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Afirmamos, a partir de bases textuais (em 3.2), que a classificação brentaniana dos fenômenos psíquicos apresentada em A origem do

conhecimento moral (1889) se orientou pela análise cartesiana acerca das

atividades da alma. Também afirmamos (em 1.5) que essa orientação cartesiana fazia parte da estratégia brentaniana de argumentação. Em outras palavras, Brentano se valeu da classificação cartesiana para apresentar as correções na descrição das atividades psíquicas, impostas pelos critérios de análise encontrados pela descrição da relação entre as partes e o todo da consciência. De modo mais específico, Brentano tratou primeiramente de analisar a divisão cartesiana acerca das atividades psíquicas. Seu propósito era apresentá-la como uma distinção correta das partes da consciência, pois essas partes estariam constituídas pelos pares de correlatos intencionais. Em seguida, tomando como base as descrições das três atividades psíquicas resultantes dessa análise, Brentano pôde fundamentar a correção da descrição das atividades psíquicas dos juízos e dos sentimentos. Como indicamos no ponto anterior, seu procedimento consistiu em distinguir, nos pares de correlatos intencionais, as partes que constituíam a relação psíquica primária e secundária (Diploseenegie). Vejamos, passo a passo, as bases textuais e as implicações dessa análise. Para isso, analisaremos o Esboço Psicognóstico,

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texto resultante do curso ministrado na Universidade de Viena em setembro de 1901266 e publicado como anexo 4 da Deskriptive psichologie.

Nesse trabalho, Brentano explicitou claramente o ponto de convergência entre a análise cartesiana das atividades psíquicas e sua descrição das partes da consciência orientada por sua análise da relação entre as partes e o todo da consciência. Tal como estabeleceu a citação abaixo, Brentano considerou que a análise cartesiana descreveu corretamente o correlato de todo ato psíquico, encontrado por meio da distinção que explicita as partes de correlatos intencionais. Por isso, ele aproximou sua definição de „correlato do ato psíquico‟ à definição de Descartes:

Cada um de nós aparece para si mesmo em unidade e particularidade pessoal. Nós nos referimos àquilo que constitui esta unidade e particularidade como nossa alma (Seele). Esta alma mostra a si mesma em múltiplas atividades. Ela inicia e cessa de estar em ato de certo modo, enquanto permanece constantemente em ato de outro modo. Como ato, ela é afetada e, como ato, ela é efetiva. Deste modo, ela é (percebida como) substancial (wesenhaft). Nós falamos neste sentido da maioria das atividades da alma. Enquanto está em ato, ela tem alguma coisa como objeto. Isto Descartes designou ter-como-objeto como pensamento (no sentido mais geral). Outros designaram ter como consciência (no sentido mais geral), ter-presente como mental [geistiges Gegenwärtig- Haben], permanência mental [geistiges Inhaben], outros ainda como relação intencional, ou alguma coisa mais. De modo breve e claro, nós o designaremos ter-um-objeto [Gegenständlichhaben] e o correlato existir-como-objeto [Gegenständlichsein]. Nisto consiste a específica relação da alma, a relação psíquica .267

266 As referências apresentadas pelo editor Chisholm são as seguintes.”PSYCHOGNOSTIC SKETCH

Outline of a psychognosy, begun on 4 September 1901 and finished on 7 September 1901. From the Nachlass. Registered as Ps 86“.

267 „Jeder von uns erscheint sich selbst in persönlicher Einheit und Besonderheit; was diese Einheit und

Besonderheit ausmacht, nennen wir unsere Seele. Diese Seele zeigt sich in mannigfacher Tätigkeit; sie beginnt und hört auf in einer Weise tätig zu sein, während sie in anderer Weise unverändert tätig bleibt; sie wird als tätig gewirkt und ist als tätig wirksam, also wesenhaft [wahrgenommen]. Wir sprechen in dieser Beziehung von einer Mehrheit von Seelentätigkeiten. Indem sie tätig ist, hat sie etwas zum Gegenstand. DESCARTES hat dieses Zum-Gegenstande-Haben als Denken (im allgemeinsten Sinne), andere haben es als Bewußtsein (im allgemeinsten Sinne), wieder andere als geistiges Gegenwärtig-Haben, geistiges Inhaben, wieder andere als intentionale Beziehung und noch andere noch anders bezeichnet. Wir wollen es der Kürze und Deutlichkeit Rechnung tragend Gegenständlichhaben und das Korrelat Gegenständlichsein nennen. Es besteht darin die spezifisch seelische Beziehung, die Seelen-Beziehung ” Brentano, Franz. Deskriptive Psychologie, p. 146.

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Tal como afirmou esta citação, o elemento fundamental para a descrição das atividades psíquicas era a relação intencional entre ato e correlato da consciência. Por esse motivo, segundo a interpretação de Brentano já mencionada268, o valor da análise cartesiana estava no fato de ser

a primeira a apresentar uma divisão das classes constituintes das atividades psíquicas, determinada por aquilo que o critério brentaniano descrevia como partes da consciência constituintes dos pares de correlatos intencionais.

