~Hlt'llllt-riPJ
Tabie 9.1.1 Nominal catch of sprat (t) in Divisions YIId,e, 1984-1997
Lane e Camargo (2006) apontam que as emoções se constituíram como a porta de entrada de Vigotski na Psicologia, a partir de seus estudos publicado na obra Psicologia da Arte. Somente a partir do início da década de 1930 que Vigotski volta seus estudos para a compreensão das emoções de modo mais sistemático, escrevendo um manuscrito que passa por diversas modificações52 (VAN DER VEER; VALSINER, 2014). Embora o autor não tenha
chegado a concluir sua teoria das emoções (VIGOTSKI, 2004), há em toda a sua obra postulados acerca da importância das emoções na constituição do indivíduo, seja nas análises sobre a arte ou sobre os processos psicológicos da motivação, do pensamento, da linguagem e da criatividade (CAMARGO; LANE, 2006).
Quanto à sua teoria das emoções, o intuito do manuscrito era de apontar que, até então, as teorias existentes sobre as emoções eram mecanicistas e dualistas (VYGOTSKY, 2004; VAN DEER VER; VALSINER, 2014). Para desenvolver seu pensamento, Vigotski analisa as teorias das emoções de Willian James e Carl Lange. Para esses autores, as emoções surgiam conforme apresentávamos reações fisiológicas periféricas em decorrência da
51 Em Espinosa, “a crença no livre-arbítrio é uma ilusão espontânea do conhecimento imaginativo característico da consciência imediata” (GLEIZER,2005, p.9). O autor aponta que as pessoas acreditam que são livres porque são conscientes de suas volições e apetites, no entanto ignoram as verdadeiras causas desses quereres. Desse modo, a ignorância das verdadeiras causas dos desejos engendra o livre-arbítrio.
52 Van Der Veen e Valsiner (20114) aponta que, inicialmente, o manuscrito recebia o título de Espinosa e a sua teoria dos afetos. No entanto, após cinquenta anos da morte de Vigotski, foi publicado com o título A teoria das emoções: uma investigação psicológica.
percepção de estímulos; desse modo, ao entrarmos em contato com determinando estímulo, sentimos medo porque trememos, ficamos tristes porque choramos, etc. (VAN DER VEER; VALSINER, 2014). Para Vygotsky (2004), essas teorias assemelhavam-se aos escritos sobre emoções de René Descartes em As paixões da alma, cujo pressuposto básico consistia na compreensão de que os processos corporais davam origem às emoções.
Essas explicações puramente biológicas não expressavam as especificidades das emoções, principalmente porque o estudo destas estava deslocado dos outros processos psicológicos (LANE; CAMARGO, 2006), ou seja, “os adeptos da teoria organicista esqueceram nada menos que o espirito humano”53 (VYGOTSKY, 2004, p.214), por conta do método
cartesiano. Neste sentido, não era possível explicar os sentimentos superiores, tais como a religiosidade, contemplação a arte, etc. As teorias até explicavam as emoções inferiores, tais como vivem os animais e os antepassados dos homens, mas não explicavam os processos superiores, mediados pelas relações socioculturais.
Contrapondo-se ao modelo cartesiano, a fim de resolver o problema do dualismo, Vygotsky (1996) recorreu aos pressupostos filosóficos de Espinosa, que, embora fosse racionalista como Descartes, representava uma concepção monista de compreensão do homem (VYGOTSKY, 2004; VAN DER VEER; VALSINER, 2014). Em sua compreensão monista, Espinosa compreendia o corpo e a alma como pertencentes a uma mesma substância, de modo que o que se passa na alma, se passa no corpo, sendo apontado por Vygotsky (2004, p.232), como alguém que “[...] lutou por uma explicação causal, determinista, natural e materialista das paixões humanas”. Desse modo, Espinosa conseguia explicar os afetos relacionando-os aos aspectos superiores humanos sem que deixar de lado a explicação causal (VYGOTSKY, 2004).
Para Vigotski (2001a; 2004, 2006), é impossível separar as emoções, sejam elas inferiores ou superiores, dos outros processos psicológicos, tais como a linguagem e o pensamento. Neste sentido, Lane e Camargo (2006) apontam que o estudo de Vigotski sobre as emoções se direcionava para uma compreensão de que não se poderia tomar as emoções isoladamente, mas somente a partir da relação com as demais funções psicológicas, “[...] formando um sistema funcional como um conjunto dinâmico” (p.132).
Assim, não se podia pensar, por exemplo, em uma separação entre o pensamento e a emoção, pois estas estão na gênese de todo pensamento (VYGOTSKY, 2001a). Sobre essa relação, o autor afirma que “[...] o pensamento não nasce de si mesmo, nem de outro pensamento, mas da esfera motivadora de nossa consciência, que abarca nossas inclinações e
nossas necessidades, nossos interesses e impulsos, nossos afetos e emoções” (VYGOTSKY, 2001a, p. 343). Vemos que a motivação e a emoção estão na gênese do pensamento e da linguagem. Essa base configura-se como um subtexto, ou pensamento oculto por trás das palavras, que se revela na expressão do pensamento e da linguagem dos indivíduos. Assim, compreendemos que
O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses e emoções. Por detrás de todos os pensamentos há uma tendência volitivo-afetiva, que detém a resposta ao derradeiro por que da análise do pensamento. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só é possível quando entendemos sua base afetivo-volitiva (VIGOTSKI, 2001a, p.479, grifo nosso).
