4 Aktiviteter og gjennomføring
4.1 Nettverksarbeid og kompetanseutvikling
4.1.1 Nettverksarbeidet
Todos os movimentos de rock foram marcados por um tipo de atitude de rebeldia, seja por parte dos artistas de maior visibilidade, seja pelo público que os consumia. Em Fortaleza, o discurso dos roqueiros também é pautado nessa rebeldia, mas esse elemento vem associado a outro: a inadequação.
É comum verificar que os roqueiros atribuem a si mesmos algum tipo de singularidade e a sensação de estarem “desconectados” do mundo, de se enxergarem como diferentes, facilitando a divisão do social entre “nós” e “eles”, que será marcante nas falas exibidas.
Essa atribuição não se restringe a Fortaleza. Em vez de inadequação, Machado Pais (2006) usa “dissidência” para se referir à característica fundamental dos movimentos relacionados ao rock.
Todas as correntes do rock (...) procuraram, no entanto, algum tipo de singularização, por simbólica que fosse. Com efeitos, jovens desses grupos actuavam como bricoleurs, apropriando-se de características que integravam num universo simbólico que lhes permitia subverter sua significação original (...). Esses movimentos podem ser olhados como dissidentes – ao oporem-se, continuamente, ao que os nivelava e uniformizava –, mas nessas dissidências encontramos permanentes convergências. (IDEM, p. 30).
O autor ressalta que essas “identidades dissidentes” buscam a singularidade, se associando a identificações territoriais, visuais e musicais. É relativamente fácil perceber como os roqueiros de Fortaleza procuram signos de singularização por meio não só da sonoridade que escutam/tocam, mas também por meio do visual e dos locais que frequentam. Os metaleiros com suas roupas pretas, correntes e cabelos longos; os alternativos com suas roupas coloridas, extravagantes e sobrepostas; todos se destacam em meio à multidão.
O modo como aparecem no espaço público também é singular, haja vista que se instalam em praças – como a da avenida 13 de Maio, do bairro Henrique Jorge ou da Praça Portugal – e promovem shows/festas em locais dotados de características particulares. Como será demonstrado no Capítulo 05, os espaços roqueiros muitas vezes são construções velhas, escuras e sujas ou estão localizados em vizinhanças assim.
Pode-se pensar, também, em como os roqueiros se apropriam de símbolos preexistentes para ressignificá-los de modo a demonstrar oposição à sociedade ou às suas instituições. É o caso dos símbolos religiosos que os
metaleiros usam à profusão: cruzes, imagens de anjos e demônios etc.
Entre os alternativos, a utilização exagerada do componente visual também pode ser entendida como apropriação de símbolos do cotidiano e sua transformação em afronta. Além disso, nota-se pelas narrativas descritas que esses signos têm destaque na vida cotidiana dos sujeitos, constituindo-se em práticas que se rotinizam.
Assim, o ser roqueiro se consolida como aquilo que Goffman (1988) chama de comportamento desviante: “o desvio apresentado pelos indivíduos que voluntária e abertamente se recusam a aceitar o lugar social que lhes é destinado”. (IDEM, p. 153). Os sujeitos dessa prática são os desfiliados, “pessoas consideradas engajadas numa espécie de negação coletiva de ordem social”. (IDEM, p. 155). Entre os desfiliados exemplificados pelo autor, estão os músicos de jazz, mas, quanto aos roqueiros pode-se pensar não somente nos
artistas, mas no público também.
“Ser rebelde”, afirmar-se como outsider e manter o discurso de inadequação não se apresentam somente como signos acessados pelo roqueiro, mas, antes de tudo, constituem estilo de vida, firmado a partir do universo simbólico elaborado ao longo das gerações que produziram e consumiram o rock.
Os jovens dos agrupamentos de Fortaleza firmam-se mediantes signos comuns não somente aos indivíduos imediatamente próximos, mas também a “um todo” maior que é o “universo” do rock, bem como à sua movimentação no espaço público da Cidade ocorrente por meio da rede roqueira.
A união entre esses indivíduos e a “identificação maior” estão tão ligadas a processos de âmbito global que se convertem em estilo de vida. Afinal,
metaleiros e alternativos existem – guardadas as devidas proporções e
especificidades locais – na maior parte do mundo, especialmente em metrópoles.
Giddens (2002) ajuda a entender não somente o que representa esse
estilo de vida, mas ainda como ocorre a conexão entre estes e o modus operandi dos roqueiros de Fortaleza e sua identificação. Para o autor,
Um estilo de vida pode ser definido como um conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo abraça, não só porque essas práticas preenchem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma narrativa particular da auto- identidade. (p. 79).
A autoidentidade é, para ele, um conceito no qual se percebe o “eu” como agente relativamente autônomo, dispersando qualquer perspectiva de
entidade passiva ou de algo determinado pelas influências externas. Ao contrário,
Ao forjar suas auto-identidades, independente de quão locais sejam os contextos específicos da ação, os indivíduos contribuem para (e promovem diretamente) as influências sociais que são globais em suas conseqüências e implicações. (IDEM, p. 09).
