As raízes da Renovação Carismática Católica podem ser encontradas no Concílio do Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. Segundo Caldeira (2008), trata-se do mais importante evento católico no século XX. Convocado pelo Papa João XXIII, pautou-se por um viés menos conservador. Tal viés manifesta-se primeiramente no caráter ecumênico dado ao Concílio. Representantes de distintas correntes cristãs foram convidados como observadores. A disposição para o diálogo com outras comunidades reflete a postura
166
menos intransigente predominante no pontificado de João XXIII. No discurso inaugural do Concílio, o Papa afirmou que o foco não estaria no debate doutrinário, mas no propósito de encontrar meios para que a multissecular instituição pudesse se abrir às sociedades contemporâneas, oferecendo ―respostas para o nosso tempo‖ (JOÃO XXIII, 1962).
Havia, portanto, uma notória preocupação em atualizar a Igreja e, por conseguinte, fazer com que sua mensagem fosse mais condizente com as demandas dos indivíduos no mundo contemporâneo. Segundo Libânio:
Diferentemente dos concílios anteriores, o Vaticano II não pretendeu tomar posições dogmáticas definitórias nem condenatórias, mas intensificar o diálogo com o homem e a mulher de hoje, lançando ponte para o mundo contemporâneo em nítido contraste com as posições conservadoras de Gregório XVI (1831-1846) e de Pio IX (1846-1878),
que conflitavam fortemente com a modernidade (2005, p. 19).
Tal proposta entrava em choque com ala mais conservadora da Santa Sé, herdeira da postura eclesiástica do ultramontanismo91. Os clérigos progressistas defendiam uma Igreja mais próxima da história humana, mas conectada com a realidade que a circundava. Desse modo, o Concílio do Vaticano II viria a ser o ápice de uma causa pleiteada há muito
91― Na Idade Média, o termo era utilizado quando elegia-se um papa não italiano (―além dos montes‖). O
nome toma outro sentido a partir do reinado de Filipe, o Belo (século XIV) na França, quando postularam os princípios do galicanismo, no qual defendiam o princípio da autonomia da Igreja francesa. O nome ultramontano foi utilizado pelos galicanos franceses , que pretendiam manter uma igreja separada do poder papal e aplicavam o termo aos partidários das doutrinas romanas que acreditavam ter que renunciar aos privilégios da Gália em favor da ―cabeça‖ da Igreja (o papa), que residia ―além dos montes‖. O ultramontanismo defende portanto o pleno poder papal.Com a Revolução Francesa, as tendências separatistas do galicanismo aumentaram.As ideias ultramontanas também. Nas primeiras décadas do século XIX, devido a frequentes conflitos entre a Igreja e o Estado em toda a Europa e América Latina, foram chamados de ultramontanos os partidários da liberdade da Igreja e de sua independência do Estado. O ultramontanismo passou a ser referência para os católicos dos diversos países, mesmo que significasse um distanciamento dos interesses políticos e culturais. Apareceu como uma reação ao mundo moderno e como uma orientação política desenvolvida pela Igreja, marcada pelo centralismo romano, um fechamento sobre si mesma, uma recusa do contato com o mundo moderno. Os principais documentos que expressam o pensamento centralizador do papa são as encíclicas de Gregório XVI (1831-1845), Pio IX ( 1846-1878), Leão XIII (1878-
1903) e Pio XI (1922-1939).‖ Disponível em
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_ultramontanismo.htm#_ft nref1. Acesso em 13 de junho de 2014.
167
tempo por aqueles que idealizam uma Igreja mais transigente em relação ao mundo. Conforme Caldeira:
João XXIII, ao convocar o concílio Vaticano II em 1959, abriu caminho para que desaguasse em seu desenvolvimento posterior todo aquele movimento quase irresistível de ideias que se desenvolveu lentamente na primeira metade do século XX e que demandavam o fim da Igreja cerrada em si mesma e suas condenações e pessimismo perante o mundo (2008,
on-line).
