Martin-Baró (1996) defende que o psicólogo latino-americano assuma em sua
práxis a perspectiva das maiorias populares oprimidas, optando por acompanhá-las em seu
caminho em direção à libertação. Nesta perspectiva, o profissional nega a possibilidade de construção de uma atuação neutra, assumindo um compromisso ético no que tange à construção de um conhecimento socialmente relevante e uma atuação orientada para a transformação social.
Tal perspectiva contraria o know-how36 da Psicologia Social tradicional importada de países europeus e estadunidenses. Historicamente, a ciência psicológica importada desses países não se adequou ao contexto latino-americano, incapaz de resolver os problemas sociais destes (MARTIN-BARÓ, 2011). A mera reprodução nos países latino-americanos de conceitos e técnicas importadas proporcionava análises dos problemas sociais de modo descontextualizado, simplificado e superficial. Além disso, observava-se um caráter individualizante do social, levando a reprodução de práticas ideologizantes em um contexto já marcado pelas desigualdades sociais (LANE, 1989). A este respeito, Lane e Sawaia (2006, p.8) afirmam que
O saber humano não é universal nem eterno, e o homem é historicamente situado, bem como os problemas que o afligem. Portanto, a realidade psicossocial não pode ser compreendida por teorias importadas, seja dos Estados Unidos seja da Europa. É preciso conhecer quem é o homem que se constitui nas condições sócio-históricas da América Latina.
A contribuição da Psicologia enquanto ciência e práxis à história dos povos latino- americanos, até 1970-1980, era extremamente pobre (MARTÍN-BARÓ, 1996). Embora houvesse psicólogos preocupados com as questões sociais de subdesenvolvimento, de dependência e opressão, as materializações de ações mais concretas ficavam, frequentemente, a cargo do posicionamento político pessoal do profissional, “à margem da Psicologia, cujos esquemas eram inoperantes para responder às necessidades populares” (MARTÍN-BARÓ, 2011, p.181).
36 Martín Baró (1998; 2011) faz crítica a nomenclatura “know-how” propondo o “que-hacer” para o contexto latino-americano. Quando o autor utiliza “know-how”, refere-se à busca da Psicologia no contexto latino- americano pelo status de ciência e a consequente relevância social que tem a Psicologia no norte-americano, principalmente. Ao propor “que-hacer”, opta-se por um posicionamento ético e político comprometido com as demandas do nosso contexto, ao quais a Psicologia deveria se adequar.
Contrapondo-se à Psicologia Social acrítica e descontextualizada, psicólogos e pesquisadores da América Latina (re)construíram uma forma de Psicologia Social pautada na pluralidade teórico-metodológica de diferentes áreas do conhecimento, na complexificação das análises do contexto social e histórico e na prática interdisciplinar, maturando uma atuação baseada na preocupação ética em relação às questões sociais e políticas (LANE, 1989). Nesta perspectiva, assume-se uma visão de mundo e de homem como produto e produtor da história, com a impossibilidade da neutralidade na construção do saber e da atuação (LANE, 1989; 2007).
Como resposta às lacunas teórico-metodológicas, tornou-se necessária a revisão dos pressupostos básicos da concepção psicológica latino-americana (MARTÍN-BARÓ, 2011; LANE, 1989), que deveria ser feita por meio de uma práxis comprometida com os setores populares, distanciando-se de uma revisão puramente teórica. Tornou-se também necessária a redefinição da bagagem teórica, valendo-se das vidas dos próprios povos aos quais ela deveria atender com seus sofrimentos, aspirações e lutas (MARTÍN-BARÓ, 2011), configurando um novo “que-hacer”, nosso “que-fazer”.
Para isso, a própria psicologia precisava fazer seu caminho de libertação, rompendo com a sua própria escravidão (MARTÍN-BARÓ, 2011). As manifestações e (re)formulações feitas por psicólogos e pesquisadores latino-americanos, que recebiam influências dos pensamentos de esquerda marxista (MARTÍN-BARÓ, 1996, 2011; GÓIS, 2005; LANE, 1989), ganharam força, principalmente, no final da década de 1970 e meados de 1980, culminando em propostas concretas de uma psicologia social de base materialista-histórica voltada para trabalhos comunitários (LANE, 1989). A partir das concepções do materialismo histórico e da lógica dialética, foram encontrados os pressupostos necessários para a reconstrução de um conhecimento voltado para a realidade social e o cotidiano dos indivíduos (LANE, 1989). Um conhecimento que possibilitou a intervenção efetiva na rede de relações sociais em torno dos indivíduos.
