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New York, New York

In document «The Bellyverse» (sider 35-49)

A alimentação artificial de praias é uma técnica que consiste no fornecimento artificial de sedimentos, em praias que sofrem erosão costeira severa de modo a restaurar o seu perfil original.

O método mais comum de obter os sedimentos é através da dragagem da plataforma continental, do aproveitamento de dragagens portuárias, da transposição (bypassing) dos sedimentos acumulados a barlamar de esporões ou da extracção de inertes na plataforma litoral (Bird, 2008; Carter, 1988; Davis & FitzGerald, 2004; Dias, 1990; Goudie, 2003; Nordstrom, 2000; Schwartz, 2005; Viles & Spencer, 1995). Dias (1990) refere que tais acções, para serem eficazes, devem ter em atenção especial as características dos sedimentos, nomeadamente a dimensão e a natureza do material. Estas características dos sediemntos deverão ser idênticas ou semelhantes às originais de modo a aumentar o tempo de residência do volume de sedimentos, como expressa Ramos-Pereira (2008a).

O processo de alimentação artificial de praia é geralmente realizacom com recurso a dragagem de sedimentos da plataforma continental e à sua mobilização mecânica de modo a moldar a nova configuração da praia. Vejam-se as Fotos 5.1. que ilustram o aludido procedimento.

De acordo com Davis & FitzGerald (2004), Nordstrom (2000) e Ramos-Pereira (2008a), a alimentação artificial de praias é realizada desde o início do século XX, mas tornou-se mais comum a partir da década de 1950 nos Estados Unidos da América (EUA), e mais tarde na Europa, na década de 1960. Generalizou-se a partir da década de 1980 em países como os EUA, Alemanha, Austrália, Bélgica, Brasil, Cuba, Dinamarca, França, Inglaterra, Japão, Nova Zelândia, Portugal e Rússia (Schwartz, 2005).

Fotos 5.1. Dragagem de sedimentos da plataforma continental através de tubagem metálica submarina, aquando da alimentação artificial da praia de Captiva Beach (Florida, EUA) (A); Pormenor da mobilização mecânica dos sedimentos (B)(Retirado de Schwart, 2005).

Inicialmente os trabalhos de alimentação artificial de praias foram realizados sem um verdadeiro acompanhamento técnico e científico o que restringiu em grande medida o seu êxito (Davis & FitzGerald, 2004). Actualmente, a realização destes trabalhos importa um profundo conhecimento local da dinâmica litoral e dos seus elementos forçadores (Ramos-Pereira, 2008a).

Schwartz (2005) menciona que a primeira intervenção deste tipo foi realizada em 1922, na praia de Coney Island (New York, EUA). O mesmo autor refere que foram dragados do porto de New York cerca de 1 000 000 m3 de sedimentos que foram depois transportados para a praia. Após este caso pioneiro outros lhe seguiram por todo o território dos EUA.

Um exemplo de sucesso é o de Miami Beach (Florida, EUA). Carter (1988) e Davis & FitzGerald (2004) mencionam que este troço litoral com cerca de 18 km de extensão, intensamente ocupado por empreendimentos turísticos, esteve sujeito a forte erosão costeira que conduziu ao quase desaparecimento da praia. No período de 1976-1982, foram depositados 17 700 000 m3 de sedimentos dragados da plataforma continental para reconstituir o perfil da praia com 200 m e criar uma pequena duna, posteriormente estabilizada com vegetação dunar (Foto 5.2.). O custo desta intervenção foi estimado em $67 milhões de US dólares, como mencionam Carter (1988), Davis & FitzGerald (2004), USACE (2003) e Schwartz (2005). Mas, segundo Carter (1988), tratou-se de uma pequena importância a pagar pela protecção e salvaguarda de propriedade e infraestruturas no valor de $5 biliões de US dólares.

Em Portugal, Ramos-Pereira (2008a) refere como exemplo pioneiro o projecto de alimentação artificial da praia do Tamariz (Estoril) onde, na década de 1950, foram depositados cerca de 15 000 000 000 m3 de areia.