Se, primeiramente, a Igreja mostra uma disposição de abrir-se para fora, em reconhecimento ao direito à liberdade religiosa, reconhecimento, esse, sinalizado na enunciação de um Concílio Ecumênico, em seguida, revela, também, uma disposição de abrir-se para os seus, ao enfatizar a importância da atuação do laicato. Essa valorização do trabalho dos leigos, além de servir como ponte entre o clero e a sociedade, facilitando, dessa maneira, a aproximação da Igreja com o mundo que a cerca, tornou-se, por um lado, um importante instrumento de evangelização e, por outro, representou um reforço na luta para conter o decréscimo no número de fiéis. De acordo com Massarão (2002), a abertura da Igreja, explicitada na proposta ecumênica do Vaticano II e na valorização do laicato, constituiu-se como elemento basilar sobre o qual a Renovação Carismática Católica se desenvolveu.
Assim como Massarão, Valle (2004) ressalta a relevância do Vaticano II na gênese da RCC. Entretanto, esclarece que tal relevância decorre de uma crise interna provocada pelo Concílio, que fragmentou o outrora monolítico catolicismo norte-americano. Entre os movimentos surgidos como consequência dessa crise, merece destaque, além da Renovação Carismática, a Teologia da Libertação92.
92Segundo Libânio (2005), o viés progressista do Concílio do Vaticano II possibilitou, também, a emergência
da Teologia da Libertação. Se a ortodoxia católica pauta-se por um dualismo que opõe mundo/céu, a Teologia da Libertação, inspirada pela filosofia marxista, defende um envolvimento radical da Igreja com a história humana, lutando em favor dos pobres, vítimas de um sistema econômico que é estruturalmente injusto. A gênese do movimento encontra-se na década de 1950, na América Latina, entretanto, a nomenclatura ―Teologia da Libertação‖ foi cunhada apenas em 1971 pelo teólogo e clérigo peruano Gustavo Gutierrez. Para mais ver: SAUVAGE, Pierre. Viver a Bíblia hoje. A teologia da Libertação de Gustavo Gutierrez. In: HERMANS, Michel; SAUVAGE, Pierre (Orgs). Bíblia e História: Escritura, interpretação e ação no tempo. São Paulo: Loyola, 2006.
168
Segundo a história oficial, difundida pelos líderes do movimento, a RCC, inicialmente denominada de pentecostalismo católico, nasceu em fevereiro de 1967, nos Estados Unidos, mais especificamente, na Universidade de Duquesne, situada em Pittsburgh, Pensylvania. Dois professores, Dr. Bert Ghezzi e Dr. Patrick Bourgeois, e alguns alunos teriam se reunido durante um fim de semana para um retiro espiritual. Predominava entre eles um sentimento de insatisfação com a vida que levavam, sobretudo com a forma como vivenciam sua espiritualidade. Naquele encontro, buscavam o reavivamento de sua fé e, para isso, puseram-se a orar com muito fervor. A experiência é contada por Patti Gallagher Mansfield, estudante que participava do retiro. Em uma carta enviada a um professor, dois meses após o evento, a jovem descreve o que aconteceu naquele fim de semana:
Tivemos um Fim de Semana de Estudos nos dias 17-19 de fevereiro. Preparamo-nos para este encontro, lemos os Atos dos Apóstolos e um livrinho intitulado "A Cruz e o Punhal" de autoria de David Wilkerson93. Eu fiquei particularmente impressionada pelo conhecimento do poder do Espírito Santo e, pelo vigor e a coragem com que os apóstolos foram capazes de espalhar a Boa Nova, após o Pentecostes. Eu supunha, naturalmente, que o Fim de Semana me seria proveitoso, mas devo admitir que nunca poderia supor que viria a transformar a minha vida! [...] Eu, agora, tenho certeza de que não há nada que tenhamos de suportar sozinhos, nenhuma oração que não seja atendida, nenhuma necessidade que Deus não possa cobrir em sua riqueza! E, no depender dele e louvá-lo com fidelidade, eu sinto uma tremenda sensação de liberdade (www.rccbrasil.org.br).
De acordo com os carismáticos, os testemunhos sobre a poderosa experiência em Duquesne logo se alastraram, provocando um grande impacto no meio universitário católico. Valle (2004, p. 99-100) atribui o êxito imediato do movimento ao fato de que ele foi iniciado por pessoas que, além de ter bom nível intelectual, eram suficientemente treinadas para envolver emocionalmente sua plateia. Para o autor, os católicos
93David Wilkerson (1931/2011), autor de ―A Cruz e o Punhal‖, foi um pastor pentecostal estadunidense e
fundador do Times Square Church. O livro citado é autobiográfico e foca nas experiências que teve durante os cinco anos que trabalhou com pessoas marginalizadas nos subúrbios de Nova York.
