De acordo com Campos (2005), embora haja informações sobre uma primeira tentativa de recarismatização da cristandade ainda no segundo século depois de Cristo, a história do moderno pentecostalismo tem início na passagem do século XIX para o XX, nos Estados Unidos. Duas personalidades se destacam como pioneiras do movimento: Charles Fox Parham e William Joseph Seymour76. Sua atuação se deu num momento em que as denominações tradicionais estavam acomodadas à situação de desigualdade e segregação racial. O fato dos estratos sociais mais baixos não receberem o acolhimento que desejavam nessas igrejas contribuiu para fomentar uma insatisfação que levou à ruptura e à emergência de novas congregações protestantes. Por serem, essencialmente, constituídas por pessoas pobres e/ou proscritas, como era o caso dos negros, são nomeadas por Niebuhr de ―igrejas dos deserdados‖ (apud CAMPOS, 2005, p. 104).
A composição social dessas novas igrejas teve peso determinante na formulação de sua teodiceia e, consequentemente, no ethos dos conversos. O fato dos membros virem das camadas mais pobres, pouco escolarizadas, distanciou-os da liturgia engessada pelo formalismo que caracterizava as igrejas protestantes históricas77. A religiosidade que desenvolveram é marcada pela ênfase dada à atuação do Espírito Santo e pelo emocionalismo. Mais compatíveis com necessidades materiais e espirituais dos ―deserdados‖, os líderes leigos passam a ser mais valorizados, em detrimento do clero mais intelectualizado.
76 Segundo Reily (2003, p. 364-365), ―O movimento pentecostal surgiu no movimento de ―santidade‖, que
por sua vez deve muito ao conceito wesleyano de perfeição cristã como uma segunda obra da graça, distinta da justificação. A sementeira específica provavelmente foi a Escola Bíblica de Topeka, Kansas, nos Estados Unidos. Nessa escola, Charles Pahram defendia a ideia de que o falar em línguas era um dos sinais que acompanhavam o Batismo do Espírito Santo. Um discípulo de Parham, o pregador negro W. J. Seymour, foi convidado para pregar na Igreja de tipo holiness da evangelista negra Nelly Terry, em Los Angeles, Califórnia. Pregando sobre At 2.4, Seymour declarou que Deus tem uma terceira bênção, além da santificação, a saber, o Batismo do Espírito Santo, acompanhado do falar em línguas. Nelly Terry, escandalizada, expulsou-o da sua Igreja! Seymour, porém, promoveu reuniões em outras partes da cidade e no dia 6 de abril de 1906, em uma reunião de oração à rua Azuza, n. 312, um menino de oito anos falou em línguas, seguido de outras pessoas. Foi o início formal do movimento pentecostal. W. H. Durham, pastor de uma Igreja Batista de Chicago, foi um dos que falaram em línguas nas reuniões de Seymour.‖
77 São chamadas de igrejas protestantes históricas, ou tradicionais, aquelas denominações que possuem
vínculo direto com a Reforma Protestante. São oriundas, portanto, da Europa. A Igreja Presbiteriana Tradicional, A Igreja Batista e a Igreja Metodista fazem parte dessa categoria. As igrejas pentecostais, por sua vez, embora não sejam desvinculadas das primeiras, têm sua gênese nos Estados Unidos. (MENDONÇA, VELASQUES FILHO, 2002)
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Os dissidentes acreditavam que os cristãos, há muito tempo, estavam negligenciando os dons espirituais, cuja primeira grande manifestação está descrita no livro de Atos dos Apóstolos. Surge então uma contraposição, que até hoje define a relação dos pentecostais com os protestantes históricos. Enquanto os pentecostais exaltam a experiência vivida com o Espírito Santo e suas revelações cotidianas, os protestantes tradicionais apegam-se ao que está escrito, à racionalidade, ao formalismo78.