Para compreendermos a plausibilidade dessa consideração de Brentano, é preciso ressaltar, mais uma vez, a novidade apresentada na análise cartesiana. Segundo Brentano, essa novidade estava no critério que estabeleceu a divisão das atividades psíquicas a partir da relação intencional entre ato intencional e seu correlato (objeto imanente). Como contracara da proclamação dessa novidade, explicitava-se imediatamente o abandono efetivo da orientação aristotélico-tomista para o critério de classificação dos fenômenos psíquicos.

O abandono desse ponto fundamental ocorreu no processo de desenvolvimento do projeto brentaniano da filosofia do psíquico. Por isso Brentano não se ocupou com a apresentação de uma refutação explícita aos fundamentos da Psicologia do ponto de vista empírico, mas é interessante ressaltar que as declarações brentanianas acerca da lei psicofísica de Fechner são um exemplo pontual desse abandono. Em 1874, a lei de Fechner era concebida por Brentano como aquela lei fisiológica obtida por indução a partir dos fenômenos psíquicos de representação. Em 1889, a análise brentaniana fazia referência à lei de Fechner apenas para apontar os pressupostos teóricos abandonados:

Ainda que estivesse assegurada, a lei psicofísica de Fechner, uma vez que provoca mais e mais dúvidas e objeções, só poderia servir

268 “Em suas Meditações, Descartes foi o primeiro a expô-las (as três classes de fenômenos psíquicos)

exata e integralmente. No entanto, suas observações não foram suficientemente entendidas e caíram imediatamente no esquecimento, até que em nossa época, o fato foi redescoberto, independentemente dele. Hoje se pode considerar como suficientemente assegurado”. [„Danach gibt es drei Grundklassen. Descartes in seinen Meditationen hat sie zuerst richtig und vollständig aufgeführt; aber auf seine Bemerkungen wurde nicht genügend geachtet, und sie waren bald ganz in Vergessenheit geraten, bis in neuester Zeit die Tatsache unabhängig von ihm wieder entdeckt wurde. Sie darf wohl heutzutage als hinreichend gesichert gelten“]. Brentano, Franz. Vom Ursprung Sittlicher Erkenntnis, p. 17.

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para medir a intensidade do conteúdo de certas representações intuitivas.269

A partir de 1889, isso teve um significado imediato para a nomenclatura utilizada na definição dos fenômenos psíquicos e isso pode ser observado a seguir na definição da primeira classe de atividades psíquicas, pois, mesmo que as denominações das classes se identificassem com aquelas denominações apresentadas na Psicologia do ponto de vista empírico, Brentano foi incisivo no fato de que a definição de cada uma das classes de fenômenos psíquicos seguiria a orientação cartesiana.

Vejamos detalhadamente a exposição brentaniana de cada uma delas, começando pela primeira:

A primeira classe é a das representações no sentido mais amplo da palavra (as ideae de Descartes). Compreende tanto as representações intuitivas concretas, por exemplo, aquelas oferecidas pelos sentidos, como os conceitos mais distantes da intuição. 270

Brentano se valeu dos seguintes argumentos encontrados na terceira meditação para identificar a classe das representações com as ideae de Descartes:

Entre meus pensamentos, alguns são como imagens das coisas, e só àqueles convém propriamente o nome de idéia: como no momento em que eu represento um homem ou uma quimera, ou o céu, ou um anjo, ou mesmo Deus. (...) Agora, no que concerne às idéias, se as considerarmos somente nelas mesmas e não as relacionamos a alguma outra coisa, elas não podem, propriamente falando, ser falsas; pois, quer eu imagine uma cabra ou uma quimera, não é menos verdadeiro que eu imagino tanto uma como outra.271

Segundo a análise brentaniana, a definição cartesiana de ideae não apenas recolocou os termos em que a noção de representação havia sido definida na Psicologia do ponto de vista empírico, mas também lapidou o modo como os pares de correlatos da relação intencional deveriam ser concebidos.

269 „Das psychophysische Gesetz Fechners, selbst wenn es gesichert wäre, während es mehr und mehr

Zweifel und Widerspruch hervorruft, würde nur für die Messung der Intensität des Inhalts gewisser anschaulicher Vorstellungen“. Brentano, Franz. Vom Ursprung Sittlicher Erkenntnis, p. 88, nota 40.

270 „Die erste Grundklasse ist die der Vorstellungen im weitesten Sinne des Wortes (Descartes' ideae).

Sie umfaßt die konkret anschaulichen Vorstellungen, wie sie uns z. B. die Sinne bieten, ebenso wie die unanschaulichsten Begriffe“. Brentano, Franz. Vom Ursprung Sittlicher Erkenntnis, p. 17.