169
carismáticos estavam apenas seguindo uma estratégia que vinha obtendo êxito entre os protestantes pentecostais:
Ao buscarem novas vias para a renovação pedida pelo Concílio, passaram a copiar os reavivamentos (revivals) que, àquela altura, eram um apanágio das Igrejas pentecostais, que o usavam com o fito de reconquistar cristãos que haviam se desgarrado de suas igrejas de origem porque perdidos no anonimato das ―multidões solitárias‖ (D.Riessman) das grandes cidades. Na primeira metade do século XX, o pentecostalismo havia se destacado como sendo o mais eficiente instrumento de revitalização da fé no protestantismo norte-americano (VALLE, 2004, p. 100).
Apesar da inspiração advinda das igrejas pentecostais protestantes, e do movimento, inicialmente, possuir características ecumênicas, reunindo católicos e protestantes (MASSARÃO, 2002), a identidade católica foi preservada, segundo Valle (2004, p. 100), por meio das ―três brancuras: Nossa Senhora, a Eucaristia e o Papa‖. Em um curto espaço de tempo, todos os países católicos do mundo foram alcançados pelo movimento, cuja ênfase foi posta na intervenção do Espírito Santo. Com base nisso, há um revigoramento da crença em milagres, especialmente relacionados à cura de enfermidades. Assim, a cura divina é, desde os primórdios do movimento, um dos eixos discursivos da RCC.
Segundo Carranza (2000, p. 30-33), o principal responsável pela introdução da Renovação Carismática Católica no Brasil é o padre jesuíta, de origem norte-americana, Haroldo Hahn. Em 1969, o clérigo promoveu cursos, na cidade de Campinas/SP, em que mesclava elementos da espiritualidade de diferentes agrupamentos católicos. Como resultado desses cursos, diversos grupos foram formados e, dentre eles, os chamados grupos de oração no Espírito Santo. Estes plantaram as sementes do movimento carismático no interior do catolicismo brasileiro. No entanto, quando se fala de um processo de consolidação do trabalho, ganha destaque os denominados cursos de Treinamento de Lideranças Cristãs (TLC) e os Cursilhos da Cristandade. Os jovens eram os principais alvos do TLC, cujo objetivo era ―suscitar uma experiência forte de iniciação da vivência espiritual‖. Os Cursilhos da Cristandade, por sua vez, constituam-se de um movimento de profissionais católicos que emergiam como um novo modelo de
170
organização da liderança leiga. Ancoram-se na proposta de contundente penetração no mundo do trabalho, especialmente na estrutura social.
É a partir do recrutamento de pessoas envolvidas nesses grupos que a RCC começa a tomar forma. Isso define o perfil socioeconômico de seus dirigentes, que eram, até pouco tempo atrás, em sua grande maioria, provenientes das classes médias. Carranza destaca, ainda, a preocupação que o Padre Haroldo teve em preservar as características ecumênicas que constituíram a identidade do movimento em sua gênese, nos Estados Unidos. Para isso, o clérigo esforçou-se para manter contato com grupos pentecostais que, por seu turno, abasteciam-lhe com literatura sobre o batismo no Espírito. Porém, a proposta ecumênica é, algum tempo depois, posta de lado, como explica Carranza (2000). A primeira evidência desse distanciamento, em relação aos grupos pentecostais protestantes, manifesta-se na substituição da terminologia ―pentecostalismo católico‖ para a nomenclatura formal dada ao movimento, ou seja, Renovação Carismática Católica.
Além do Padre Haroldo Hahn, merece menção outra importante figura desse contexto. Trata-se do Pe. Eduardo Dougherty, sacerdote jesuíta, conterrâneo do Pe. Hahn. Especialista em administração e marketing, Pe. Dougherty teve papel crucial na divulgação e na consequente expansão da RCC no campo religioso brasileiro. De acordo com Valle (2004), é significativo o fato de o movimento ter chegado ao país por meio do trabalho de dois missionários católicos norte-americanos. Para o autor, isso corrobora a hipótese de que a Renovação Carismática Católica no Brasil é fruto de um processo de norte- americanização da cultura brasileira.
