Queremos aqui equacionar profissionalismo com desenvolvimento profissional, ao mesmo tempo em que entendemos que são diferentes de desenvolvimento da competência profissional individual. O desenvolvimento da competência profissional, embora leve em consideração o contexto de atuação, pode excluir certos aspectos que o profissionalismo abarca. O profissionalismo é um campo mais amplo que se pronuncia na confluência do desenvolvimento profissional e no do grupo profissional a que pertence o indivíduo.
Por esta razão, fatores contextuais como a remuneração, mercado de trabalho, condições oferecidas pelas instituições ao exercício profissional e o reconhecimento social da categoria, estarão sempre presentes. Embora tanto a competência profissional quanto o profissionalismo tenham sua dimensão política ou social, a primeira, parte de uma perspectiva individual e a segunda, de uma coletiva.
Em resumo, profissionalismo poderia ser definido como uma postura de envolvimento com o coletivo da instituição ou da própria “carreira profissional”; um processo mais amplo que a competência profissional. Envolve o individual, o coletivo local, o grupo profissional, assim como todos os processos que promovem um maior status social, econômico, político, ético, profissional etc, da carreira profissional docente. O profissionalismo é, ainda, a capacidade da autonomia profissional compartilhada e da gestão educativa dos professores em contexto de mudança, baseado na reflexão, na pesquisa, na crítica. Ramalho et alii (2004).
A competência profissional, que têm raízes em recursos do professor e do meio em que atua, transforma-se em atividades e condutas profissionais adaptadas a contextos singulares. É a atuação do “professor profissional” que promove o “encontro” dos seus recursos com os do meio. Por essa razão é que dizemos que a competência é combinatória, pois resulta da combinação de recursos (mas não se limita a eles). É na maior ou menor habilidade de combinar recursos que residem as características distintivas de cada profissional, pois o processo combinatório não é visível ou mesmo verbalizável. A competência profissional real não pode ser objeto a não ser de antecipação probabilística. Revela-se em contextos e situações específicos.
Competência profissional, portanto, é uma combinação de recursos, enquanto profissionalismo é uma combinação de competências. O saber combinatório está no centro da competência profissional. Se a competência profissional possui uma arquitetura combinatória, ela não pode ser entendida como mero acúmulo de recursos. Quanto maior for a habilidade do professor de LE de combinar recursos, mais saliente será sua competência profissional.
Um profissional não pode mais definir sua identidade referindo-se unicamente ao “saber-fazer” de um ofício. Ele deve mobilizar o conjunto dos recursos de sua personalidade para encontrar soluções para situações profissionais específicas, levando em conta os recursos do meio.
Cada professor profissional é único. Profissionalismo e competência estão ligados às pessoas. O profissional dá sentido à sua ação confrontando seus recursos e valores com a realidade e as situações nas quais intervém. Para que o professor de LE seja considerado profissional, não basta que ele tenha o ofício de ensinar línguas. É preciso que ele tenha um certo nível de excelência no exercício desse ofício. É necessário que já tenha ultrapassado o grau de noviço ou de iniciante, atingindo alguma autonomia na condução de suas atividades profissionais e na gestão de situações complexas. É um indivíduo que atingiu um certo domínio de seu ofício.
O profissional possui a dupla característica de dominar bem suas competências e de ter suficiente distanciamento em relação a elas para poder adaptar-se a mudanças de empregos ou de setor de atividade. Como o trabalho se reveste de um caráter cada vez mais coletivo, o seu desempenho dependerá largamente de sua capacidade de se comunicar e de cooperar. Em outras palavras, sua empregabilidade depende de seu profissionalismo.
Que características teria um professor de LE com senso profissional?
a) Ele é um profissional que pertence a um grupo de profissionais específico e, por essa razão, possui certas habilidades, saberes, conhecimentos e convenções. Os membros de grupos profissionais comunicam-se entre si em linguagem, muitas vezes, inacessível a um leigo. Ex.: L1, L2, LE, L-alvo, etc.
Tomemos como exemplo a comunidade de professores de inglês. Eles possuem várias associações locais nacionais ou internacionais que os congregam: TESOL, IATEFL,
APLIESP, etc. O papel das associações de professores está descrito no item 2.6.1 deste trabalho.
b) Possui traços profissionais específicos: formação compatível e compromisso com a profissão:
1) A formação pode incluir as situações a seguir (não necessariamente todas): cursos pré-serviço e em serviço; reflexão sobre a própria prática; leituras; observação; discussão com colegas, produção escrita, pesquisa, entre outras. É um esforço para a vida inteira.
2) Compromisso e responsabilidade com sua profissão. Ele procura fazer sempre o melhor possível.
Um ofício pode ser desempenhado com postura de técnico ou de profissional, dependendo da maneira como seu executor o encara e o executa. Um carpinteiro, um enfermeiro ou um falante nativo ensinando uma língua estrangeira são técnicos porque, em princípio, não refletem sobre essa prática; fazem dela rotina.
O professor, por outro lado, deve atender a certos requisitos para ser considerado profissional. Os principais requisitos são os seguintes: ser capaz de explicar por que trabalha da maneira como trabalha e por que obtém os resultados que obtém (Almeida Filho, 1993); ser capaz de gerenciar sua sala de aula e as relações interpessoais dentro dela; ser mestre em tomar decisões em tempo real para solucionar problemas; e ter autonomia profissional. Em termos estritamente profissionais, todavia, os requisitos para o professor de LE seriam ter a titulação compatível (graduação em letras) e algumas das expectativas mais previsíveis seriam pleno conhecimento da L-alvo e domínio de classe.