Soma-se às contribuições de Wierzbicka (1991), Rebello (2002), Caixeta (2005) e demais autores citados nos capítulos anteriores esta definição de Ferreira (1986, p. 1317): “persuasão. [Do lat. persuasione.] S. f. 1. Ato ou efeito de persuadir(-se). 2. Convicção, certeza. [...]”. Estão implícitas, nesta definição, as ações de levar a crer ou a aceitar, de determinar a vontade de, de convencer e induzir. O componente que subjaz às manifestações interjetivas persuasivas é Eu (não) quero que você faça isso.
Veja-se este fragmento para análise:
(52) O Brasil é uma democracia jovem. Com base nesse argumento, temos tolerado durante anos o que todos veem mas fingem não ver. Nesta semana meu senso de tolerância chegou ao limite. A revista VEJA noticiou a mais “nova” empreitada de nosso governo. Coloco a palavra nova entre aspas porque o fato vem se desencadeando desde 2008, mas somente agora veio a público. A verdade é que, antes de deixar o cargo, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu via BNDES — banco que deveria priorizar o desenvolvimento nacional — um empréstimo quase
bilionário à Cuba dos irmãos Castro para a construção de um porto. Não fosse suficiente o fato de terem concedido esse empréstimo aos cubanos, a certeza de que não pagarão a dívida e que esse dinheiro ficará como uma doação carinhosa dos brasileiros aos cubanos, o então ministro de Comércio Exterior ainda determinou que tal transação fosse mantida em “sigilo” até 2027. Basta! Isso para mim é intolerável. Onde vamos parar? (CL8).
QUADRO 28: Restrições e argumentos para definição de RRIP — enunciado interjetivo Basta!
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIP — Basta!
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N Toda porção textual anterior ao enunciado interjetivo Basta!.
Caracterização O modo como questões políticas e econômicas são tratadas no Brasil desencadeia em A uma reação emotiva.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo Basta!.
Caracterização
O enunciado interjetivo Basta! apresenta:
1) marca grafofonêmica em virtude do sinal de exclamação;
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional completa;
3) significado específico: ordem.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu ordeno que as ilicitudes na política e na economia do Brasil sejam suspensas.
Julgamento complexo
Embora o Brasil seja uma democracia jovem, já se notam ilicitudes na política e na economia. Um exemplo disso é o modo como foi feito um empréstimo milionário à Cuba. As ilicitudes devem ser suspensas.
EFEITO Ato social
performatizado
Ordenar que atos ilícitos na política e na economia brasileira sejam suspensos.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que A considere plausível que L perceba a reação emotiva de ordem de que sejam suspensas as ilicitudes na política e na economia brasileira. 2) O observador considera plausível que A considere plausível que a sua reação emotiva de ordem desperte em L um posicionamento acerca das ilicitudes na política e na economia brasileira.
194
(Continuação do Quadro 28):
3) O observador considera plausível que a reação emotiva de ordem desperte em L uma avaliação sobre o modo como A apresenta os fatos e se posiciona sobre eles.
4) O observador considera plausível que L considere que a ausência de S não altere o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que A considere plausível que S contribui com a construção e com a recepção do esquema argumentativo.
6) O observador considera plausível que A, por meio de S, ordene, emotivamente e de modo experiencial, que as ilicitudes na política e na economia do Brasil sejam suspensas.
Segue-se este texto para análise:
(53) O posicionamento claro do economista José Alexandre Scheinkman deveria ser diretriz de agenda presidencial. Acorda, Brasil! (CL6).
QUADRO 29: Restrições e argumentos para definição de RRIP — enunciado interjetivo
Acorda [...]!
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIP— Acorda [...]!
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N O posicionamento claro do economista José Alexandre Scheinkman deveria ser diretriz de agenda presidencial.
Caracterização O fato de o posicionamento claro do economista José Alexandre Schienkaman não ser diretriz da agenda presidencial desencadeia em A uma reação emotiva.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo Acorda [...]!.
