• No results found

The “new” 7-s framework

6. Discussion

6.4 The “new” 7-s framework

A exemplo do jornal mexicano, O Globo também possui a sua origem inserida em um contexto de intensas agitações políticas e sociais. A década de 1920 pode ser considerada como um período singular dentro da história republicana brasileira. A decadência do Estado Oligárquico foi acompanhada por um conjunto de importantes mobilizações políticas e intensas transformações culturais. Além da fundação do Partido Comunista Brasileiro, que em 1922 representava o desenvolvimento do operariado nacional, as mobilizações promovidas

pelo movimento tenentista a partir do Forte de Copacabana e o crescimento da insatisfação e da oposição partidária em relação às estruturas políticas dominadas pelo Partido Republicano Paulista (PRP) e pelo Partido Republicano Mineiro (PRM), marcaram o período definido como de crise dos anos 20.

Será pois, dentro deste contexto, que Irineu Marinho, em 29 de julho de 1925, irá fundar, no Rio de Janeiro, um novo jornal vespertino denominado O Globo. Após ter se desligado da direção do também jornal carioca A Noite (editado entre 1911 e 1957) e ter retornado de uma breve estadia na Europa, ele irá se unir a Herbert Moses (seu antigo colega de direção no jornal A Noite) e a Justo de Moraes para fundar um novo jornal que, segundo as pretensões de seus fundadores, deveria renovar os padrões da imprensa do Rio de Janeiro.

Como não poderia deixar de ser, os primeiros anos de existência deste que se colocava como uma das publicações vespertinas mais importantes no Rio de Janeiro, foram marcados por intensos debates políticos, uma vez que, como afirmam Richard Romancini e Cláudia

Lago (2007, p. 85): “A grande imprensa do período documenta as crises por que passa a

República Velha e, também, de certa forma, participa delas”. Desta forma, podemos encontrar, expressa nas páginas de O Globo, manifestações associadas aos principais episódios políticos do período, que podem ser representados pela crise política vivenciada pela oligarquia paulista, perpassam a ascensão de Getúlio Vargas ao poder e as disputas políticas provenientes de seu governo, e que culminam com a promulgação de uma nova Constituição em 1946.

Dentro deste contexto, podemos identificar ainda, a defesa da democracia e de suas instituições como sendo uma das bases editoriais assumida pelo jornal. Ainda que O Globo

tenha saudado a vitória das “forças pacificadoras da Revolução”, as quais depuseram

Washington Luís, o jornal não se furtou em defender a partir de seus editoriais, ao longo do governo Provisório de Getúlio Vargas, a necessidade de restauração de uma ordem constitucional. Tal postura, assumida pelo jornal, fez com que se colocasse ao lado dos revoltosos paulistas14 em 1932, defendendo que não se tratava de um movimento separatista, antes sim, que tal mobilização visava, unicamente, a reconstitucionalização do país. A defesa da democracia no país passava, ainda dentro do contexto da década de 1930, pelo enfrentamento a outros grupos políticos considerados perigosos. Neste sentido, a Aliança

14

Faz-se referência aqui ao movimento conhecido como a Revolução Constitucionalista de São Paulo, a partir do qual se reivindicava a convocação de uma assembleia e a promulgação de uma nova Constituição, uma vez que a Constituição de 1891 havia sido anulada depois da ascensão ao poder por parte de Getúlio Vargas.

Nacional Libertadora (ANL)15, bem como a própria ideologia comunista, foram apresentados pelo jornal como elementos ameaçadores e nocivos à manutenção da ordem democrática brasileira.

As perseguições desencadeadas pelo governo contra os comunistas foram do inteiro

agrado do jornal, para quem “o combate à ideologia vermelha com seu rosário de

inconveniências para um povo da nossa formação moral e religiosa continuava como

um dos objetivos mais sérios”. O jornal procuraria “advertir as autoridades quanto aos perigos que o comunismo representava.” (ABREU, 2001, p. 2542)

Ainda que o direcionamento político e editorial do jornal tenha se mantido ao longo dos anos que se seguiram, devemos destacar que a década de cinquenta trouxe consigo um conjunto de importantes transformações. Dentro de uma perspectiva que nos parece bastante apropriada, as transformações iniciadas na década de cinquenta podem ser representadas como marco inicial de um processo que, consolidando-se na década de sessenta, alteraria de forma significativa as relações dos meios de comunicação de massa no país. Conforme destaca Ana Paula Goulart Ribeiro ( 2006, p. 427):

Ao longo dos anos 1950, o jornalismo carioca sofreu uma série de mudanças profundas que fizeram do período um marco na história da imprensa brasileira. Houve transformações nas estruturas administrativas de algumas empresas, tendo em vista uma maior racionalização do processo de produção e circulação da matéria jornalística. Um padrão empresarial de gestão, caracterizado por formas de gerência mais impessoais, começou a se firmar de maneira hegemônica.

