se a marca deste Governo
Municipal, considerada como fundamental no processo de transparência administrativa.
Estes Informativos eram importantes também, por possibilitarem a análise dos temas locais, nacionais e internacionais, considerados relevantes pela administração e também, por indicarem as formas de confecção e distribuição desse material, remetendo à influência herdada dos movimentos sindicais e de organizações de bairro, na busca por alternativas que superassem as dificuldades geradas pela falta de espaço e pelas seguidas distorções de informação comuns na grande imprensa.
O caráter pedagógico dessas publicações também merece ser salientado. Eram utilizados diversos recursos, como charges, desenhos explicativos e linguagem acessível, a fim de tornar o conteúdo compreensível para grande parte da população, diferindo das publicações da grande imprensa e imprensa local, que utilizavam uma linguagem mais formal. As publicações oficiais tinham também um caráter de contestação e questionamento quanto ao conteúdo apresentado pela grande imprensa, muitas vezes articulada para desmoralizar a administração.
O Diadema Jornal seguia a pauta da imprensa diária paulistana, abordando os grandes temas como: Diretas Já, Constituinte, Eleições Estaduais, Plano Cruzado entre outros. Nesse periódico, não havia a desqualificação da administração municipal de forma explícita, como ocorria na maioria das matérias editadas principalmente pelo OESP e JT. A atenção maior do DJ volta-se para a divulgação das realizações do Governo Estadual, exercido pelo PMDB, no município de Diadema através da ação direta do governador e secretários ou através da ação ou intervenção dos vereadores peemedebistas, o que nos mostra uma evidente partidarização do periódico.
A imprensa local dependia também de matérias pagas pela administração municipal, o que dificultava as críticas diretas, que muitas vezes eram feitas através do espaço reservado às cartas dos leitores.
Como podemos observar, tanto a imprensa local como a chamada “grande imprensa” estavam longe da pretensa imparcialidade e eqüidistância,
muitas vezes apregoada nos editoriais, por parte dos responsáveis pelos jornais.
Estamos nos aproximando do final do ano de 2006, com o término do primeiro mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva, eleito em 2002. Estamos distantes da presença de Gilson Menezes como prefeito de Diadema. Vivemos um novo processo eleitoral em que o Presidente Lula venceu as eleições para novamente continuar o seu mandato como Presidente da República, conquistando mais de 60% dos votos contra Geraldo Alckmin. Apesar de todas as tentativas de desqualificar o PT no período em que Gilson Menezes foi prefeito de Diadema, o Partido dos Trabalhadores cresceu e foi conquistando cada vez mais espaço político.
O término desta pesquisa no ano de 2006 é muito significativo, quando observamos a atuação da imprensa durante o período das eleições para os poderes executivo e legislativo, tanto estadual como federal. Apresento algumas manchetes atuais, que provavelmente sejam objeto de novas pesquisas. A chamada “grande imprensa” repetiu procedimentos anteriores que reforçam preconceitos e hostilidade em relação ao PT e principalmente ao presidente, que é visto como “despreparado”, “analfabeto”, “incompetente”, como se o seu lugar de pobre, operário e nordestino fosse fixo, não podendo jamais chegar ao cargo que atualmente ocupa. As realizações positivas de seu governo não foram apresentadas pela imprensa.
Muitos elementos que analisei na década de 80 ainda continuam presentes, como a disposição das notícias, o diálogo entre o texto e as fotos, os sujeitos sociais priorizados, entre outros fatores desenvolvidos neste trabalho. No presente momento, novos dados devem ser levados em consideração, não apenas as diferenças do contexto histórico, como também a própria velocidade da informação, a forma e o conteúdo das notícias nos jornais on line. Como afirmei anteriormente, são apenas indicações de inúmeras pesquisas para pensarmos nessa relação passado/ presente/futuro. Para demonstrar esta afirmação, extraí algumas chamadas atuais das edições on line da Folha de São Paulo, do OESP e do Jornal da Tarde, que apesar do formato diferente, uma vez que não permitem a visualização total das edições,
como nas publicações impressas dos periódicos, fornecem vários elementos para análise, como as manchetes e as respectivas fotos em destaque.
Alan Marques/Folha Imagem
Raio atinge o Congresso durante chuva em Brasília, a primeira no mês de agosto, período de seca na região
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consolidou seu favoritismo e seria reeleito hoje no primeiro turno com 56% dos votos válidos, de acordo com uma nova pesquisa Datafolha. O fato coincide com a melhora da avaliação positiva da gestão Lula, que subiu sete pontos e atingiu o recorde de 52%. Desde 1987, a maior aprovação era de Fernando
Henrique Cardoso: 47%.
Fonte: Folha de São Paulo – On Line, 23 de agosto de 2006. 114
Apesar da foto acima referir-se às condições climáticas de Brasília, não podemos dissociá-la do favoritismo de Lula, no final do mês de agosto, nas eleições que se realizariam no início de outubro, indicando já a vitória no primeiro turno. A foto nos remete ao mau agouro, como presságio de “maus tempos” vindouros.
Na edição de 26 de setembro do OESP, a manchete em que Lula chama de “aloprados” pessoas muito próximas a ele, como o presidente do Partido dos Trabalhadores e outros supostos envolvidos na compra de um dossiê envolvendo a família Vedoin115. A utilização de um vocabulário não adequado à
norma culta, reforçava a idéia de incompetência e despreparo do presidente. A foto na primeira página do jornal, mostrava os candidatos à presidência e ao governo de estado de São Paulo, respectivamente Geraldo Alckmin e José
114 Folha On Line, 23ago. 2006. Disponível em: <http://www.1.folha.uol.com.br/fsp> Acesso em: 01
nov.2006.
115 O dossiê trazia informações de um suposto envolvimento de José Serra, candidato ao governo do
Estado de São Paulo no ano de 2006, com a “máfia dos sanguessugas”, referente à compra de ambulâncias superfaturadas comercializadas pela empresa Planam, de propriedade dos Vedoin, no período de 2000 a 2004, com propinas para os políticos, que estariam vendendo informações para fins eleitoreiros.
Serra, representando uma possível vitória, não havendo na primeira página nenhuma referência ao conteúdo da notícia sobre o referido dossiê, apenas a manchete condenando a compra. A foto também é muito significativa, a cinco dias do primeiro turno das eleições como prenúncio do resultado.
Terça-feira, 26 setembro de 2006.