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2. Background

2.3. Neutrality in the shadow of the First World War (1914-1920)

A face semântica da palavra constitui o objeto de estudo da Lexicologia (BIDERMAN, 2001d). Entretanto, em relação a sua definição, conceitualização e delimitação científico-universal, há um imbróglio linguístico, discutido no VI Congresso Internacional de Linguística, em que se cogitou a extinção definitiva do termo da nomenclatura linguística (BIDERMAN, 2001d). Por outro lado, por tradicionalmente fazer parte do repertório vocabular dos falantes, o termo “palavra” é amplamente utilizado, de modo genérico, até mesmo por especialistas (BEZERRA, 2004).

Acerca desse assunto, Biderman (2001d) faz referência à palavra como “uma realidade psíquica para um homem cuja consciência esteja medianamente desenvolvida” (SAPIR apud BIDERMAN, 2001d, p. 100). Esse saber intuitivo associa-se a fatores psicolinguísticos, em que ainda

no início da consciência semiótica, por exemplo, a criança expressa sentenças completas, utilizando- se de palavras isoladas (BIDERMAN, 2001d).

A palavra é, assim, uma unidade psicolinguística que se materializa no discurso de modo individualizado: “os seus contornos formais situam-na entre uma unidade mínima gramatical significativa – o morfema – e uma unidade sintagmática maior – o sintagma” (BIDERMAN, 2001d, p. 114 -115). É nesse contexto que a autora considera a palavra como uma unidade léxica.

Contudo, há uma impossibilidade de universalização sobre o conceito e a delimitação do que seja palavra. Isso porque a percepção de suas especificidades só é possível dentro da realidade de cada grupo de línguas, perpassando por análises fonológicas, gramaticais e semânticas (BIDERMAN, 2001d). Nessa condição, para Biderman (2001a), a língua é um sistema abstrato em que é possível distinguir nela dois componentes, sendo eles o léxico e a gramática. Assim, as palavras seriam unidades abstratas léxicas que comporiam o sistema linguístico.

Com essa conjuntura, o reconhecimento da palavra em sentido tradicional, que se revela, principalmente, em marcações espaciais, quando estão grafadas, ou nas marcações auditivas, realizadas por pausas, em maior ou menor intensidade, em um contexto de sentidos, constitui uma delimitação simplória e que pode ocultar implicações complexas que nela estão impregnadas. Nessa situação, Bezerra (2004) considera, em um contexto lexicológico, que a unidade do léxico é o item lexical, a unidade do vocabulário é o vocábulo, sendo a palavra um termo genérico, sem rigor científico.

Destarte, a fim de evitar possíveis equívocos e imprecisões sobre a utilização do termo palavra, devido a esse caráter não-científico (BEZERRA, 2004), consideramos, neste estudo, o lexema9 como termo utilizado para designar a unidade léxica abstrata da língua e o vocábulo sendo a utilização desse lexema na enunciação (BIDERMAN, 2001d).

Em relação ao termo lexema, Pottier (1978) o situa dentro dos morfemas lexicais, sendo caracterizados por pertencer a uma classe fracamente acabada e instável. Em contraponto a eles, encontra-se os morfemas gramaticais, que são classes fortemente acabadas e socialmente estáveis, sendo chamados de gramemas.10

9 Os lexemas podem ser distinguidos de duas formas: formas livres (seguindo a nomenclatura de Bloomfield),

sendo eles os substantivos, os adjetivos e os verbos; e formas dependentes, sendo esses os vocábulos-morfemas, tais como “a preposição, os pronomes pessoais, os artigos, as conjunções etc.” (BIDERMAN, 2001d, p. 170).

10 Dentro desse estatuto teórico definido por Pottier (1978), tanto gramema quanto lexema pertencem a um

“conjunto-em-funcionamento”, chamado de taxema e podem ter o seu caráter descritivo e aplicativo. Nessa análise, um taxema gramatical “forma um domínio gramatical ou classe táxica, como o das relações ou das formulações” (POTTIER, 1978, p. 68). Já os taxemas lexicais relacionam-se a um domínio de experiência ligados à “cultura ambiente”.

Pottier (1978) estabelece, ainda, que o termo lexia está em igualdade ao lexema. Entretanto, chamaremos de lexias os lexemas percebidos na realidade discursiva, como direciona Biderman (2001d). Assim, “MENINO” constituiria um lexema, por ser uma unidade léxica abstrata da língua. Quando em uso, por exemplo, “menino”/ “meninos”, trariam para si o caráter de lexia. Nessa proposta, o léxico é o “acervo dos lexemas de uma língua” e o vocabulário é o conjunto de lexias registradas em determinada situação discursiva (BIDERMAN, 2001b, p. 169-170).