No princípio, os pentecostais formaram pequenas comunidades independentes, mas totalmente ligadas pelo modo de crer e vivenciar sua fé. Contudo, em 1914, na cidade de Hot Springs, nos Estados Unidos, foi realizada uma grande assembleia e os pastores das novas congregações decidiram que deveriam fazer parte de uma só igreja. Nasce, então, a Assembleia de Deus.
Segundo Ricardo Mariano (2004), a Assembleia de Deus (AD) chegou ao Brasil em 1911. Os responsáveis por trazer a denominação foram dois suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingen. Embora fossem europeus, converteram-se ao pentecostalismo nos Estados Unidos. É importante mencionar que não se tratava de um movimento inédito no campo religioso brasileiro. Em 1910, Luigi Francescon79, um missionário de origem italiana, que também aderiu à fé pentecostal nos Estados Unidos, fundou a Congregação Cristã no Brasil (CCB). Essas primeiras denominações fazem parte daquilo que alguns estudiosos definiram como pentecostalismo clássico (FRESTON, 1994; MARIANO, 2005).
Paul Freston (1994) propõe uma tipologia para explicar a história do pentecostalismo brasileiro. Para isso, divide o movimento em três ondas de implantação de igrejas. A primeira onda seria a do pentecostalismo clássico, representado pela Congregação Cristã do Brasil e a Assembleia de Deus. A segunda onda coincidiria com o projeto desenvolvimentista de governo na década de 1950. À época surgem denominações genuinamente brasileiras como a Brasil para Cristo (BPC) e a Igreja Pentecostal Deus é Amor (IPDA). A terceira onda teria se iniciado nos anos de 1970 e ganhado expressão na
78Há uma passagem bíblica muito usada por pentecostais para justificar sua preferência por uma
espiritualidade fundamentada nas manifestações cotidianas do Espírito em detrimento de uma postura mais intelectual. Trata-se de uma passagem da II Epístola de Paulo aos Coríntios, que diz: ―[...] porque a letra mata, mas o Espírito vivifica‖ (II CO, 3:6). Lendo a passagem dentro do contexto, percebe-se que o apóstolo não estava contrapondo fé e razão, mas, sim, Lei e Graça. Entretanto, tornou-se um dos jargões pentecostais para recusar qualquer tentativa de intelectualização da fé.
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década de 1980. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e a Igreja Internacional da Graça de Deus(IIGD) fazem parte deste contingente de novas igrejas.
A primeira onda pentecostal traz de volta a oposição terra/céu e, a partir disso, os conversos adotam uma postura ascética e fazem questão de externalizá-la, assumindo uma aparência que os coloca em contraste com as vaidades e os modismos mundanos. Concebem o mundo como o lugar das aflições, mas acreditam que só precisam suportá-las por um breve tempo porque, logo, Cristo voltaria para arrebatar o seu povo e levá-lo para um lugar de glória. Há, portanto, na sua teodiceia, a mesma esperança escatológica que nutria a fé dos primeiros cristãos. Trata-se de um discurso com forte poder de atração para as camadas mais pobres. Não apenas porque inculca a esperança de uma salvação supraterrena, mas porque faz brotar entre os socialmente desfavorecidos a crença de que são especiais. Nesse âmbito, a glossolalia ganha destaque como a mais importante evidência de que a pessoa foi batizada pelo Espírito Santo e, a partir de então, não é mais refém de uma existência ordinária. Conforme Portella:
A glossolalia, que o Espírito Santo proporcionaria em seu batismo, é outro enorme fator de valorização do indivíduo. Pessoas que não sabem falar corretamente, que não articulam bem os tempos verbais e a gramática oficial, não dominam a linguagem culta, passam, no culto ou em vigílias de oração, a falar em línguas estranhas, reais ou espirituais, sem nenhuma preparação acadêmica do mundo para tanto. Este fenômeno vem a afirmar, para o crente, que a cultura de Deus se manifesta neles e que, assim, estão eles para além, acima da cultura 'culta' do mundo (2012, p. 6).
