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A singularidade do conceito aparece como terceiro momento da estrutura global do conceito, qualificado na sua concretização efetiva. O momento da singularidade pode ser identificado com a negação da negação contida no movimento dialético. Para Thadeu Weber, “a negação da negação engloba, ao mesmo tempo, a afirmação e a negação, revelando o verdadeiro valor de ambas numa forma superior mais cheia de conteúdo. Ou seja, na negação da negação estão afirmação e negação, não simplesmente somadas, mas estão aufgehoben, isto é, negadas, conservadas (guardadas) e elevadas.”25 Como momento sintético da oposição existente entre as categorias conceituais acima elaboradas, a singularidade suprassume as oposições existentes entre a universalidade e a particularidade e as apresenta numa unidade sintética. Se o movimento de passagem da universalidade para a particularidade era dado pela entrada da racionalidade universal na restrição do múltiplo e determinado, a passagem da particularidade para a singularidade representa o movimento inverso de retorno à universalidade, não no nível da sua indeterminação e simplicidade, mas na forma da universalidade concreta. Para Hegel, “a singularidade aparece como reflexão do conceito em

si mesmo a partir da determinação” (WL II, p. 49). Não se trata da singularidade de um indivíduo empírico, mas da totalidade concreta onde a multiplicidade de categorias e estruturas categoriais é estruturada por uma única racionalidade criadora. Para B. Lakebrink, “O singular é o conceito posto na determinação da absoluta negatividade, na qual a radicalidade do universal e do particular chegam ao seu fundamento. Nesta identidade e igualdade consigo, o conceito efetivou e pôs a sua profundeza em si mesmo.”26 O momento também pode ser denominado de negação da negação, ou seja, a particularidade nega a mera transcendentalidade do conceito pela introdução da autofundamentação imanente e a singularidade nega a restrição contida na multiplicidade de um possível isolamento de determinações por uma universalidade concreta estruturada pela intercomunicação das determinações particulares e a reflexividade do todo. A singularidade também pode ser denominada de determinação da determinação, significando a concretização da racionalidade como entendimento do primeiro momento, e a densificação universalizante do segundo movimento de determinação. Este terceiro momento do conceito não caracteriza mais uma inteligibilidade abstrata do momento da universalidade, mas uma universalidade concreta que caracteriza uma totalidade em concretização e autodeterminação. Para Hegel, “mas a singularidade é a negatividade da determinação determinada, a diferenciação como tal, por meio da reflexão da diferenciação se torna algo firme; o determinar da determinação é primeiro por meio da singularidade; ela é abstração, que como singularidade, é abstração posta” (WL II, p. 51). A negatividade instaurada neste momento é a superação da dispersão do entendimento pela especulação da universalidade concreta posta como estrutura de interrelacionalidade do todo. Do ponto de vista lógico, este terceiro momento contém um progressivo desenvolvimento em extensividade, universalidade, inteligibilidade e concreticidade, razão pela qual pode ser denominado como o momento mais rico.

A singularidade do conceito é rica na expressão de sentidos e na constituição de vários movimentos de fundamentação internos. Hegel deixa claro que este momento não se caracteriza por uma totalidade superior que elimina as diferenças e o dinamismo da significatividade, transformando-se numa esfera densa e indiferenciada. A estrutura básica da singularidade é a estrutura dinâmica do todo transformado num sistema que equilibra as diferenças internas. Considerando a estrutura deste terceiro momento, todas as determinações aparecem interrelacionadas e determinadas em seu conjunto pela mediação da universalidade capaz de distribuir ordenadamente as diferenças. Cada determinação contém as outras e a totalidade do sistema como constitutivo seu, ou seja, funciona como ponto de convergência

26 LAKEBRINK, Bernhard. Die Europäische Idee der Freiheit. Hegels Logik und die Tradition der

das múltiplas relações pensáveis em seu interior. O outro elemento constitutivo da estrutura da singularidade é a intra-relacionalidade no sentido de que as determinações se relacionam no interior do conceito, permitindo a constituição de uma totalidade densa e consistente. Este terceiro momento contém a transcendentalidade imanente do universal, ou seja, o universal ultrapassa a concretude até aqui alcançada e prepara a formulação de novas totalidades. O conceito hegeliano não funciona a partir de determinidades isoladas, mas é constituído por uma sistemática de totalidades que circularmente se integram e se sucedem pelo método da supressão das determinações unilaterais. Assim, a inteligibilidade do universal, positivado como totalidade posta, também contém a negatividade que dissolve determinações cristalizadas.

