potencialidades, antes desconhecidos tanto pelos aprendentes com também pelo educador. Na rua ainda se desenvolvem as oficinas pedagógicas com diversos temas como sexualidade, afetividade, drogas e violência doméstica, visando possibilitar o processo de axeização46dos educandos e educadores.
É acreditando em si e tendo o educador como co-parceiro na construção do projeto de vida, que o educando se dispõe a ir para uma instituição de atendimento que lhe possibilite superar de forma gradual os seus desafios.
Essa é a terceira etapa do trabalho pedagógico do educador conhecida como
encaminhamento, em que ele mantém contato com a instituição que acolhe o educando e que se responsabiliza pelo seu processo educativo, envolvendo a sua família, a comunidade em geral e, em especial, a escola.
O quarto momento do trabalho do educador é a articulação e a mobilização, em que se pretende não só garantir os direitos da criança e do adolescente, mas também compartilhar a experiência do educador forjada na rua com outros profissionais como médicos, policiais, assistentes sociais, advogados, juízes, conselheiros tutelares e docentes atuantes nas escolas e universidades.
Nessa etapa, pode-se dizer que o educador que atua no espaço rua torna-se um tecedor de parcerias com diversos órgãos governamentais ou não, tendo uma dupla preocupação: promover a criança e o adolescente e a si a próprio enquanto profissional emergente.
2.1.3 Dos desafios enfrentados pela pedagogia social e pelo educador atuante no espaço rua
Com a intenção exposta acima, pode-se dizer, de acordo com Canário (2006) quando reflete sobre as incertezas que perpassam o espaço escolar na sociedade atual, que o educador atuante no espaço rua encontra-se hoje no olho do furação, na medida em que algumas questões desafiadoras tanto o envolvem como também a Pedagogia Social de rua, que alicerça a sua prática educativa. Dentre os desafios, destaca-se que:
46 A palavra axé no candomblé significa força transformadora que incide sobre o mundo e faz com que as coisas
se modifiquem. Axeização é o processo de mudança de concepções de vida, de ser humano e de mundo, que tanto o educador que atua no espaço rua quanto os educandos experimentam nessa aventura educativa (Braga, 1994).
a Pedagogia Social de rua, que ainda se encontra em fase de construção, parece que não definiu de fato o que a diferencia da Pedagogia. Como visto anteriormente, a primeira delas alicerça-se basicamente em quatro princípios básicos como a intencionalidade, a globalidade, a radicalidade e a transdisciplinaridade, categorias que são também pilares da Pedagogia e que, por esse motivo, não define com precisão a diferença entre essas duas áreas de construção de conhecimento.
Essa ausência de demarcação ocasiona sérios problemas para o educador que, além de atuar no espaço rua, participa também de equipes multidisciplinares, geralmente formadas por pedagogos, assistentes sociais, sociólogos, historiadores e psicólogos. O calcanhar de Aquiles do educador emergente encontra-se no fato de ele não saber o que o aproxima e o diferencia do assistente social, e principalmente do pedagogo, o que gera dissabores entre esses profissionais que se confrontam não só pelo fato de defenderem pontos de vista diferentes acerca da natureza do processo educativo47 como também pela falta de delimitação do campo de atuação.
Desse embate, parece que os educadores atuantes no espaço rua geralmente concebem a pedagogia instituída como arcaica e antiquada para abordar os problemas complexos atuais, principalmente, aqueles referentes à realidade das crianças e dos adolescentes em situação de rua. A partir dessa compreensão, entendem e reduzem a Pedagogia à tendência tradicionalista, não a concebendo numa perspectiva global como uma ciência da prática educativa que pode se desenvolver nos espaços escolares e extra-escolares. Porém, mesmo com uma visão reducionista acerca da Pedagogia, pode-se dizer que os educadores sociais, ao criticá-la, explicitam a necessidade de ela atuar de forma dialógica para além dos muros da escola, formando profissionais para trabalharem nos diversos espaços educativos.
Essa demanda do educador atuante na rua já é mencionada nas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Licenciatura em Pedagogia, o que exige a mobilização desses profissionais a fim de dialogar com a academia para que no currículo de Pedagogia seja contemplada a sua formação.
47O conflito entre pedagogos, assistentes sociais e educador social por não ter definido com maior precisão a sua
área de atuação, foi identificado e registrado mediante leituras de trabalhos referentes ao tema em questão e por meio da minha participação em assembléias e reuniões dos educadores sociais, promovidas pela Associação de Educadores Sociais do Estado do Ceará (AESC).
Entende-se que essa tarefa não é nada fácil, porque pode haver fortes embates ideológicos com alguns acadêmicos defensores da sua fatia de conhecimento, porém a demanda desse profissional está posta, desafia e instiga os profissionais de diversas áreas do conhecimento, principalmente a Pedagogia e pedagogos que, se dispostos a dialogarem, podem renovar e ampliar o seu campo de atuação como também do educador emergente.
Um segundo desafio, que ainda diz respeito à área de atuação do educador, manifesta-se quando a Pedagogia Social define o seu espaço de trabalho como sendo a rua. Porém, como explicar essa questão se as Diretrizes Curriculares Nacionais (2005) mencionam que o Curso de Licenciatura em Pedagogia visa também formar o pedagogo para atuar em espaços não – escolares?
