Soma-se às contribuições de Wierzbicka (1991), Rebello (2002), Caixeta (2005) e demais autores citados nos capítulos anteriores esta definição de Ferreira (1986, p. 635): “emoção. [Do fr. émotion.] S. f. 1. Ato de mover (moralmente). 2. Abalo moral, comoção. 3. Psicol. Reação intensa e breve do organismo a um lance inesperado, a qual se acompanha
dum estado afetivo de conotação penosa ou agradável.” O componente que subjaz às interjeições emocionais é Eu sinto algo.
Veja-se este fragmento de texto para análise:
(37) L1: e:: as moças (quer dizer::)... havia muito mais::... diFIculda::de de um ra// rapaz (era) diFIcilmente um rapaz saía com um moça... era muito difícil... a não ser quando havia muita intimidade... os namorados geralmente namoravam::... ( ) de lon::ge de esquina
L2: [na janela L1: de janela Doc. NO::ssa
L1: [e conversazinha
QUADRO 13: Restrições e argumentos para definição de RRIE — enunciado interjetivo NO::ssa
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIE—NO::SSA
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N Toda a porção anterior à emissão do enunciado interjetivo NO::ssa.
Caracterização A narração de L1 e L2 sobre como era o namoro em suas épocas de adolescentes desencadeia no Doc. uma reação emocional.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo NO::ssa.
Caracterização
O enunciado interjetivo NO::ssa apresenta:
1) marca grafofonêmcia acentuada em virtude da elevação da voz na 1ª sílaba e alongamento da 1ª vogal;
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional capaz de engendrar um turno de fala;
3) significado específico: surpresa.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu estou surpreso.
Julgamento complexo
Eu estou surpreso, porque não tinha conhecimento sobre como era o namoro em época passada.
EFEITO Ato social
performatizado
Manifestar surpresa decorrente do fato narrado por L1 e L2.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que Doc. considere plausível que L1 e L2 percebam a reação emocional de surpresa decorrente da narrativa sobre como era o namoro na época passada.
2) O observador considera plausível que a reação emocional de surpresa de Doc. desperte em L ou em O um julgamento sobre o modo como se namorava em época passada.
3) O observador considera plausível que a reação emocional de surpresa desperte em L ou em O um julgamento sobre o modo como Doc. participa do processo de interlocução.
4) O observador considera plausível que L ou O considerem que a ausência de S não altera o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que L ou O considerem que, por meio de S, Doc. construa uma face de bom ouvinte que contribui com a coconstrução do diálogo.
6) O observador considera plausível que Doc., por meio de S, presentifique, de modo não experiencial, uma emoção de surpresa, percebida ou não por L1 ou L2, sobre o modo como se namorava em época passada.
170
(38) Doc. agora já deu o tempo L2: acabou?
Doc. acabou...
L2: nossa... ((risos)) (CE2).
QUADRO 14: Restrições e argumentos para definição de RRIE — enunciado interjetivo
nossa... ((risos))
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIE—nossa... ((risos))
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N Toda a porção anterior à emissão do enunciado interjetivo nossa... ((risos)).
Caracterização A fala de Doc. sobre o término do depoimento (da gravação) e o consequente diálogo advindo dessa fala desencadeiam em L2 uma reação emocional.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo nossa... ((risos)).
Caracterização
O enunciado interjetivo nossa... ((risos)) apresenta: 1) baixo relevo entoacional, mas seguido de recursos cinésico, como a indicação ((risos));
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional capaz de engendrar um turno de fala;
3) significado específico: lamentação.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu me sinto lamentoso.
Julgamento complexo
Eu me sinto lamentoso, porque não posso continuar meu depoimento.
EFEITO Ato social
performatizado
Demonstar lamento ou queixa decorrente do encerramento do depoimento.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que L2 considere plausível que Doc. perceba a reação emocional de lamento decorrente do encerramento do depoimento.
2) O observador considera plausível a reação emocional de lamento de L2 desperte em L ou em O um julgamento sobre a atitude de Doc. encerrar o depoimento.
3) O observador considera plausível que a reação emocional de lamento desperte em L ou em O um julgamento sobre o modo como L2 participa do processo de interlocução.
4) O observador considera plausível que L ou O considerem que a ausência de S não altera o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que L ou O considerem que, por meio de S, L2 construa uma face de bom informante que contribui com a coconstrução do diálogo.