Na mesma estrutura aparecem conjugados dois movimentos que antes estiveram separados. Como a singularidade representa a positividade da totalidade posta e desenvolvida, lá dentro acontecem dois movimentos de fundamentação complementares. Para Hegel, “a universalidade e a particularidade aparecem por um lado como momentos do vir-a-ser da singularidade. Mas como já foi mostrado, como elas são em si a totalidade do conceito, assim como na singularidade não passam em outro, mas por meio disto põem o que são em si e para si” (WL II, p. 49). O primeiro é o de particularização do universal que se diferencia no determinado e limitado, tornando-se ele mesmo algo concreto e localizado. O segundo é o de universalização da particularidade, ou seja, elas alcançam o estatuto da reflexividade e se determinam como totalidade concreta. Dentro da singularidade, as determinações concretas não comportam mais o estatuto de inessencialidade empírica e meramente contingente, mas são elevadas ao estatuto da essencialidade como dimensão fundamental do conceito. Por esta razão, as relações internas à singularidade como totalidade inteligível posta no seu desenvolvimento pleno são conceituais. Esta interrelacionalidade não deve ser confundida com um necessitarismo cego, pois, inserida numa totalidade diferenciada, a determinação específica aparece em sua constituição própria. Na volta ao entendimento ou isolamento das determinações, ali elas aparecem configuradas em sua abstração e imediatez não relacionada. Portanto, as coisas caracterizadoras da multiplicidade alcançam a verdade plena quando integradas no contexto de uma totalidade determinada e internamente interrelacionada. Neste contexto, o que é configurado como determinação, se universaliza e se particulariza ao mesmo tempo, ou seja, significa dizer que começa pelo isolamento, passa pela mediação da totalidade e volta sobre si mesma pela concretude de sua especificidade.

Na singularidade aparece com maior clareza um dos mecanismos lógicos centrais da Lógica do conceito e estendida a todo o sistema. As determinações conceituais (Begriffsbestimmungen) não são simplesmente partes relativas ou aparências superficiais, mas

cada determinação de universalidade, particularidade e singularidade é e exprime o conceito em sua totalidade.27 Neste grau de efetividade, cada determinação suprassume a sua unilateralidade e aparece como totalidade. Do ponto de vista hegeliano, conceito é a sistemática de engendramento da totalidade do universo e o sentido lógico de autodesenvolvimento de cada coisa a partir de sua interioridade. Cada determinação, em sua determinidade, é todas as outras e a totalidade do conceito configurado como singularidade. A universalidade é totalidade porque contém a idealidade e a identidade do conceito consigo mesmo, estendendo esta inteligibilidade às outras determinações conceituais através da autodeterminação interna. Aqui consideramos a idealidade da universalidade como um fluxo de autodeterminação que engendra a diferença interna. Por outro lado, a particularidade deve ser considerada como totalidade porque contém toda a efetividade criativa do conceito, a multidimensionalidade dos sentidos que caracterizam a concretização do conceito. A singularidade28 é considerada como totalidade porque representa o conceito posto na sua universalidade concreta, ou como já foi posto, o momento que reúne a máxima auto- reflexividade e máxima concretude universal. Assim, as três determinações do conceito não são estruturas diferentes e posteriormente agregadas num único sistema, mas três momentos diferenciados do movimento de exposição e autodesenvolvimento do conceito. Cada determinação é limitada porque não é as outras categorias. Mas cada determinação é totalidade porque sua determinidade é ponto de convergência dos vários movimentos de desenvolvimento existentes no conceito, contendo os outros momentos em si. Hegel expressa isto de forma muito condensada:

Se a singularidade está apresentada como uma das determinações particulares do conceito, então a particularidade é a totalidade, que as compreende todas em si; precisamente como esta totalidade, é o concreto daquelas, ou a individualidade mesma. Mas é o concreto também segundo o aspecto observado antes, isto é, como universalidade determinada (WL II, p. 50).

27 “Na seqüência desenvolveremos, como cada das três determinações do conceito, universalidade,

particularidade e singularidade, é todo o conceito. Aqui também se comprova o princípio fundamental da metafísica dialética, segundo a qual o ser em-si e o ser para-si como ser posto e só como ser posto (determinados na forma da universalidade, particularidade e singularidade) do em-si e para-si ou a totalidade é o conceito. Sob este aspecto o terceiro ser posto ou a singularidade recebe uma significação mais relevante.” LAKEBRINK, 1968, p. 409.