Outra contribuição fundamental de Vigotski sobre as emoções diz respeito à sua relação com a imaginação e a liberdade humana (VIGOTSKI, 2006; SAWAIA, 2009). Sawaia (2009) aponta que a liberdade do homem enquanto espécie, para Vigotski, não se dá a partir da carga hereditária, mas pela liberdade dessas leis naturais. A liberdade humana surge “[...] na consciência do homem, estão estreitamente ligadas à imaginação” (VIGOTSKI, 2006, p. 438). Para Vigotski (2006), toda tarefa criadora do homem está relacionada a uma atividade que gera algo novo com base naquilo que já existe no mundo concreto, sob determinadas circunstâncias e construções cerebrais e pela manifestação do sentimento que vivencia. É a partir dessa atividade criadora que o homem se transforma em um ser direcionado para o futuro, capaz de criar e modificar seu presente (VYGOSTKI, 2006). Cabe salientar que toda construção criativa do homem se pauta numa relação entre fantasia e realidade, em que todos os componentes da fantasia são extraídos da experiência anterior que o homem teve. Como afirma o autor (2006, p.17), “[...] a fantasia se constrói sempre com materiais tomados do mundo real”54. Ademais, “Por mais individual que pareça, toda criação inclui sempre em si
um coeficiente social” (VYGOTSKY, 2006, p.38).
Vemos, então, que uma das principais leis a respeito do processo de imaginação consiste em compreender a atividade criadora com base em uma “relação direta com a riqueza e a diversidade da experiência acumulada pelo homem, porque esta experiência oferece o material com o qual os edifícios da fantasia são erguidos”55 (VIGOTSKI, 2006, p.17). Desse
modo, quanto mais o home tem experiência e se apropria das produções históricas e culturais do mundo, maior a quantidade de material que terá disponível para a sua imaginação. A
54 “[...] la fantasía se construye siempre con materiales tomados del mundo real” (VIGOTSKI, 2006, p.17). 55 [...] relación directa con la riqueza y la diversidad de la experiencia acumulada por el hombre, porque esta experiencia ofrece el material con el que erige sus edificios la fantasia”(VIGOTSKI, 2006, p.17).
imaginação se constitui, portanto, como um elemento indispensável para todas as funções do cérebro humano (VIGOTSKI, 2006). A partir da apropriação, direta ou indireta de outras experiências, o homem é capaz de ampliar as suas próprias experiências, não se restringindo apenas ao que viveu pessoalmente.
Nesse ponto, tonar-se fundamental compreender a criatividade como processo de liberdade (VIGOTSKI, 2006; SAWAIA, 2009). Como aponta Vigotski (2006), as classes sociais mais privilegiadas, por exemplo, tendem a ter mais artistas, mais cientistas, porque elas têm mais acesso aos bens materiais e condições necessárias para construir as bases do processo criador. Desse modo, ao proporcionarmos, mediarmos, que qualquer classe se aproprie da carga histórica e cultural das sociedades, estamos possibilitando que o indivíduo supere os determinismos das funções elementares e possam criar, com seus conhecimentos e questionamentos, uma nova forma de organizar do mundo. Ao ampliar suas percepções, o homem se libertará não só do determinismo biológico, mas também dos determinismos sociais impostos por aqueles que mais tiveram condições materiais (SAWAIA, 2009).
Quanto ao papel das emoções nessa questão, Vigotski (2006) que esta tem uma relação recíproca com a imaginação. Segundo o autor,
Todas as formas de representação criativa contêm elementos afetivos. Isso significa que tudo o que constrói a fantasia influencia reciprocamente nossos sentimentos e, embora essa estrutura não concorde com a realidade, todos os sentimentos que ela provoca são reais, autenticamente vividos pelo homem que os experimenta56 (VIGOTSKI, 2006, p.23, tradução nossa).
Dessem modo, compreende-se que tantos os fatores intelectuais como emocionais movem o processo de criação humana. Essa, por sua vez, relaciona-se com os processos de emancipação manifestados em atos de transformação das estruturas sociais historicamente determinadas por aquelas classes que, a partir da apropriação dos meios de produção e do acesso privilegiado às produções culturais, acabam por subjugar as demais classes. Com efeito, o estudo das emoções relacionadas aos outros processos psicológicos traz importantes contribuições para a psicologia, principalmente a social, ao demarcar que
Toda emoção é um chamamento à ação ou uma renúncia a ela. Nenhum sentimento pode permanecer indiferente e infrutífero no comportamento. Ao sermos afetados, se alteram as conexões iniciais entre mente e corpo, pois os componentes psíquicos e
56 Todas las formas de la representación creadora encierran en sí elementos afectivos. Esto significa que todo lo que construya la fantasía influye recíprocamente en nuestros sentimientos, y aunque esa estructura no concuerde con la realidad, todos los sentimientos que provoque son reales, auténticamente vividos por el hombre que los experimenta (VIGOTSKI, 2006, p.23).
orgânicos da reação emocional se estendem a todas as funções psicológicas superiores iniciais em que se produziram, surgindo uma nova ordem e novas conexões. (VIGOTSKI, 2001, p. 139).
Com essa perspectiva, Sawaia (2000) compreende as preocupações de Vigotski em torno das emoções como uma forma de o autor provocar transformações ontológicas e epistemológicas na psicologia, superando as cisões provocadas pelas teorias até então dominantes. Para a autora, as obras de Vigotski colocam em cheque a problemática da dicotomia entre emoção e razão ao posicionar os sentimentos e as emoções, construções radicadas pelas vivências cotidianas (SAWAIA, 2011), como base de muitos dos processos psicológicos superiores, compreendendo-os em um conjunto integrado e dialético na configuração da consciência.