Em conformidade com esse pensamento, Graciani (2001) define quatro pilares que sustentam a Pedagogia Social de rua: a intencionalidade, a globalidade, a radicalidade e a transdisciplinaridade.
Quanto à intencionalidade, a autora a entende como um conjunto de objetivos, idéias, valores e conhecimentos que são definidos conscientemente por meio da parceria estabelecida entre o educador e os educandos em situação de rua. É o conjunto de intenções estabelecido de forma consciente por esses sujeitos sociais que garante a diretividade democrática da
39 Considera-se como sujeito aquele que pensa criticamente o seu contexto histórico e age individual e
prática educativa, que se opõe ao espontaneísmo, ao fazer pedagógico desprovido de uma reflexão rigorosa e sistemática.
É essa intencionalidade que faz com que no processo educativo sejam exigidos do educador os objetivos definidos conscientemente, assim como a metodologia e as técnicas para alcançar um determinado fim, que é a aprendizagem significativa dos educandos.
A globalidade é outro pilar que sustenta a Pedagogia Social e é entendida como uma visão totalizadora, que o educador deve ter ao trabalhar com crianças e adolescentes que se encontram no espaço rua. Exige-se desse profissional um olhar relacional, no sentido de compreender que a situação da criança não é resultado apenas de um único fator, mas de um conjunto deles como o sócio-econômico-político e cultural. Essa perspectiva global permite- lhe compreender que as famílias dos sujeitos em situação de rua não podem ser apenas responsabilizadas pela realidade dos seus filhos, já que existem outros elementos que contribuem para a permanência deles na rua.
A globalidade ainda amplia o olhar do sujeito social acerca do que se estuda, evitando-se assim o reducionismo epistemológico do fenômeno pesquisado, porque enfatiza a idéia de que o autêntico sentido das partes encontra-se na relação delas com o todo e deste com aquelas. Assim sendo, o educador, ao analisar a situação do menino em situação de rua, é desafiado a compreendê-la como apenas a ponta do iceberg do descaso social (parte), que só faz sentido se situada devidamente num contexto mais amplo em nível nacional e até mesmo internacional.
O terceiro pilar é a radicalidade, compreendida como um processo em que o sujeito, ao se dispor a conhecer um objeto cognoscível, procura ir à raiz daquilo que se quer saber, evitando a superficialidade. Nesse caso, o educador que atua no espaço rua é instigado a captar os reais fatores que geram as dificuldades vividas pelos sujeitos da sua prática educativa, inscitando-os a lutarem para superá-las mediante o processo de conscientização.
O quarto princípio da Pedagogia Social de rua é a transdisciplinaridade, entendida como uma racionalidade que é, ao mesmo tempo, relacional na medida em que é resultado da interação de diversas áreas do conhecimento e relacionante no sentido de orquestrar, religar e articular os diversos tipos de saberes a fim de superar a sua fragmentação.
Essa racionalidade opõe-se à razão moderna embasada na fragmentação do saber e que se consolidou a partir do pensamento do francês René Descartes40 (1596-1650), mentalidade esta que se caracterizou pela hipervalorização da razão analítica que enfatizou o valor das partes em detrimento de uma racionalidade globalizante, defensora da inter-relação delas para uma maior compreensão do todo.
Foi esse pensamento moderno, alicerçado no paradigma antropocêntrico, que promoveu algumas conquistas significativas para a sociedade como a liberdade de pensamento, a valorização da individualidade e a crença no poder transformador do sujeito, mas gerou também várias mazelas, dentre as quais o individualismo, a perda do vínculo entre o homem e a natureza, entendida por ele como um objeto que devia estar à mercê da sua vontade de conquista, o capitalismo e o reducionismo epistemológico que limitou o significado da verdade àquilo que apenas podia ser comprovado, medido e quantificado empiricamente.
Essa forma de pensar, embora desejante de globalidade, trouxe ainda outras conseqüências como a perda de vínculo entre as dimensões cognitiva, emocional e espiritual, o que restringiu a compreensão do sentido e da complexidade da vida.