28 A exposição destas categorias do conceito carrega uma analogia próxima com a dialética da finitude e da

infinitude que se estende a todo o sistema hegeliano. Um estudo amplo sobre este tema está num livro resultante de um congresso sobre Hegel: MENEGONI, Francesca; ILLETTERATI, Luca (Hg.). Das Endliche

und das Unendliche in Hegels Denken. Stuttgart: Klett-Kotta, 2004. Considerando os artigos constantes neste livro, a temática dominante é a dialética da infinitude e da finitude na Lógica do conceito e na Filosofia do

Ao longo do sistema hegeliano, a singularidade assume um papel muito importante. A filosofia de Hegel é uma filosofia da síntese, da unidade, do sistema, da totalidade. A verdade aparece quando conceitos contrários e contraditórios encontram o caminho da síntese e da unidade superior. No percurso do sistema, acontecem várias sínteses dialéticas, contendo a categoria da singularidade o mecanismo lógico de síntese das várias partes da filosofia e da totalidade da mesma. Para antecipar um problema a ser abordado mais para frente, quando serão identificadas algumas correspondências (Entsprechungen) entre categorias e estruturas lógicas e figurações do real, a singularidade aparece em vários níveis de efetividade ao longo de todo o sistema hegeliano. Dentro da Ciência da Lógica, na doutrina do conceito (Begriffslehre) aparece efetivada no silogismo como unidade de conceito e juízo e na Idéia absoluta como unidade de subjetividade e objetividade. Na Filosofia do Espírito, considerando a parte do espírito objetivo, a singularidade aparece configurada como História Universal, caracterizada como unidade diferenciada de liberdade e diversidade cultural politicamente organizada na estrutura do Estado. Para não identificar todas as formas de singularidade encontráveis no sistema, uma das principais formas aparece na interregionalidade das totalidades de Lógica, Natureza e Espírito, aparecendo o espírito determinado como singularidade, ou seja, como totalidade maior resultante da compenetração da razão teórica e da razão prática. Um outro viés de formulação da categoria da singularidade pode ser feito a partir da individualidade da pessoa concreta. Contrariamente à maioria das interpretações da filosofia hegeliana que sustentam a eliminação do indivíduo29 ao longo do processo, ele ocupa um lugar central na filosofia hegeliana. Não se trata, evidentemente, de um indivíduo abstrato e fechado em sua interioridade, estruturado a partir de uma relação imediata consigo mesmo. Trata-se, muito mais, de um indivíduo que se encontra numa estrutura complexa de relações, cuja individualidade inclui em sua estrutura própria as dimensões que totalizam as relações fundamentais.

Mesmo que Hegel nesta parte de sua Ciência da Lógica não identifique a singularidade com um indivíduo singular, a formulação deste conceito pode ser feita a partir do texto hegeliano. O conceito hegeliano de indivíduo não segue os parâmetros da filosofia analítica segundo a qual o mesmo é constituído por uma estrutura espiritual irredutível diametralmente desproporcional às relações estabelecidas, aparecendo como uma identidade

29 Dentre as muitas referências sustentadoras da eliminação da singularidade individual, incluímos Bourgeois

que defende a Lógica do conceito como inteiramente alheia ao indivíduo singular: “A Lógica do conceito consuma então o sacrifício do sujeito filosofante em favor do objeto que ele pensa: este objeto recebe nele mesmo o poder de identificar sua diferença e sua identidade, ao afirmar-se como a totalidade que é a Idéia; a alienação do sujeito – o filósofo – no objeto –a Idéia – é assim consumada no elemento subjetivo do sentido do absoluto.” BOURGEOIS, 2004, p. 327.

imediata enfraquecedora de qualquer diferença relegada ao segundo plano de uma aparência sem estatuto ontológico. Contrariamente a esta representação do senso comum filosófico, o conceito hegeliano de indivíduo deve ser compreendido a partir de princípios metódicos e conceituais estendidos a todo o sistema filosófico. O conceito hegeliano de indivíduo compreende uma dimensão estrutural de corpo, alma e espírito cuja constituição é diametralmente proporcional à abertura do sujeito a todas as regiões conceituais do sistema com os quais metodicamente se relaciona. Trata-se de um caminho metódico de universalização que começa pela determinação corporal imediata e abstrata e empreende um caminho de universalização e concretização quando o indivíduo se abre constitutivamente às grandes esferas da Natureza e do Espírito. Qualquer determinação estrutural do indivíduo só é possível de ser evidenciada pela correspondência relacional a estruturas da realidade onde o indivíduo se universaliza e se efetiva e, ao mesmo tempo, são interiorizadas reflexivamente pelo sujeito pensante. Por outro lado, ao movimento figurativo de universalização do indivíduo corresponde a figuração inversa de interiorização reflexiva através da qual as estruturas e círculos do sistema são interiorizadas pelo indivíduo e se tornam constitutivas na forma de especulação filosófica e da sua estrutura ontológica. Desta forma, a autodeterminação do indivíduo não apenas consta de uma abertura fundamental ao universo formulado por Hegel em forma de sistema filosófico, mas ele próprio é sistema porque o macrossistema do universo fica ontologicamente concentrado no indivíduo pelas figurações dos movimentos de universalização e interiorização correspondentes.