Conforme Valle (2004, p. 101), o Brasil, com sua histórica tendência à heterodoxia, abraçou rapidamente os novos ensinamentos e práticas. A RCC é hoje ―[...] a força provavelmente mais organizada e motivada de que dispõe a Igreja Católica em nosso país‖. Ele argumenta, ainda, que o movimento a cada dia expande-se e consolida-se, tendo o apoio legitimador de um crescente número de bispos. Entretanto, desde seus primórdios, o movimento sofre forte oposição dos segmentos mais conservadores da Igreja que, conforme Campos (2005), procuraram moldá-la de maneira que os elementos tipicamente pentecostais, como o emocionalismo e o sensacionalismo, fossem superados por meio da reflexão teológica. Todavia, a despeito dos esforços dos grupos mais conservadores, o
171
movimento segue como um contraponto à religiosidade ritualística e absolutamente roteirizada do catolicismo oficial.
Para evidenciar as mudanças pelas quais o movimento carismático católico passou nessas quatro décadas de existência, Carranza (2009), propõe uma tipologia divido-o em três fases principais. Na fase inicial, a preocupação voltou-se, prioritariamente, para a disseminação do movimento. Na segunda fase, já no fim da década de 1970, ocorre a fase de rotinização do carisma. Nesta, a preocupação voltou-se para os elementos mais pragmáticos. A prioridade era organizar o movimento, estruturando sua hierarquia. A terceira fase teve início nos anos de 1990, é a fase de neopentecostalização do catolicismo. Esta tem como principais características a emergência das grandes personalidades da Renovação Carismática Católica, com destaque para os padres pops stars (cantores e/ou apresentadores) e o boom de investimentos em recursos midiáticos.
A repercussão midiática dos padres pops stars e a compra de emissoras de rádio e TV, com alcance nacional, tornaram-se peças chaves para agregar católicos outrora dispersos e, ao mesmo tempo, atrair novos fiéis. De acordo com Cecília Mariz (2004, p. 172), com a utilização dos meios de comunicação, a RCC conseguiu, na segunda metade década de 1990, alavancar seu crescimento. Atualmente, a força do movimento é demonstrada nos grandes encontros anuais que promove. Um dos mais populares é o ―Rebanhão‖ que acontece em diversas cidades brasileiras durante o período de carnaval.
A infraestrutura da RCC ergue-se não só sobre o secular poder econômico que a Igreja Católica detém. Ao contrário, com sua performance midiática, essencial para a venda de CDs e livros, o movimento é atualmente um forte captador de recursos. Valle (2004, p. 102) chama a atenção para o fato de que o movimento busca construir sua identidade afirmando sua postura diferenciada, não só em relação à sociedade, mas também em relação ao próprio universo do catolicismo. Desse modo, a ―RCC se apresenta como sendo ―o‖ novo modo de ser Igreja‖. Ao ter como premissa esse ―novo modo de ser‖, é cobrado dos fiéis um ethos distinto dos demais indivíduos. Devem observar os preceitos católicos relativos à moralidade e às práticas piedosas. Em tal exigência manifesta-se uma ambiguidade. Ao mesmo tempo em que se exige um distanciamento do mundo, reproduz- se, no contexto religioso, formas similares de entretenimento àquelas encontradas fora da Igreja.
172
A espetacularização, recurso largamente utilizado pelos neopentecostais, faz parte também das estratégias da RCC para arregimentar multidões. Há uma preocupação constante em oferecer aos indivíduos sensações que normalmente são experimentadas em situações que não são de cunho religioso. Assim, são organizados eventos de natureza festiva, nos quais os fiéis podem cantar, dançar e se socializarem, animados por tantos recursos pirotécnicos como em qualquer evento secular. Os shows dos padres-cantores, com seus diferentes estilos musicais, são um bom exemplo de como a oposição mundo/céu é apenas relativa também no universo carismático católico.
A produção musical católica, alavancada pelo movimento carismático, conta hoje com bandas de rock, como a nacionalmente conhecida banda Rosa de Saron, grupos de pagode, como o Anjos do Pagode, cantores sertanejos, como o Pe. Alessandro de Campos, de Brasília, que se apresenta como um genuíno representante do sertanejo universitário, mesclando no show músicas com temática religiosa e músicas seculares. Assim como ocorre no universo gospel das denominações neopentecostais, não há hoje quaisquer restrições em relação a segmentos musicais na RCC.