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Em outras palavras, tal como estabeleceu Brentano em 1874, a representação consistiu no ato de representar. Esse ato necessariamente possuía um objeto

intencional in-existente como correlato representado. Em 1889, a interlocução

com Descartes chamou a atenção para o seguinte ponto. Ao recusar a noção de ideae como cópia e atribuir-lhe uma função assimétrica, Descartes apresentou a relação intencional destituída do pressuposto de um objeto

intencional in-existente. Por esse motivo, ainda segundo os argumentos

brentanianos, Descartes foi o primeiro filósofo a distinguir os pares de correlatos que constituem a relação intencional.

Analisemos um pouco mais os detalhes que envolvem essa análise brentaniana acerca dessa definição apresentada por Descartes. Tomaremos dois pontos específicos na análise de Gèrard Lebrun acerca da noção cartesiana de ideae: (a) a descrição do estatuto objetivo do correlato da ideae; (b) a descrição do modo de existência desse correlato, como um modo de ser destituído de realidade.

Lebrun esclarece, primeiramente, que Descartes usou a noção de

ideae de dois modos distintos. Isso significa que seria preciso identificar o uso

meramente ilustrativo, adotado quando Descartes se referiu à noção de ideia como cópia de um original. E, além disso, seria preciso identificar o uso de

ideia como uma função assimétrica (ou, como definiu Brentano, a relação

intencional). Após a identificação desses dois usos, seria fundamental não confundi-los. Assim, Lebrun tem como base de sua análise a seguinte passagem das Meditações:

Esta definição da idéia como cópia na qual se anuncia um original (a idéia-quadro) reaparecerá muitas vezes nesta Meditação. Importa tanto mais sublinhar que os termos "como uma imagem" constituem apenas uma comparação destinada a explicar a função da idéia. Não se trata, de forma alguma, de assimilar a idéia intelectual à imagem sensível. 272

Seria preciso reconhecer, insiste Lebrun, o fato de que precisamente na passagem citada acima a função da ideae é definida „como uma imagem‟.

Além disso, para obtermos a correta compreensão acerca do que Descartes pretendeu, seria preciso considerar seu protesto contra Hobbes apresentado

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nas Terceiras Respostas: "Pelo nome de idéia, ele (Hobbes) quer somente que se entendam aqui as imagens das coisas materiais pintadas na fantasia corpórea”273. De fato, era essa definição hobbeseana que interessava a

Descartes refutar, pois a intenção de Hobbes podia ser resumida na formulação da seguinte implicação. “Sendo isso suposto (idéias são pinturas na fantasia), é-lhe fácil mostrar que não se pode ter nenhuma idéia própria e verdadeira de Deus nem de um anjo..."274.

Se utilizarmos uma terminologia brentaniana para expor a análise de Lebrun, podemos dizer que Descartes apontou o seguinte equívoco hobbeseano. Hobbes não concebeu que ideae seria uma relação intencional constituída por dois pares de correlatos (ideia como representação e ideia representada) e, por isso mesmo, encontrou na descrição cartesiana apenas o último elemento do par de correlatos intencionais, ou seja, a ideia representada. Se essa relação intencional tivesse sido concebida por Hobbes, ele teria percebido que o termo ideae tinha sido apresentado justamente por ser capaz de definir as relações que estruturavam as atividades psíquicas como “[...] eu represento um homem ou uma quimera, ou o céu, ou um anjo, ou mesmo Deus”275.

Foi exatamente nesse ponto que Brentano encontrou a precisão da definição cartesiana, pois o segundo ponto fundamental estava no novo estatuto daquilo que constituía o correlato do ato de representar: a objetividade. Assim, para Brentano, esse estatuto de objetividade explicitava-se na afirmação de Descartes, quando ele sustentou que “[...] quer eu imagine uma cabra ou uma quimera, não é menos verdadeiro que eu imagino tanto uma como outra” 276. Vejamos os detalhes desse segundo ponto.

Ainda, como esclarece Lebrun, se essa definição cartesiana reconheceu apenas o caráter objetivo do correlato do ato de representar, então, no que concernia às ideias consideradas em si mesmas, “[...] elas não

273 Idem, Ibidem. 274 Idem, Ibidem. 275

Idem, René. Meditações, p. 109.

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poderiam, propriamente falando, ser falsas”277, uma vez que a atribuição de

verdade ou falsidade cabe ao juízo. Para Brentano, esse foi outro ponto fundamental da análise cartesiana, pois a restrição da verdade e falsidade à esfera de atividade psíquicas do juízo era outro modo de estabelecer a não existência de relação entre os elementos que compõem a ideae e algo exterior à consciência. Desse modo, tal como sustentou Descartes, “[...] se eu considerasse as idéias apenas como certos modos ou formas de meu pensamento, sem querer relacioná-las a algo de exterior, mal poderiam elas dar-me ocasião de falhar”278. Assim, portanto, restrita à atividade do cogito, a ideae possuía, como afirma Lebrun, uma “realidade objetiva” ou valor objetivo. Foi justamente essa objetividade que Brentano concebeu como existência não real do objeto imanente, abandonando definitivamente a terminologia aristotélico-tomista.

O exposto é suficiente para apresentar a descrição da primeira classe de atividade psíquica. Passemos às demais.

3.6 A descrição cartesiana das atividades psíquicas baseadas em

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