No campo político, essa lógica da particularidade também ocasionou sérios problemas, sendo que um deles ainda é o partidarismo, que reduz o projeto de nação aos interesses de alguns grupos políticos. Na área econômica, percebe-se que os que detêm o poder de compra lutam de forma desenfreada pelo acúmulo de riquezas, enquanto outros seres humanos são praticamente demitidos do direito de viver dignamente, o que demonstra um desequilíbrio entre o desenvolvimento econômico e o social.
Na educação, essa racionalidade fragmentada explicita-se na forma hierárquica de organização das diversas áreas do saber que compõem o currículo do espaço educativo em que cada disciplina não se relaciona com as demais, impedindo que docentes e discentes construam uma visão global e relacional do contexto no qual estão inseridos41.
Em contraposição ao enclausuramento do saber e de acordo com o pensamento transdisciplinar cuja ênfase é a totalidade, em que as partes se encontram inter-relacionadas de tal forma que compõem um todo dinâmico e sistêmico, o educador social torna-se desafiado a dialogar com diversas áreas do conhecimento para ampliar a sua compreensão acerca da
40 Confere em Severino (1994).
41 Alguns trabalhos lidos criticam a fragmentação das áreas do saber, tais como os de Fazenda (2001; 2003;
realidade complexa em que atua. Assim sendo, a transdisciplinaridade, entendida como uma simbiose de saberes construídos a partir das disciplinas, porém para além delas, é o pilar que sustenta a Pedagogia Social e contribui para que o educador não estacione na sua área de atuação e petrifique o saber que já domina.
A perspectiva transdisciplinar faz ainda do educador um sistematizador e problematizador da sua prática, reconhecendo que necessita de saberes complementares. É essa consciência acerca da relatividade do seu saber e da sua incompletude enquanto sujeito aprendente que o faz um sedento gnosiológico que, ao desenvolver o seu fazer educativo, volta-se sobre ele, problematiza-o e o recria dialeticamente.
A partir desses princípios, Graciani (2001, p.29), inspirada no pensamento de Gramsci, define o educador social como um “... intelectual orgânico comprometido com a luta das camadas populares, que elabora junto com os movimentos um saber militante, captado na vida emergente dos marginalizados urbanos de rua”.
Para Graciani (2001), cabe ao educador possibilitar ao educando o desenvolvimento da sua auto-estima, o sentimento de pertença, a autovalorização e a autodeterminação42. A partir de tal propósito, esse profissional deve mobilizar a sociedade a fim de que essa promova, garanta e proteja os direitos das crianças e dos adolescentes em situação de rua; participar de forma comprometida na comunidade e ser um organizador das atividades educativas de tal forma que elas possam contribuir para a emancipação dos educandos.
Em consonância com os autores lidos e com o pensamento da autora, pode-se dizer que a Pedagogia Social é uma invenção de saberes em construção que visa provocar alterações em quatro dimensões básicas: na relacional, na medida em que objetiva fundar novas relações entre os indivíduos com base em valores como o respeito, a solidariedade, a co-responsabilidade e a amorosidade; na cultural, na qual intenta provocar mudanças de mentalidade na sociedade brasileira para que esta conceba e promova as crianças e adolescentes em situação de rua como sujeitos da história e não objetos dela e na institucional, que tende a modificar a mentalidade unilateral presente em diversas instituições da sociedade civil que ainda concebe os sujeitos oriundos das classes sociais menos favorecidas apenas como feixe de negatividades, desconsiderando as suas potencialidades. As modificações no campo institucional devem possibilitar a construção de um olhar relacional em que o humano
42 Para ter acesso à palestra proferida por Graciani no I Congresso Internacional de Pedagogia Social e Simpósio
seja visto como existência dialética perpassada de limites, mas também de forças explícitas e latentes a serem valorizadas e desenvolvidas gradualmente.
Essas intencionalidades que subjazem à Pedagogia Social fazem dela uma força utópica no sentido de que, ao analisar o contexto histórico e identificar nele os fatores impeditivos da emancipação das pessoas que se encontram na rua, anuncia também a possibilidade de transformação de suas vidas por meio da conscientização, processo em que esses sujeitos se percebem como cidadãos emergentes que lutam pela concretização dos seus direitos.