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Comparison with Results by Laurent O. Jay

A reflexão tem sido objeto de muitos trabalhos. Autores como Schön (1997, 2000) e Zeichner (1997, 1998) e Dewey (1933) dedicaram muito esforço e tempo a este tema e se constituíram em grandes referências sobre o assunto. Observando-se a bibliografia conclui-se que a preocupação não é recente. Reflexão é entendida como um afastamento crítico de si mesmo,

de seu fazer profissional para compreendê-lo e, se for o caso, mudar-lhe a direção, a intensidade etc. Assim, a reflexão é essência da competência profissional reflexivo.

Não pretendemos aqui falar do processo reflexivo em si, mas refletir diretamente sobre temas centrais à educação deste século. Não se pode dizer que a reflexão faça parte de uma competência específica, pois ela subjaz e sobrejaz à própria razão de ser da profissão. Ser reflexivo é ser profissional e é por esta razão que Celani (2001, p.28) faz referência ao robô orgânico em oposição ao professor profissional.

Griffiths & Tann (1992, apud Sant’Ana, p.56), reconhecem cinco níveis e objetivos na reflexão: a reação automática e a reação monitor-reparo, na fase da reflexão na ação; a ação- observação e avaliação – planejamento – ação (revisão), a ação-observação sistemática- análise rigorosa-avaliação-planejamento-ação (pesquisa) e, finalmente, ação-observação sistemática-análise rigorosa-avaliação-teorização-planejamento-ação (re)teorização e reformulação. A bibliografia citada poderá dar subsídio para o desencadeamento do processo reflexivo. Como já foi dito acima, porém, nosso objetivo aqui, não é abordar o processo reflexivo, mas as idéias orientadoras de uma nova postura reflexiva.

À medida que o novo milênio se aproximava, alguns teóricos, educadores e pensadores começaram a refletir sobre a importante transição e um dos objetos dessa reflexão foi a educação no novo milênio. Dentre tantos nomes importantes, destacaremos dois, da mais alta relevância: Freire (1996) e Edgard Morin(2001). Cada um deles prestou uma contribuição única, pela sua oportunidade e precisão, a uma reflexão profunda sobre as bases da educação deste milênio. Embora imersos em culturas diferentes, a brasileira e a francesa, ambos falaram de uma nova ética: a antropo-ética. A ética do ser humano. Ambos falam de saberes necessários a uma educação do eu em relação ao Outro. Educar-se para eles é educar-se com o outro. Freire trata da prática educativa dirigida à autonomia do ser humano e Morin, trata da educação do futuro.

Freire (1996) indica as grandes balizas filosóficas para o “saber”, o “saber-fazer” e o “saber- ser” do tempo que se inicia. “Pedagogia da Autonomia” é um monumento à luta do autor em defesa de uma “ética humana universal”.

Três idéias centrais estruturam esta mensagem. Faremos um "escaneamento" nas recomendações principais de Freire, por entendê-las vitais à complementação da reflexão sobre o que seja competência profissional do professor.

Não há docência sem discência: na abertura deste item Freire começa alertando que a ausência de reflexão pode fazer com que a teoria vá se transformando em discurso vazio e a prática em ativismo. (p.22). Em seguida recomenda que o professor, desde o início de sua experiência profissional, ponha-se também como sujeito da produção do saber e se convença de que ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar possibilidades para sua produção ou construção. Estas palavras lembram uma antiga preocupação do professor, diretamente ligada ao seu prestígio profissional, o fato de ser considerado consumidor de teorias de terceiros.

Em seguida, lembra que o ensinar não existe sem o aprender e que esta dualidade se dá como um todo diretivo, político, ideológico, gnosiológico, pedagógico, estético e ético. (p. 24). Aprofundando a relação aprender-ensinar, afirma que quanto mais criticamente se exerce a capacidade de aprender, tanto mais se constrói e desenvolve a capacidade epistemológica, fundamental ao conhecimento do objeto (p. 25). Os subitens aqui são, praticamente, auto- explicativos e se constituem em recomendações ao professor no sentido de que tenha uma prática profissional dirigida à autonomia do aluno. Os tópicos são: a) Ensinar exige rigorosidade metódica; b) Ensinar exige pesquisa; c) Ensinar exige respeito aos saberes do educando; d)Ensinar exige estética e ética; e) Ensinar exige corporeificação das palavras com exemplos; f) Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação; h) Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática e i) Ensinar exige reconhecimento e assunção da identidade cultural.

Ensinar não é transferir conhecimento: Freire inicia afirmando que a consciência de que ensinar não é transferir conhecimento, além de ser apreendida pelo professor e por seus alunos nos níveis ontológico, político, ético, epistemológico e pedagógico, precisa também ser constantemente testemunhado, vivido.