Desse modo, o pentecostalismo consegue fornecer aos indivíduos uma forma de compensação social. A lógica é simples: não tinham riquezas materiais, mas tinham algo melhor, as dádivas espirituais que, ao contrário das outras, são eternas. Não obstante a ―obra de Deus‖ fosse mantida pelos dízimos e pelas ofertas dos fiéis, as doações não eram feitas tendo como motivação uma compensação imediata. A recompensa viria, mas não era, prioritariamente, esperada para a vida terrena. Isso começa a mudar com o advento da segunda onda, iniciada nos anos 1950, que Mariano (2005) denomina de deuteropentecostalismo. Nesse período ocorre, segundo Freston (1994), uma fragmentação
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do campo pentecostal, que se divide em três grandes grupos: Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), Brasil Para Cristo (BPC) e Igreja Pentecostal Deus é Amor (IPDA).
A Igreja do Evangelho Quadrangular80, única entre as grandes denominações daquele período que não era brasileira, foi responsável por trazer para o Brasil as práticas e doutrinas que grande parte dos pentecostais norte-americanos já havia assimilado, sobretudo em decorrência do uso massivo dos meios de comunicação para o trabalho evangelístico. Embora a IEQ tenha inaugurado esse movimento da segunda onda pentecostal, o reforço se deu com emergência de outras denominações. E isso não aconteceu por acaso. O campo religioso apenas seguia o curso da sociedade como um todo que, com a política nacional-desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, passava por um período de valorização da sua identidade e dos seus potenciais. A BPC e a IPDA são, com outras denominações menos expressivas, produtos desse período. Não havia entre seus fundadores, como ocorria até então, nenhum líder estrangeiro.
Segundo Freston (1994), as denominações da segunda onda trazem consigo a vantagem de serem mais flexíveis, uma vez que, ao contrário das igrejas pentecostais clássicas, não carregavam o peso de quarenta anos de tradição. Dessa forma, eram mais adaptáveis às necessidades que emergiam com o acentuado processo de urbanização, o qual definia o curso das transformações sociais desde a década de 1930. O traço característico dessas igrejas do período desenvolvimentista é a ênfase na cura divina. Como principal responsável pelo desencadeamento dessa nova fase do pentecostalismo, a IEQ que colocará, em 1953, com a Cruzada Nacional de Evangelização, o tema da cura divina no centro das pregações evangelísticas.
Enquanto o discurso das primeiras igrejas pentecostais era marcado pela resistência e oposição ao mundo, o foco na temática da cura divina representava, segundo Freston (1994, p. 113), um ―[...] sinal de adaptação às sensibilidades da sociedade de consumo e às
80De acordo com Freston (1994, p. 110-112), A International Church of the Four-Square Gospel surgiu em
Los Angeles, cidade que atraia muitos grupos religiosos exóticos, além de ser um importante centro da indústria do entretenimento. A fundadora da denominação foi Aimee Semple McPherson. Esta, na década de 1920, foi responsável por promover uma adaptação no pentecostalismo, tornando-o mais adequado àquele ambiente. A IEQ é a única grande denominação cristã iniciada por uma mulher. Fazia um trabalho missionário itinerante. Levando uma tenda de lona, percorreu os Estados Unidos de carro, lotando auditórios para sessões de cura divina. A implantação da Igreja no Brasil ocorreu após a morte de Aimee. A igreja foi fundada por Harold Williams, em São João da Boa Vista/SP. Em 1953, realizou, na cidade de São Paulo, a Cruzada Nacional de Evangelização, evento com pretensão interdenominacional.
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exigências do mercado religioso‖. Nessa mesma direção, Mendonça e Velasques (2002, p. 54) afirmam que tais denominações funcionavam como ―agências de cura divina‖, nas quais seus líderes estabeleciam balcões de oferta de bens religiosos a uma clientela flutuante e descompromissada. Suas práticas assemelhavam-se às práticas da magia, pois buscavam, diferentemente do pentecostalismo clássico, o milagre imediato. Imediatismo esse fortemente acentuado pelas igrejas da terceira onda, comumente designadas de neopentecostais.