É com base nessas transformações ético-políticas da psicologia social que pretendi desenvolver essa pesquisa. Além de recorrer às tradicionais categorias de análise (linguagem, afetividade, consciência, etc.) e aos métodos de atuação, assumo o mesmo compromisso ético desta psicologia em desenvolver uma práxis implicada com a transformação da problemática estudada. Como apontei anteriormente, foi o caráter contestador da psicologia social e da psicologia comunitária frente à realidade imposta que me fez compreender as redes sociopsicológicas e ideológicas que impediam que eu vivesse de modo congruente o encontro com a minha própria comunidade. Embora tenha desenvolvido o estudo como aprendiz de
pesquisador, acredito que a construção de um conhecimento problematizador, reflexivo, dialogado e compartilhado, entre comunidade e universidade, é gerador de diversas transformações, individuais e coletivas, que atuam na libertação dos atores envolvidos, tornando-os ativos em suas lutas.
Com as transformações ocorridas na Psicologia Social, o trabalho do psicólogo passou a ser desenvolvido, principalmente, em comunidades pobres (LANE, 2007), possibilitando o desenvolvimento da subdisciplina Psicologia (Social) Comunitária37 (GÓIS,
2005; MONTERO, 2004; CAMPOS, 2007). Esta se fundamenta em uma práxis libertadora com o objetivo de propor autonomia aos moradores de comunidades, proporcionando a estes uma compreensão de que eles são responsáveis pela realidade histórica-social na qual vivem, e que são capazes de transformá-la (GÓIS, 2005; XIMENES; GÓIS, 2010). Compreende-se, então, a Psicologia Comunitária como uma área que estuda os significados e sentidos, bem como os sentimentos individuais e coletivos dos moradores da comunidade e como essa dinâmica reflete no psiquismo dos que ali moram (GÓIS, 2005).
Nesta perspectiva, busca-se o não ajustamento social do sujeito comunitário a uma ideologia que oprime e explora; nem o adequar às políticas públicas assistencialistas que reforçam o caráter de resignação e submissão38 (GÓIS, 2008). O enfoque também não é na
mudança instrumental do sujeito, mas em uma transformação pautada na reflexão, no diálogo e na solidariedade, enfatizando o caráter político e o compromisso social com os pobres; e a busca pela libertação por meio de uma práxis libertadora que visa à conquista, à superação e à conscientização (XIMENES; GÓIS, 2010). A transformação desse indivíduo mostra-se como fundamental para o fortalecimento da comunidade e para a luta da classe oprimida em direção à igualdade social.
A conceituação do que seria “comunidade” foi de extrema importância para as novas concepções teóricas da Psicologia Comunitária, embora sua definição ainda envolvesse diversos fatores que mudam de autor para autor (FREITAS, 2007). Para Góis (2008), por exemplo, a comunidade reflete a sociedade e a sua dinamicidade, configurando-se como “[...]
37Montero (2004, p.35) aponta que a denominação de Psicologia Social Comunitária é fortemente utilizada nos países latino-americanos em decorrência de que, aqui, a Psicologia Comunitária surge como uma subdisciplina da Psicologia Social crítica, “[...] de donde se tomam muchos de sus métodos, estrategias y técnicas, así como algunos comceptos y explicaciones teóricas iniciales”. Neste trabalho, embora estejamos falando desta subdisciplina, será utilizada uma conceituação mais genérica, “Psicologia Comunitária”.
38 Conforme Góis (2003), o caráter do oprimido é um modo de sobrevivência que a classe oprimida encontrou, inconscientemente, para reduzir as angústias e o sofrimento decorrentes das condições opressoras na vida do indivíduo, tais como a miséria e a violência. No entanto, esse caráter reforça ainda mais a opressão, uma vez que surge da opressão e se torna a própria opressão. O autor ressalta que a estrutura do caráter do oprimido só pode ser eliminada pela atuação conjunta dos meios psicológicos, sociais e políticos.
um espaço de mediação entre as pessoas (e sua vida familiar), o município e a sociedade, além de ser um lugar de reconhecimento e de confirmação da identidade pessoal dos moradores” (GÓIS, 2005, p.62). A comunidade pode ser compreendida como um lugar de permanência estável e duradoura no qual os moradores estabelecem uma relação direta entre si, também se configurando como um espaço de conflitos e contradições (GÓIS, 2005, 2008).
Desse modo, a conceituação de comunidade não é apenas simbólica e política, mas histórica, cultural, psicológica e social, pois é construída ao longo do tempo e de forma contextualizada. É uma rede de interação sociopsicológica e de identidade social, caracterizando-se como um modo de vida social íntimo (GÓIS, 2005). Com efeito, compreender a Vila Vicentina enquanto uma comunidade39 possibilita apreender nuances sobre
o modo como os moradores vivenciam a problemática da remoção, além de implicar a compreensão de como a Vila reflete a organização do espaço socioespacial de Fortaleza.
Por fim, tive como suporte para o desenvolvido da pesquisa a Psicologia Ambiental. Esta é considerada, ainda, uma disciplina recente, em processo de desenvolvimento de seus aspectos teóricos e metodológicos, refletindo em sua própria definição, que é imprecisa e variante conforme os diversos enfoques teóricos (ARAGONÉS; AMÉRIGO, 2010). No entanto, há a prevalência de compreendê-la como o estudo das relações do ambiente físico com o comportamento humano.