Sendo assim, o que diferenciaria o trabalho do pedagogo para o do educador social, já que ambos podem atuar num mesmo espaço? Essas duas questões são instigantes e exigem que outros pesquisadores possam estudar sobre elas a fim de delimitar com maior exatidão a área de atuação do educador social, contribuindo para a consolidação da sua profissão. Dito isso, pode-se então dizer que as indagações acima objetivam explicitar a imprecisa definição do espaço de trabalho do educador e instigar outros investigadores para que, cientes de tal desafio, possam desenvolver pesquisas e aprofundar a discussão sobre o exposto, já que não se tem a intenção de respondê-lo neste trabalho por exigir outra pesquisa.
O terceiro desafio encontra-se na idéia de que a Pedagogia emergente é provisória. Graciani (2001, p. 285) afirma que a “Pedagogia Social de Rua – desenvolvida pelos Educadores de Rua- é uma pedagogia especial e tenderá a desaparecer quando não mais existirem crianças e adolescentes nas ruas do Brasil”. Percebe-se a humildade da autora e o seu sonho de não mais existir crianças e adolescentes em situação de rua, porém num país onde há uma grande concentração de renda e, paradoxalmente, a ampliação da miséria, infelizmente parece que o fim dessa Pedagogia prolongar-se-á. Mesmo assim, indaga-se: ao desaparecer a Pedagogia que alicerça a prática do educador, este também desaparecerá? Se sim, até que ponto esse pensamento contribuiria para a profissionalização e a consolidação de uma categoria de educadores ainda emergentes? Se não, como ficará o trabalho desse profissional com o fim da Pedagogia que norteia a sua ação educativa?
Essas questões tornam-se desafiadoras, porque tendem a fragilizar a discussão em torno da profissionalização do educador social. A provisoriedade da Pedagogia parece que engloba também a prática do educador social. Essa idéia alicerça-se na crença de que os marginalizados urbanos deixarão de ser e de que uma nova sociedade se estabelecerá com base no respeito, na solidariedade, na compaixão e na valorização da dignidade humana.
Parece que é essa utopia que sustenta a Pedagogia Social, que tem como sujeitos da sua prática educativa aqueles que se encontram em situação de rua. Assim, defender a sua própria provisoriedade significa, acima de tudo, acreditar no poder de seus destinatários se modificarem como também o contexto em que se encontram. Nesse sentido, a passagem desses sujeitos de um contexto social excludente para uma sociedade inclusiva sinalizaria o êxito da Pedagogia Social que cumprindo a sua função emancipadora, desapareceria.
Essa compreensão acerca do caráter efêmero da Pedagogia Social possibilitou-lhe não entrar em contradição com os seus próprios princípios, pois caso defendesse a sua continuidade, estaria reconhecendo que a situação de miséria social continuaria e, desse modo, fundada numa utopia que preza pela transformação da sociedade, porém afirmando a permanência da sua área de saber, negaria a si mesma e sucumbiria.
Diante desse dilema, a Pedagogia Social sabiamente optou pela sua provisoriedade para que pudesse existir por mais tempo, sendo coerente com a sua proposta que é proporcionar uma metamorfose consciente dos sujeitos sociais para que atuem criticamente no seu entorno social. Problema resolvido? Ainda não.
É que, ao se defender como saber provisório, a Pedagogia Social de rua parece que tornou efêmero também o educador. E nesse caso, como promover a profissionalização desse sujeito que é transitório numa sociedade do descartável? Ora, se já é difícil promover o reconhecimento dos profissionais que há mais tempo lutam pela sua permanência no mercado de trabalho, imagine aqueles emergentes que são tidos como provisórios. Pergunta-se: o que fazer então? Eis o dilema do educador: acreditar na provisoriedade do seu fazer educativo e descartar a si mesmo ou afirmar-se enquanto categoria profissional, reconhecendo a existência contínua da miséria de outros sujeitos sociais? Entende-se que essa questão coloca de fato o educador social, como diz Canário (2006), no olho do furação.
À guisa de resposta ao desafio, pode-se pensar em ampliar a área de atuação desse profissional, possibilitando-lhe que desenvolva a sua prática educativa tanto nos espaços escolar como no extra-escolar. Sendo assim, os sujeitos da sua ação educativa seriam os
educandos como sujeitos de direitos que lutam para a construção e a efetivação da sua cidadania.
Entende-se que ampliando e diversificando o campo de atuação do educador, ele poderia lutar pela sua formação no Curso de Licenciatura em Pedagogia, além de contribuir por meio de sua experiência forjada na rua com a renovação dessa ciência no âmbito escolar. É de acordo com essa perspectiva que o presente trabalho concebe esse educador como um pedagogo emergente, que desafia a universidade a repensar o currículo de formação de educadores para atuar na contemporaneidade.
A partir desses desafios apresentados, objetiva-se ainda entender como os sujeitos da prática educativa do educador atuante no espaço rua foram concebidos historicamente pela sociedade brasileira. Esse é um assunto para ser discutido no próximo capítulo.