Paralelo a este novo ordenamento administrativo, bem como, acompanhando o acirramento das tensões provenientes da bipolarização da Guerra Fria e os alinhamentos políticos e econômicos decorrentes do referido contexto, O Globo passa a defender a participação cada vez mais expressiva do capital estrangeiro na economia brasileira.

O capital estrangeiro deveria ser bem recebido e estimulado como ajuda indispensável para um país carente de capitais. (...) Segundo Ricardo Marinho, O Globo jamais se posicionou contra o capital estrangeiro, cujo ingresso era

15

A Aliança Nacional Libertadora (ANL) corresponde a um amplo movimento de esquerda que congregava diferentes agrupamentos de oposição ao governo Vargas. Possuía na figura de Luís Carlos Prestes a sua principal liderança política.

considerado benéfico na medida em que corria para o crescimento do país. (ABREU, 2001, p. 2543)

Desta forma, no decorrer da década de cinquenta e princípio dos anos sessenta, podemos perceber o alinhamento progressivo do jornal O Globo a determinados grupos de interesses políticos e econômicos, tanto nacionais como internacionais. Em âmbito nacional, demonstrava O Globo um progressivo alinhamento com os projetos defendidos pela União Democrática Nacional (UDN), bem como, por alguns setores das forças armadas; enquanto que, em relação ao contexto internacional, o jornal assumia a defesa das diretrizes propostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) associadas, por exemplo, às medidas de combate à inflação e à restrição de créditos. (ABREU, 2001)

O alinhamento político e econômico apresentado pel’O Globo contribuiu de forma significativa para, ao longo daquele período, transformar o jornal fundado por Irineu Marinho, por intermédio de um conjunto de acordos e transações financeiras16, em uma das maiores redes de comunicação mundial.17 Conforme destaca Ana Paula Goulart Ribeiro (2006, p.

432): “A partir de subsídios ou mesmo de condescendência frente a irregularidades jurídicas

(como a do acordo Time-Life), a empresa foi construindo uma estrutura de inegável eficiência

técnica e administrativa.”

A consolidação das Organizações Globo, e consequentemente do jornal O Globo, ocorreu de forma paralela ao período correspondente à ditadura militar, contribuindo significativamente na legitimação do próprio regime militar. As relações estabelecidas entre o grupo comunicacional e as estruturas de poder do estado ditatorial, foram assim definidas por ROMANCINI; LAGO ( 2007, p. 120-121):

16 Os referidos acordos e transações financeiras realizadas pelo jornal O Globo e pelas Organizações Globo, podem ser analisados mais detidamente a partir da leitura de obras como: SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Maud, 1999; HERZ, Daniel. A história secreta da Rede Globo. São Paulo: Ortiz, 1991. ROMANCINI, Richard; LAGO, Cláudia. História do jornalismo no Brasil. Florianópolis: Insular, 2007.

17 Mesmo tendo alguns de seus dados desatualizados, uma vez que estes números remontam a informações

colhidas nos anos 1980, são representativos os elementos apresentados por Daniel Herz (1991, p. 21): “A Rede

Globo é o centro de um império que abrange mais de quarenta empresas atuando em diversos ramos da economia. Só a Rede Globo – que inclui sete emissoras totalmente de sua propriedade, seis emissoras de propriedade parcial e 36 emissoras afiliadas – tem uma receita anual estimada em US$ 500 milhões e um valor patrimonial em US$ 1 bilhão. Com seus 12 mil funcionários – 1500 dos quais dedicados à produção de quase três horas diárias de ficção – a Rede Globo produz cerca de 80% dos seus próprios programas, sendo a quarta maior rede privada de televisão do mundo, só atrás das três gigantes norte-americanas (CBS, NCB e ABC).”

De novo, ao lado de mecanismos estritamente autoritários e de força direta, houve uma pressão econômica, particularmente importante num momento em que o Estado começou a assumir um papel mais central ainda nas atividades econômicas. Neste aspecto, há um favorecimento aos grupos de comunicação ligados à TV, principalmente à Rede Globo, devido à realização de uma política de integração nacional, que envolve grande aporte de recursos financeiros e tecnológicos por parte do Estado, tendo em vista o caráter estratégico com que é visto este meio.