6) O observador considera plausível que L2, por meio de S, presentifique, de modo não experiencial, uma emoção de lamento, percebida ou não por Doc., sobre o encerramento do depoimento.
A seguir, um fragmento de texto para análise. Veja-se:
(39) Doc.: e quais os pratos que você conhece que são feitos à base da pesca?
Inf.: IH:: acho que eu não conheço NAda minha filha sou uma nulidade nesses assuntos porque eu não gosto e eu não::.. nem procuro tomar conhecimento disso viu?... (CE20).
QUADRO 15: Restrições e argumentos para definição de RRIE — enunciado interjetivo IH::
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIE— IH::
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N
acho que eu não conheço NAda minha filha sou uma nulidade nesses assuntos porque eu não gosto e eu não::.. nem procuro tomar conhecimento disso viu?...
Caracterização A reação emocional de Inf. decorre de seu desconhecimento sobre pratos feitos à base da pesca, mesmo apresentando uma justificativa para tal fato.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo IH::
Caracterização
O enunciado interjetivo IH:: apresenta:
1) marcas grafofonêmicas: elevação da voz e alongamento da vogal;
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional completa;
3) significado específico: lamentação.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu me sinto lamentoso.
Julgamento complexo
Eu me sinto lamentoso, porque desconheço pratos feitos à base da pesca.
EFEITO Ato social
performatizado
Demonstrar lamento decorrente do desconhecimento de pratos feitos à base da pesca.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que Inf. considere plausível que Doc. perceba a reação emocional de lamento decorrente do desconhecimento de pratos feitos à base da pesca. 2) O observador considera plausível que a reação emocional de lamento de Inf. desperte em L ou em O um julgamento sobre o desconhecimento de Inf. sobre pratos feitos à base da pesca.
3) O observador considera plausível a reação emocional de lamento desperte em L ou em O um julgamento sobre o modo como Inf. participa do processo de interlocução.
4) O observador considera plausível que L ou O considerem que a ausência de S não altera o conteúdo informativo de N.
172
(Continuação do Quadro 15):
5) O observador considera plausível que L ou O considerem que, por meio de S, Inf. construa uma face de informante comprometido que contribui com a coconstrução do diálogo.
6) O observador considera plausível que Inf., por meio de S, presentifique, de modo não experiencial, uma emoção de lamento, percebida ou não por Doc., sobre o desconhecimento de pratos feitos à base da pesca.
Veja esta carta para análise:
(40) Uma amiga e eu tentamos ligar para o 180. Depois da gravação avisando que era a Central de Atendimento à Mulher da Secretaria da Mulher da Presidência da República, ufa!, uma mocinha atendeu. Ela queria, além dos meus dados, o nome do agressor, o nome da agredida, o endereço detalhado... E eu sei? (CJ13).
QUADRO 16: Restrições e argumentos para definição de RRIE — enunciado interjetivo ufa!
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIE— ufa!
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N Depois da gravação avisando que era a Central de
Atendimento à Mulher da Secretaria da Mulher da Presidência da República
Caracterização O término do aviso em que uma voz informa o nome extenso da Central de Atendimento à Mulher
da Secretaria da Mulher da Presidência da República provoca em A uma reação emocional.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo ufa!
Caracterização
O enunciado interjetivo ufa! apresenta:
1) marca grafofonêmica em virtude do sinal de exclamação;
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional completa;
3) significado específico: alívio.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu me sinto aliviada.
Julgamento complexo
Eu estou aliviada, porque a voz da gravação
terminou de falar o nome da “Central de
Atendimento à Mulher da Secretaria da Mulher da Presidência da República”.
EFEITO Ato social
performatizado
Demonstrar alívio decorrente do término do aviso gravado.
(Continuação do Quadro 16):
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que A considere plausível que L perceba a reação emocional de alívio decorrente do encerramento do aviso gravado.
2) O observador considera plausível que A considere plausível que a sua reação emocional de alívio desperte em L um julgamento sobre a extensão do nome da Central, que, ao ser proferido, gera a demora ao atendimento da ligação.
3) O observador considera plausível que a reação emocional de alívio desperte em L um julgamento sobre o modo como A apresenta os fatos e se posiciona sobre eles.
4) O observador considera plausível que A considere plausível que a ausência de S não altera o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que A considere plausível que S contribua com a construção e com a recepção do esquema argumentativo.
6) O observador considera plausível que A, por meio de S, presentifique, de modo não experiencial, uma emoção de alívio, percebida ou não por L, sobre o encerramento do aviso gravado.