Nessa mesma direção, Barbosa (2001, p. 41) considera lexia como a “unidade lexical memorizada e disponível para atualização”. A autora, em sintonia com a terminologia definida por Pottier (1978), decompõe as lexias de acordo com suas características, sinalizando a existência, por exemplo, de lexias simples, grafadas em um único segmento, e complexas, consideradas aquelas que estão em vias de lexicalização. O delineamento de ambas é subjetivo, tendo em vista o caráter produtivo, criativo e mutável do fazer linguístico. Em todo caso, a oposição entre elas se dá pelos “graus de soldadura” (BIDERMAN, 2001b, p. 170 - 172) entre as partes constitutivas que as compõem.

Algumas unidades lexicais se cristalizaram de tal modo que já extrapolaram o caráter de uso como lexias complexas e se categorizaram como lexemas, unidades abstratas da língua. Assim é o caso de “ANTES DE ONTEM, TERÇA-FEIRA, DE SORTE QUE, BOM DIA” etc. Entretanto, graficamente, elas são percebidas como lexias complexas, pois, pela inconsistência do código escrito, ainda são grafadas em mais de um segmento (BIDERMAN, 2001b, p. 170 - 172).

Nessa perspectiva, a lexia complexa pode ainda alcançar, segundo Pottier (1978, p. 270), um nível de enunciado ou texto, formando o que é chamado de lexia textual, em que há a lexicalização de enunciados inteiros, como por exemplo: “hino nacional, prece, tirada, charada, provérbio” (POTTIER, 1978, p. 270).

Dada a diversidade do tema, necessário se faz explicarmos que, para além dessas lexias complexas, há as expressões idiomáticas. Elas são “combinatórias de lexemas que o uso consagrou em uma determinada sequência e cujo significado não é a somatória das suas partes” (BIDERMAN, 2001d, p. 173). Elas são um sintagma léxico que não se pode decompor, com marcas de significação metafórica, como por exemplo: “tirar o pai da forca”, “jogar verde para colher maduro”, “com quantos paus se faz uma canoa” etc. (BIDERMAN, 2001d, p. 173).

Barbosa (2001, p. 42) aborda, ainda, sobre as lexias compostas11. Essas resultam de um processo de integração semântica. Segundo Pottier (1978), ela se manifesta formalmente, por exemplo, em “saca-rolha”, “verde-garrafa”: “A relação pode ser muito estreita entre um lexema e um gramema, a fim de formar um lexema secundário: garfete (que não mais se opõe a garfo), remanejar (= manejar), rematar / matar” (POTTIER, 1978, p. 269).

A fim de melhor visualizar as questões básicas concernentes ao termo palavra e os desdobramentos teóricos relacionados a ela, a figura seguinte resume o construto teórico delineado nesta seção:

Figura 7 – Resumo de algumas concepções terminológicas na Lexicologia

Fonte: elaborado pela autora.

Nesse cenário, a compreensão da multiplicidade de como as lexias se fazem no discurso é relevante para o professor que se propõe a trabalhar com o ensino de vocabulário. Desse modo, a ampliação de considerações sobre os aspectos semânticos dos lexemas12 e das lexias permite que os exercícios sobre antonímia e sinonímia sejam analisados em uma realidade enunciativa de uso discursivo, que ocorre em contextos pancrônicos mutáveis e linguisticamente variados.

11 Compreendemos que existe uma semelhança nas características das lexias complexas e compostas, o que

dificulta delimitar as suas especificidades no contexto semântico. Para o aprofundamento dessa questão, é válida a leitura do artigo “O tratamento das lexias compostas e complexas”, do Prof. Dr. Evandro da Silva Martins (UFU) – disponível em: https://periodicos.ufrn.br/gelne/article/download/9091/6445 (Acesso em set. 2017).

12 Em relação à análise semântica dos lexemas, a sua composição ocorre por meio de traços considerados

distintivos a um conjunto, aos quais são chamados de sema, segundo Pottier (1978). Esses semas podem descrever à natureza da unidade lexical, sendo descritivos, ou, ainda, referir-se a sua função ou a sua destinação, sendo aplicativos (POTTIER, 1978). O conjunto de semas que caracterizam um morfema é denominado de semema, de modo que “a substância do morfema é seu semema” (POTTIER, 1978, p. 69). Por exemplo: “latir tem por semema: {manifestação sonora bucal do cão}, implicando {não para o gato, não para a galinha} nesse conjunto” (POTTIER, 1978, p. 62).

Unidade do léxico: item lexical Unidade do vocabulário: vocábulo

(lexema na enunciação)

Palavra: termo não científico Unidade abstrata léxica

que compõe o sistema linguístico.

Lexema: termo científico

Lexias: unidade léxica

memorizada/ em uso. É a manifestação do lexema.

Lexias simples: MOLEQUES

Lexias compostas/complexas: Pé de moleque (doce)

Lexias textuais: “Deus ajuda quem cedo madruga” (provérbio) Expressões idiomáticas: “Dar com os burros n’água”

Dadas essas considerações sobre a Lexicologia, na próxima seção, tratamos da Lexicografia e suas relações didático-pedagógicas.