Caracterização
O enunciado interjetivo Acorda [...]! apresenta: 1) marca grafofonêmica em virtude do sinal de exclamação.
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional completa.
(Continuação do Quadro 29):
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu ordeno que o Brasil fique atento à agenda econômica presidencial em vigor.
Julgamento complexo
Eu quero que o Brasil desperte para o fato de que a agenda econômica presidencial em vigor não é clara; seria clara se adotasse o posicionamento do economista José Alexandre Schienkaman.
EFEITO Ato social
performatizado
Ordenar que o Brasil desperte sua atenção para com a agenda econômica presidencial atual.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que A considere plausível que L perceba a reação emotiva de ordem ao Brasil, para que ele desperte sua atenção para com a agenda econômica presidencial atual.
2) O observador considera plausível que A considere plausível que a reação emotiva de ordem desperte em L o desejo de que o Brasil acorde em relação à agenda econômica presidencial atual.
3) O observador considera plausível que a reação emotiva de ordem desperte em L uma avaliação sobre o modo como A apresenta os fatos e se posiciona sobre eles.
4) O observador considera plausível que L considere que a ausência de S não altere o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que A considere plausível que S contribui com a construção e com a recepção do esquema argumentativo.
6) O observador considera plausível que A, por meio de S, ordene, emotivamente e de modo experiencial, que o Brasil fique atento à agenda econômica presidencial atual.
Observe-se este texto para análise:
(54) J. R. Guzzo declara o sentimento de uma parcela da população que clama por algo além dos “benefícios sociais” tão propagados pelo governo. Os petistas pregam a “moral do senhor”, citada por Nietzsche. É aquela a ser seguida e imposta, que mostra o que é bom, verdadeiro e belo. As manifestações representam, na atualidade, o desvio dessa moral. Ainda há esperança. Avante, Brasil! (CL13).
196
QUADRO 30: Restrições e argumentos para definição de RRIP — enunciado interjetivo
Avante [...]!
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIP— Avante [...]!
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N Toda a porção textual anterior ao enunciado interjetivo Avante [...]!.
Caracterização As manifestações populares que representam um desvio à moral pregada pelos petistas desencadeiam em A uma reação emotiva.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo Avante [...]!.
Caracterização
O enunciado interjetivo Avante [...]! apresenta: 1) marca grafofonêmica em virtude do sinal de exclamação;
2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional completa;
3) significado específico: ordem.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu ordeno que o Brasil avance politicamente.
Julgamento complexo
Eu quero que o Brasil avance, porque uma parcela da população deseja mais do que os “benefícios sociais” propagados pelo governo petista, que prega uma moral que deve ser seguida.
EFEITO Ato social
performatizado
Ordenar que o Brasil avance.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que A considere plausível que L perceba a reação emotiva de ordem de que o Brasil avance
2) O observador considera plausível que A considere plausível que a sua reação emotiva de ordem desperte em L o desejo de que o Brasil avance.
3) O observador considera plausível que a reação emotiva de ordem desperte em L uma avaliação sobre o modo como A apresenta os fatos e se posiciona sobre eles.
4) O observador considera plausível que L considere que a ausência de S não altere o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que A considere plausível que S contribui com a construção e com a recepção do esquema argumentativo.
6) O observador considera plausível que A, por meio de S, ordene, emotivamente e de modo experiencial, que o Brasil avance.
A seguir, um fragmento de texto para análise.
(55) Pela enésima vez, escrevo sobre isso. Que tal nosso medíocre governo isentar de impostos o ABS e o airbag e torná-los obrigatórios em todos os carros fabricados no país e nos importados também? Que tal — melhor ainda! — criar condições para que se instalem no país fabricantes desses equipamentos, que — pasmem! — ainda são importados? Basta qualquer gênio de qualquer órgão do poder público fazer as contas para constatar que sai mais barato renunciar aos impostos do que pagar pensões, auxílios-doença, internações, próteses, enterros etc. (AO13).