Além da espetacularização festiva dos encontros, missas e shows, Carranza (2005), chama a atenção para espetacularização midiática, inspirada nos televangelistas neopentecostais. Para a autora, essa seria a evidência de que o catolicismo no Brasil encontra-se em uma nova fase, caracterizada, sobretudo, por uma disputa ferrenha para reverter o processo de descatolização da sociedade brasileira, provocado pela ascensão neopentecostal. Nessa disputa, os padres-midiáticos desempenham papel central, pois conseguem atrair, com sua performance, marketing, práticas e discurso similares ao da concorrência, um número crescente de fãs-fiéis. No que se refere às práticas e ao discurso, Carranza (2005) põe em destaque a adoção, por parte dos carismáticos católicos, daquilo que os neopentecostais têm de mais peculiar, no que tange à construção de sua identidade, a Teologia da Prosperidade.
Assim, os mesmos jargões da autoajuda, fundados na crença de que as palavras têm poder, são incansavelmente repetidos pelos líderes da RCC. Seguindo a lógica utilitarista da TP, os fiéis católicos são estimulados, em um primeiro momento, a tomar posse, em alto e bom som, daquilo que desejam. Depois, são intimados a demonstrar de forma concreta a
173
dimensão da sua fé, ofertando com generosidade na casa de Deus e devolvendo94, como prova de fidelidade, o dízimo. Carranza, ao observar especificamente o trabalho dos
padres-apresentadores na televisão, constata que a ideologia neopentecostal, que apregoa que todos podem se tornar sócios de Deus ao contribuírem financeiramente com a evangelização do mundo, e receberem, como contrapartida, muito mais do que aquilo que foi doado, é literalmente reproduzida pelos clérigos:
No decorrer da programação percebe-se que essa ideologia está presente, como parte da estrutura discursiva dos apresentadores, pois insistem em que o telespectador se torne num sócio evangelizador para ser, de algum modo, parceiro de Deus. Assim, os padres- apresentadores subordinam explicitamente dádivas divinas à contribuição econômica do fiel (CARRANZA, 2005, p. 342).
Ao adotar estratégias semelhantes às utilizadas pelos neopentecostais, a Renovação Carismática representa, no subcampo do catolicismo, uma forma de expressão religiosa mais conformada com o espírito da época. E, considerando-se que esse ―espírito‖ é, antes de tudo, um conjunto de valores e crenças que emerge sob a égide do mercado, não surpreende o fato de os carismáticos católicos se dobrarem ao imperativo do consumo sem culpa. Ainda que isso não ocorra sem que se manifeste uma ambiguidade característica de uma instituição que consegue manter, externamente, sua unidade, mas que é internamente dividida. Conforme Carranza:
A ambiguidade se faz presente nas redes de tevês católicas (Século XXI e TVCN) que insistem em declarar sua fidelidade à Igreja, que prega o distanciamento do ―consumismo‖, ao mesmo tempo em que incentivam ao consumo sem culpa e monetarizam suas relações com o sagrado. Embora isso aconteça de forma moderada, os programas religiosos do catolicismo midiático não ficam tão longe dos imaginários veiculados pelas narrativas neopentecostais (2005 p. 349).
94O verbo ―devolver‖ é utilizado tanto no contexto protestante como no católico quando se faz referência ao
dízimo. Isso porque apregoam que tudo que o que fiel tem vem de Deus. Assim, quando leva o dízimo à igreja, o crente está apenas devolvendo a décima parte de tudo aquilo que o Senhor colocou em suas mãos para abençoá-lo. Um cartaz no mural do templo da Paróquia Verbo Divino sintetiza bem a ideia. Diz assim: ―100% vem de Deus, 90% fica com você, 10% você devolve‖.
174
A histórica competência da organização eclesiástica católica para gerir suas diferenças internas contrapõe-se à intrínseca tendência do protestantismo à fragmentação. A ênfase que os primeiros reformadores deram, especialmente Lutero, à doutrina do sacerdócio universal, tornou o protestantismo vulnerável às interpretações individuais. Afinal, sob a premissa dessa doutrina, todo cristão possui a mesma autoridade diante de Deus e das Sagradas Escrituras. Desse modo, as diferenças internas são facilmente resolvidas por meio de rupturas. No caso do catolicismo, tão fortemente hierarquizado, com ênfase na autoridade infalível do Papa, as divergências geram tensões e paradoxos. Todavia, dificilmente produzem dissidências significativas, com a óbvia exceção da Reforma Protestante. Assim, não obstante conserve sua unidade, o catolicismo jamais foi homogêneo. No caso do catolicismo lusitano, mais plástico ainda do que aquele praticado