A seguir, um fragmento de texto para análise.
(41) Virgília afastou-se, e foi sentar-se no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés. Devia sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgília, que lá estava sentada e calada. Céus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgília. Em vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença; nenhum havia; era a pele fina e branca do costume. — Nunca me viu? perguntou Virgília, vendo que a encarava com insistência.
— Tão bonita, nunca. (R4).
QUADRO 17: Restrições e argumentos para definição de RRIE — enunciado interjetivo Céus!
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIE— Céus!
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgília. Em vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença; nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.
Caracterização Virgília fresca, juvenil e florida, com a pele fina e branca de costume e sem apresentar vestígios de doença desencadeia no personagem uma reação emocional.
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(Continuação do Quadro 17):
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo Céus!
Caracterização
O enunciado interjetivo Céus! Apresenta:
1) marcas grafofonêmicas em virtude do sinal de exclamação;
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional completa;
3) significado específico: surpresa.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu estou surpreso.
Julgamento complexo
Eu estou surpreso, porque esperava que Virgília estivesse doente, mas a vejo fresca, juvenil e florida, com a pele fina e branca de costume e sem apresentar vestígios de doença.
EFEITO Ato social
performatizado
Demonstrar surpresa decorrente do modo como se encontra a personagem Virgília.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que A considere plausível que L perceba a reação emocional de surpresa do personagem-narrador em relação ao modo como se encontra a personagem Virgília.
2) O observador considera plausível que a reação emocional de surpresa do personagem- narrador desperte em L um julgamento sobre o modo como se encontra a personagem Virgília.
3) O observador considera plausível que A considere plausível que L considere plausível que a reação emocional de surpresa do personagem-narrador seja uma estratégia de A, mediado por uma narrador, para caracterizar o modo como o personagem se comporta diante da mudança do estado de saúde da personagem Virgília.
4) O observador considera plausível que L considere que a ausência de S não altere o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que a ausência de S interfira na estratégia narrativa intencionada por A.
6) O observador considera plausível que A, por meio de S, considere plausível que o personagem-narrador presentifique, de modo não experiencial, uma emoção, percebida ou não por L, sobre o modo como se encontra a personagem Virgília.
As análises de (37), (38), (39), (40) e (41) permitem algumas observações acerca das manifestações interjetivas emocionais. O ouvinte, numa situação de oralidade, ou o leitor,
numa situação de escrita, devem perceber na interjeição emocional um caráter de signo icônico, indicial e simbólico – icônico, porque a emissão da interjeição emocional é a própria emoção em acontecimento; indicial, porque a emissão da interjeição emocional sinaliza uma reação despertada que mantém uma relação causal com o estado interno do sujeito interjetivo; simbólico, porque a interjeição emocional, para que gere um significado, subordina-se a convenções sociais e culturais. Desse modo, pode-se dizer que uma interjeição não é uma palavra, mas um enunciado, que se inscreve semioticamente como parte de uma situação sociocomunicativa. Há uma relação de contemporaneidade entre a emissão da interjeição emocional e o que ela indica, sugere ou simboliza, numa dada situação sociocomunicativa.
A semioticidade das interjeições emocionais gera, nas trocas comunicacionais em que elas se inserem, uma expressividade bem marcada capaz de envolver o interlocutor ou o leitor. Essa expressividade advém, sobretudo, do relevo emocional, por meio de marcas grafofonêmicas ou de sinalizações paralinguísticas ou cinésicas, e do caráter de rubrica do julgamento complexo. A tradução metalinguística das reações emocionais, como <estou espantado com isso que está narrando>, faz com que a emoção se separe da emoção que é concretamente sentida. Essa tradução geraria uma simulação emocional. O relevo emocional e o caráter de rubrica das interjeições, sobretudo das emocionais, contribui para assegurar o envolvimento entre os interactantes. O ato de performatização que as interjeições emocionais instauram pouco ou nada contribui com o conteúdo informativo da porção nuclear; no entanto, a ausência delas pode interferir no fluxo conversacional ou na progressão textual.
As manifestações interjetivas, como satélites de uma relação retórica do tipo núcleo- satélite, compreendidas pelo estado mental Eu sinto algo., são capazes de encapsular emocionalmente a porção nuclear. O satélite interjetivo emocional, na sua relação com a porção nuclear, não informa o vivido; ele exprime, diretamente, o que o sujeito interjetivo vive. As manifestações interjetivas emocionais são, portanto, não experienciais.
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