QUADRO 31: Restrições e argumentos para definição de RRIP — enunciado interjetivo
pasmem!
RESTRIÇÕES E ARGUMENTOS PARA DEFINIÇÃO DE RRIP— pasmem!
RESTRIÇÕES
SOBRE N
Porção N Que tal criar condições para que se instalem no país fabricantes desses equipamentos, que — [...]— ainda são importados?
Caracterização O fato de no Brasil não se fabricarem ABS e airbag, devendo-se importá-los, desencadeia em A uma reação emotiva.
RESTRIÇÕES
SOBRE S
Porção S O enunciado interjetivo pasmem!.
Caracterização
O enunciado interjetivo pasmem! apresenta:
1) comportamento parentético e marca grafofonêmica em virtude do sinal de exclamação; 2) autonomia comunicativa por caracterizar-se como uma unidade informacional completa;
3) significado específico: ordem.
RESTRIÇÕES
SOBRE N + S
Estado mental Eu ordeno que o leitor fique pasmado.
Julgamento complexo
Eu quero que o leitor, assim como eu, fique pasmado, porque, no Brasil, não se fabricam ABS e
airbag.
EFEITO Ato social
performatizado
Ordenar que os leitores fiquem pasmados em função do fato de que, no Brasil, não se fabricam ABS e
airbag.
ARGUMENTOS
1) O observador considera plausível que A considere plausível que L perceba a reação emotiva de ordem decorrente do fato de que, no Brasil, não se fabricam ABS e airbag.
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(Continuação do Quadro 31):
2) O observador considera plausível que A considere plausível que a sua reação emotiva de ordem desperte em L a sensação de pasmo pelo fato de, no Brasil, se não fabricam ABS e
airbag.
3) O observador considera plausível que a reação emotiva de ordem desperte em L uma avaliação sobre o modo como A apresenta os fatos e se posiciona sobre eles.
4) O observador considera plausível que L considere que a ausência de S não altere o conteúdo informativo de N.
5) O observador considera plausível que A considere plausível que S contribui com a construção e com a recepção do esquema argumentativo.
6) O observador considera plausível que A, por meio de S, ordene, emotivamente e de modo experiencial, que o leitor fique pasmado sobre o fato de que, no Brasil, não se frabicam ABS e airbag.
Das análises de (52), (53), (54) e (55) depreendem-se algumas observações acerca das manifestações interjetivas persuasivas. Essas interjeições são da ordem do emotivo e estão voltadas diretamente para um destinatário. O falante interjetivo reage a um fato que desencadeia nele um apelo de valor conativo. Essa reação interjetiva persuasiva não é uma mera reação súbita de emoção; é uma reação de natureza experiencial, uma vez que o falante interjetivo pretende afetar com intenção o seu destinatário. A marca linguística principal das manifestações interjetivas persuasivas é verbo no modo imperativo.
As manifestações interjetivas persuasivas são signos essencialmente indiciais e simbólicos. O falante interjetivo sinaliza ou aponta uma direção para o destinatário. Essa direção é moldada por aspectos sociais amplos e é recebida em conformidade com esses mesmos aspectos — tanto o falante interjetivo quanto o seu destinatário são sujeitos sociais subordinados a determinadas regras e convenções. As manifestações interjetivas persuasivas pouco ou nada contribuem com o conteúdo informativo da porção nuclear; no entanto, sem a performatização delas, o fluxo conversacional ou a progressão textual sofreria interferências.
Compreendidas pelo estado mental Eu (não) quero que você faça algo, as manifestações interjetivas persuasivas como satélites de uma relação retórica do tipo núcleo-
satélite promovem uma encapsulação emotiva da porção nuclear. O satélite interjetivo persuasivo, na sua relação com a porção nuclear, não exprime, diretamente, o que o falante interjetivo vive, mas informa acerca de uma ordem imposta pelo falante interjetivo a um destinatário.