Fotos 5.2. Miami Beach (Florida, EUA) antes (A) e depois (B) dos trabalhos de alimentação artificial da praia(Retirado de Schwartz, 2005).

A praia da Rocha (Portimão) foi também submetida ao fornecimento artificial de sedimentos na década de 1970. De acordo com Andrade (1997) e Viles & Spencer (1995), neste troço litoral com cerca de 1 km de extensão, foram depositados 900 000 m3 de sedimentos dragados do porto de Portimão de modo a reconstituir o perfil de praia com cerca de 100 m. Nos anos seguintes verificou-se alguma erosão e, em 1983, foram depositados mais 150 000 m3 de sedimentos.

A praia perdura até hoje e é apontado como um exemplo de sucesso pela comunidade científica, como mencionam Dias (1990), Ramos-Pereira (1992), van der Meulen & Salman (1996) e Viles & Spencer (1995). Curiosamente, o mesmo tipo de intervenção numa praia contígua, a Praia dos Três Castelos, revelou-se um fracasso. Psuty & Moreira (1992 in Viles & Spencer, 1995) monitorizaram a intervenção na Praia dos Três Castelos e afirmam que o volume de sedimentos fornecido (200 000 m3) foi erodido a uma taxa anual de erosão de 15-20%, e em cerca de cinco anos a praia retomou a sua configuração inicial.

Um outro exemplo português, mais recente, é o ocorrido no troço litoral da Costa da Caparica – Cova do Vapor, no período de 2007-2009. Veloso-Gomes et al (2009) refere que neste troço litoral com cerca de 2 km de extensão, foram depositados cerca de 3 000 000 m3 de sedimentos dragados do porto de Lisboa com a finalidade de reconstituir a praia e proteger as áreas urbanas (Foto 5.3.). Segundo os supracidos autores, a monitorização destas intervenções está em curso de modo a determinar o seu sucesso e a estimar tempo de residência do volume de sedimentos.

Relativamente aos custos monetários destas intervenções, Davis & FitzGerald (2004) afirmam que o custo total de execução de projectos de alimentação artificial de praias se situa na ordem dos $3 a $13 US dólares/m3. Schwartz (2005), por sua vez, afirma que os custos podem oscilar entre os $3 e $15 US dólares/m3.

Fotos 5.3. Costa da Caparica antes (A) e depois (B) dos trabalhos de alimentação artificial da praia(Retirado de INAG e Veloso-Gomes et al, 2009, respectivamente).

Magalhães et al (2004) e Taborda et al (2005), tomando como exemplo o troço litoral Quarteira – Vale do Lobo, com cerca de 1,4 km de extensão, afirmam que o custo da execução do projecto de alimentação artificial de praias realizado em 1998, no qual foram depositados 600 000 m3 de sedimentos dragados da plataforma continental, comportou o montante de €2 400 000 o que se traduz num custo de €4/m3.

De acordo com a opinião expressa por Ramos-Pereira (2008a), Pye et al (2007b) e Schwartz (2005), a alimentação artificial de praias tem por objectivos:

(i) aumentar a extensão da praia e do sistema dunar (quando presente); (ii) avançar a linha de costa;

(iii) reduzir os impactos das recorrentes perigosidades naturais, exemplo de erosão marinha, galgamentos oceânicos e tempestades;

(iv) aumentar a área recreativa da praia

Esta técnica de protecção “ligeira” do litoral tem sido bastante utilizada na protecção de troços litorais com intensa ocupação antrópica, como mencionam Magalhães et al (2004), Nordstrom (2000), Schwartz (2005) e Taborda et al (2005).

Vários autores citados em Schwartz (2005) referem que as vantagens desta técnica residem no facto de:

(i) ser menos dispendiosa que estruturas “pesadas” de engenharia/defesa costeira; (ii) ser mais sustentável e ecológica;

(iii) disponibilizar sedimentos para serem mobilizados pelo vento; (iv) usufruir das dragagens portuárias;

(v) contribuir para o balanço sedimentar litoral; (vi) valorizar os processos naturais;

(vii) contribuir para a recuperação de habitats e biodiversidade.

In document «The Bellyverse» (sider 35-49)