Dentre as definições clássicas, Moser (1998) concebe a Psicologia Ambiental como a disciplina que estuda as inter-relações entre o indivíduo e o ambiente físico e social, enfatizando os processos afetivos e cognitivos que emergem da forma como as pessoas sentem, pensam e vivenciam o ambiente. Já Valera (1996, p.2) concebe a Psicologia Ambiental como uma “(...) disciplina que tem por objeto o estudo e a compreensão dos processos psicossociais derivados das relações, interações e transações entre as pessoas, grupos sociais ou comunidades e seus entornos sociofísicos”. Freire e Vieira (2006) apontam que a definição de Moser é restrita comparada à definição de Valera (1996), pois nesta há a ampliação da noção de interação das pessoas com o ambiente, englobando as características psicossociais dessa relação, o que leva Valera (1996) apontar uma extensa relação entre a Psicologia Ambiental e a Psicologia Social (ARAGONÉS; AMÉRIGO, 2010; FREIRE; VIEIRA; 2006).
No contexto norte-americano, a Psicologia Ambiental se desenvolve com o foco no indivíduo e na otimização da relação deste com o ambiente. Já em contexto europeu, “[...]
39 A seção 6.1 dessa dissertação (Comunidade e (des)apropriação: implicações afetivas e psicossociais) é voltada para o aprofundamento da construção de uma comunidade com base nos dados levantados na Vila Vicentina.
nasceu com forte vocação social, produto da crise social e habitacional do pós-guerra” (WIESENFELD, 2005. p.55). Em relação à América Latina, inicialmente, a Psicologia Ambiental estava fortemente influenciada pelas temáticas e enfoques do contexto norte- americano, caracterizando-se como “[...] à margem de sua pertinência em nossa região” (WIESENFELD, 2005. p.55). No Brasil, Maria do Carmo Guedes40 é apontada como a pioneira
na área, contribuindo no planejamento de cidades nos anos de 1960 com a perspectiva de transformar o Brasil no “país do Futuro” (TASSARA; RABINOVICH, 2003).
Embora essas contribuições sociais sejam relevantes, parecem restritas às modificações físicas do ambiente. Este, por seu turno, não é configurado somente por seus aspectos estruturais, mas a partir de características históricas, sociais e econômicas que vão qualificar a relação dialética do indivíduo com o meio - normalmente negligenciadas pela neutralidade da ciência positivista.
No entanto, salienta-se que, mesmo nas perspectivas tradicionais da Psicologia Ambiental, a Psicologia Social se faz presente, emprestando seus conceitos e metodologias - principalmente aqueles relacionados aos grupos (MOSER, 1998; VALERA, 1996). A aproximação se deve, também, pelo objeto de estudo (pessoa-ambiente) que não pode ser somente da Psicologia Ambiental tampouco apenas da Psicologia Social. Para ambas, “[...] tal objeto é a dimensão da transformação social da objetividade ambiental em subjetividade” (TASSARA; RABINOVICH, 2003, p.340).
Quanto à aproximação da Psicologia Ambiental com a Psicologia Social na América Latina e no Brasil, Moser (1998) afirma que não vê a Psicologia Ambiental desenvolvida neste contexto tal como é definida em países europeus. Principalmente porque a Psicologia Ambiental nos países latino-americanos está fortemente vinculada à Psicologia Comunitária, utilizando-se da pesquisa-ação como parte dos meios de atuação, o que, para ele, distancia-se da Psicologia Ambiental.
Ao refletirmos sobre o caráter ético-político com que temos conduzido nossas pesquisas no Laboratório de Pesquisa em Psicologia Ambiental (Locus), marcadas pela preocupação de que o conhecimento produzido tenha relevância social, firmamos a íntima relação entre Psicologia Ambiental, Psicologia Social e Psicologia Comunitária. Deste modo, dificilmente fazemos uma Psicologia Ambiental tal como é concebida em outros países - ou
40 Maria do Carmo Guedes também é uma importante autora relacionada aos movimentos de crítica à Psicologia Social importada dos países europeus e norte-americanos, sendo colaboradora de Silvia Lane na construção de uma Psicologia Social contextualizada e crítica.
mesmo por algumas vertentes no Brasil e na América Latina41. Não utilizamos uma Psicologia
Ambiental tradicional de base positivista dos Estados Unidos nem puramente da Europa. Por tal posicionamento, construímos pesquisas com a imbricação da Psicologia Social e da Psicologia Ambiental, com um olhar socioambiental42, pelo qual compreendemos não só as
influências físicas do ambiente no comportamento das pessoas, mas como essa relação pessoas- ambientes são configuradas psicológica, social e politicamente dentro de determinado contexto histórico e cultural.