De acordo com Giddens, como expressão da autoidentidade, o estilo de
vida é um conjunto de práticas rotinizadas que influenciam desde vestuário e
linguagem até a frequência a determinados lugares para se encontrar com amigos. Essas práticas trazem consigo algo de “dever ser”, como se expressa por meio dos modelos de ser roqueiro. É essa característica, por exemplo, que faz Goffman (1988) considerar os alcoólicos anônimos “quase que um estilo de vida” (IDEM, p. 31), porque têm regras de conduta bem definidas.
Desta perspectiva, pode-se perceber que os jovens estudados neste trabalho possuem não somente um estilo de vida roqueiro, assim como a própria conduta em seus agrupamentos também o é.
Como aspecto da contemporaneidade, Giddens (2002) põe os estilos de vida como opções do indivíduo em meio a várias escolhas. O autor rejeita a pretensa “inocência” do indivíduo dentro do processo social, como é por vezes descrito em alguns estudos sociológicos. Como ser racional e posto no âmbito de abundância de informações dos dias atuais, o ser humano percebe o meio onde se insere e faz uso mais ou menos consciente de sua atuação perante diversas instâncias sociais.
O autor ressalta: “começamos com a premissa de que ser humano é saber, quase sempre, em termos de uma descrição ou outra, tanto o que se está fazendo como por que se está fazendo”. (IDEM, p. 39). Desse modo, um jovem fortalezense se assumir metaleiro e sair por aí vestido de preto é um ato consciente. O sujeito sabe que sua atitude vai causar estranheza dentro do ambiente social mais próximo (como a família, por exemplo) e os conflitos inerentes ao ato (inclusive violência policial90) e, no caso específico do rock, vê
essa situação outsider com “bons olhos”. Da mesma forma, sabe que é preciso, por vezes, criar situações de mediação de conflito ou ceder às pressões.
Exemplo disso foi presenciado em meio à conversa da roda de jovens na fila da bilheteria do último dia do Forcaos 2007. Cinco rapazes conversavam sobre vários assuntos e um afirmou aos demais, com “ar de triunfo”, que havia ido à igreja “com uma camisa do Eddie com o rosto todo costurado”91. Esse ato
de “rebeldia juvenil” é inteiramente consciente por parte do jovem: sua fala dá a entender que não é sempre que vai vestido assim ao culto religioso, mas aquele ato específico foi premeditado para causar algum tipo de mal-estar ou afronta. A transgressão inclusive é motivo de orgulho.
Na medida em que essas “transgressões” e “rebeldias” associadas ao
rock se estabelecem como estilo de vida, começam a organizar a trajetória do
sujeito que elabora um calendário particular relacionando aspectos globais com a vivência cotidiana. Por isso, existem aqueles que relacionam sua “entrada no mundo metaleiro” por meio da vinda da banda estadunidense Kiss ao Brasil, em 1983. Do mesmo modo, outro mais jovem, lembra-se de sua primeira ida a um show no Casarão do Rock em Fortaleza à ocorrência do terceiro Rock In Rio em 200192.
Para Giddens (2002), os estilos de vida são ambientes institucionais: ajudam a dar forma às ações dos indivíduos, aumentam sua importância no tecido social contemporâneo e os situam como efeitos de consequências globais, mesmo que sua atuação ocorra no plano estritamente local, como os roqueiros do bairro Henrique Jorge organizando shows para se divertir nos fins de semana.
O autor dá ênfase ainda ao fato de que os estilos de vida tendem a se manifestar em situações socioeconômicas desfavoráveis tanto quanto no contrário. Isso faz pensar no modo como as periferias de Fortaleza abrigam algumas movimentações em torno do rock, dezenas de bandas e boa parte dos eventos do gênero, conforme será discutido no próximo capítulo.
91 Eddie é um monstro que aparece na capa de todos os álbuns da banda britânica de heavy
metal Iron Maiden.
92 Respectivamente, os entrevistados Adjacy Farias e Franzé Bezerra (no primeiro caso) e
Não existe, no entanto, apenas um estilo de vida roqueiro, mas um conjunto de práticas que se combinam e se comungam de diferentes modos, formando, portanto, os diversos “estilos” do rock por meio dos agrupamentos. Estes mantêm determinados conteúdos em comum que os interligam ao “universo” do rock, guardando, em contrapartida, relativa autonomia e vários elementos de distinção. Postos lado a lado, metaleiros e alternativos podem parecer bem diferentes, mas, analisados profundamente, mostram como partilham do mesmo estilo de vida, apenas ressaltando aspectos diferenciados. É importante, todavia, notar que esse estilo de vida se conecta a outros processos sociais. Neste caso, também se relacionam a outro “universo” de significações próprias com os quais guardam muitas proximidades: a cultura juvenil.
Por isso, rock e juventude são dois elementos muito ligados e este último merece ser analisado mais profundamente.