A partir daí, passa a fazer suas recomendações, cujo enunciado dispensa maiores explicações: a)Ensinar exige consciência do inacabamento. Lembra que o inacabamento é uma característica dos seres vivos, mas só é consciente nos seres humanos. Saber de seu próprio estado inacabado, portanto, é fundamental para reconhecer a mesma condição em seu aluno.

b) Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado. O autor lembra aqui que não estamos no mundo, somos parte dele. E acrescenta que somos programados para aprender. c) Ensinar exige respeito à autonomia do educando. Este respeito é um imperativo ético e não um favor que prestamos ao Outro.d) Ensinar exige bom senso. e) Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores. f) Ensinar exige apreensão da realidade. O professor precisa conhecer as diferentes dimensões que caracterizam a essência de sua prática. g) Ensinar exige alegria e esperança. h) Ensinar exige convicção de que a mudança é possível. e i) Ensinar exige curiosidade.

Ensinar é uma especificidade humana: o autor começa afirmando que uma das marcas registradas do professor é a sua segurança. Segurança deve ser expressa na firmeza com que atua, com que decide, com que respeita as liberdades, com que discute suas próprias posições, com que aceita rever-se.

E prossegue afirmando que a curiosidade epistemológica é que pode levar a essa segurança. Assim, a) Ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade. b) Ensinar exige comprometimento. As observações feitas neste ponto são fundamentais para o entendimento do significado dos termos “professor” e “profissional”. Freire (1996) afirma acreditar que o professor precisa saber que não é possível ser professor sem absoluto comprometimento com seu ofício. Deve saber que não pode escapar à observação do aluno e a forma como ele o percebe tem importância capital. Daí a necessidade de a palavra estar em conformidade com as ações. d) Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo. e) Ensinar exige tomada consciente de decisões. f) Ensinar exige saber escutar. e g) Ensinar exige disponibilidade para o diálogo.

Freire (1996) refere-se a professor e alunos como dois seres em interação permanente, em trocas deliberadas e conscientes, em um estado de alegria e de esperança. É uma educação onde a afetividade e a solidariedade estão de mãos dadas a serviço da autonomia do ensinar e do aprender.

O segundo trabalho inspirador de uma nova concepção de competência profissional no novo milênio é, como já foi dito acima, do filósofo francês Edgar Morin e consiste na sistematização de um conjunto de reflexões que servem como ponto de partida para se repensar a educação do século XXI.

Sobre os sete saberes necessários à educação do futuro, enunciados por Morin(2001), apresentaremos apenas os títulos. Apesar disso, recomendamos sua leitura. O texto de Morin, por certo, não se destina apenas aos professores, mas a todas as pessoas interessadas, de uma forma ou de outra, na educação do ser humano.

Os sete grandes temas tratados, serão apenas citados abaixo:

- as cegueiras do conhecimento; os princípios do conhecimento pertinente; ensinar a condição humana; ensinar a identidade terrena; enfrentar as incertezas; ensinar a compreensão; ética do gênero humano.

Morin apresenta uma nova visão sobre a educação. Os sete itens abordados abrangem um espectro amplo de possibilidades e idéias, abordando o processo de ensino e aprendizagem como algo amplo, global, planetário. A grande mensagem centra-se no fato de que o “educar- se” precede o “educar o Outro”, que a ética parte de dentro para fora e não o contrário. Além disso, é preciso que o educador conheça as razões profundas do porquê está educando, conheça a trajetória histórica da espécie humana e as deficiências da visão humana sobre o que seja educar. Morin lembra que o homem é um ser planetário e que sua educação deve levar em conta este fato. Dessa consciência decorre, naturalmente sua consciência ecológica. Sua atuação como ser precisa manter coerência entre a necessidade de preservar-se e preservar o Planeta Terra.

A contribuição de Paulo Freire baseia-se na dimensão humana do ato de ensinar-aprender. Ele confere à profissão de ensinar um traço humanizador. Ele defende que se deve aprender- ensinar, antes de tudo, a ser gente. Por esta razão optei por colocar lado-a-lado os dois autores e, pela mesma razão, coloquei-os nesta ordem. Freire preocupa-se com o aspecto humano do ato de ensinar e Morin dedica-se mais à sua dimensão planetária. Neste sentido são complementares, mas, acima de tudo, são vanguardistas e lutam pelo despertar de uma nova consciência profissional e pessoal.

CAPÍTULO III – CARACTERIZANDO A COMPETÊNCIA PROFISSIONAL DOS