No transcurso do período compreendido entre o final da década de setenta e os primeiros anos da década de oitenta, O Globo irá se ocupar dos debates e propostas políticas em relação ao processo de redemocratização do país. Neste momento O Globo irá apoiar o

modelo de “redemocratização conservadora” proposto pelo regime militar, uma vez que o

jornal se colocava como apoiador das medidas apresentadas pelo Pacote de Abril, consideradas como necessárias ao bom desenvolvimento institucional brasileiro, ao passo que, em relação aos debates acerca da realização de eleições presidenciais, o mesmo assumia uma postura contrária à aprovação da Emenda Dante de Oliveira18.

O advento da “Nova República” foi saudado pelo jornal. Conforme destaca Francisco Fonseca (2005, p. 138): “Antes mesmo que esta se instalasse, como se vê, o jornal postou-se

na linha de frente de defesa do novo governo, estrategicamente separando o período militar do atual [...], mas que fez questão de uni-los no tangente às supostas expectativas da população.”

Sendo taxado como o “mais governista dos jornais”19

, O Globo passou a exercer a defesa inveterada dos governos que se seguiram, bem como, de seus programas econômicos que, a partir de Fernando Collor de Mello, buscaram alinhar o Brasil, cada vez mais, a um conjunto de medidas neoliberais, combatendo fortemente os gastos públicos e defendendo a abertura da economia brasileira ao capital internacional.

18 Com relação à postura assumida pelo jornal em relação ao Pacote de Abril é feita a seguinte observação no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós-1930 (2001, p. 2545): “O projeto de distensão ‘lenta, gradual e

segura’, apresentado pela facção liberal do regime militar, foi tratado nas páginas de O Globo como um processo

contínuo de transição para a democracia. Momentos conturbados como o Pacote de Abril, que redundou no fechamento do Congresso, em abril de 1977, para a aprovação de um conjunto de leis com o intuito de fortalecer o partido governista, foram vistos pelo jornal como momentos de intransigência por parte da oposição, capazes de impedir a ‘boa evolução do problema institucional brasileiro’.”. Com relação à Emenda Dante de Oliveira, o mesmo ABREU (2001, p. 2545) afirma: “A sucessão do presidente João Figueiredo foi marcada pela tentativa de promulgação da emenda Dante de Oliveira, que propunha, de imediato, a eleição direta para presidente da República. O Globo não apoiou a campanha nacional a favor da emenda, iniciada no fim de 1983.”

19

O alinhamento do jornal O Globo aos diferentes governos republicanos brasileiros lhe conferiu, por parte do DHBB, ou mesmo do estudo apresentado por Francisco Fonseca (2005), a alcunha de “governista”. Segundo ABREU (2001, p. 1469): “Transformado gradualmente no mais governista dos jornais, O Globo [...]”; na análise proposta por Francisco Fonseca (2005, p. 136): “O jornal O Globo tem como característica principal a defesa

inveterada dos governos [...]”; ou ainda (2005, p. 138) “Esse governismo inveterado de O Globo é observável nos mais distintos governos.”

Cabe-nos destacar ainda, ao final da apresentação destes breves históricos, uma perspectiva de análise que irá auxiliar na leitura dos respectivos jornais e que, de alguma forma, dá sentido a todo o conjunto de relações anteriormente apresentadas. Antes de serem compreendidos, simplesmente, como órgãos divulgadores de informações, o EL Universal e O Globo, dentro do contexto político no qual foram gestados e no qual atuam, serão reconhecidos a partir de três pilares básicos, assim caracterizados por Francisco Fonseca (2006, p. 01):

[...] aparelho privado de hegemonia, característica que lhes credencia a disputar a

hegemonia por meio de uma verdadeira ‘guerra de trincheiras ideológicas’; como

empresa capitalista, que objetiva o lucro e portanto faz da notícia mercadoria: há

implicações cruciais aqui, pois os periódicos postulam representar a ‘esfera pública’

quando, na verdade, são representantes de classes sociais dominantes; por fim, atuam, por vezes, como ‘partidos políticos’, ou ‘intelectuais coletivos’, na medida em que procuram organizar e amalgamar os interesses de setores dominantes ou suas frações. [grifo nosso]

Desta forma, reconhecemos que analisar a produção discursiva dos jornais é engendrar uma complexa rede de relações e interesses políticos e econômicos, não sendo possível dissociá-la das relações de poder estabelecidas nas respectivas comunidades, mexicana e brasileira.

1.2 A emergência do EZLN e do MST como representantes dos Novos Movimentos