3 Et teoretisk rammeverk for skoleendring
3.3 Nettverket som middel for skoleutvikling og kompetanseutvikling
A imagem de roqueiro aparece sempre vinculada à rebeldia juvenil e ao combate ao “sistema”. Esse discurso foi feito em âmbito global ao longo da história do gênero nos países que eram seus principais exportadores – Estados Unidos e Inglaterra – e mantêm-se ainda nos dias de hoje.
A literatura sobre o rock (MUGGIATI, 1983; BRANDÃO & DUARTE, 1992; e FRIEDLANDER, 2002) lista inúmeros exemplos da “rebeldia” do rock, dentre outros, o conteúdo crítico das letras de Bob Dylan e seu envolvimento com os movimentos dos direitos civis nos EUA; o discurso quase sempre ligado
69 Outra emissora local, transmitida via Canal 54 e especializada na veiculação de videoclipes,
às esquerdas das letras de Neil Young, Roger Waters (do Pink Floyd), Bruce Springsteen, Zack de la Rocha (Rage Against the Machine); a campanha de John Lennon (dos Beatles) contra a Guerra do Vietnã; o atual envolvimento de Bono Vox (do U2) com causas sociais; a organização de concertos beneficentes como o Live 8 (em 2005, contra a reunião do G8 e a favor da anulação das dívidas dos países pobres) etc.
Por isso, o papel do “astro do rock” assume contornos de “guia inspirador” de atitudes que, de um modo ou de outro, são seguidas por seus fãs. Na visão dos próprios roqueiros desse tipo, este papel é quase um “dever ser”.
Todo artista tem um papel a cumprir, seja no sentido de combater aquilo que critica, seja no ato de despertar a consciência das pessoas. Se eles puderem usar essa influência para divulgar boas causas, tanto melhor, mas não se pode atribuir-lhes o papel de gurus (Paul McCartney em depoimento divulgado na revista VEJA, setembro de 2003, p. 116).
A atitude rebelde do “universo roqueiro” põe-no em choque com várias instâncias da sociedade. Encontrei, por exemplo, na mesma revista Veja, outras duas matérias nas quais se fazem críticas a determinados roqueiros justamente porque eram “militantes” de determinadas causas70.
Como já escrito, o caráter “de raiz” dos gêneros musicais que deram origem ao rock conferiu “ares” de transgressão desde o início, o que foi explorado pela juventude da época e particularmente pela dos anos 1960.
Como gênero musical, o rock nasce em contexto específico, numa época repleta de movimentos artísticos de contraposição à “ordem estabelecida”, tanto no que diz respeito à própria arte quanto aos padrões morais das sociedades ocidentais71.
70 Casos de Neil Young em Veja (15/05/06) e Chrissie Hynde (The Pretenders) em Veja
(17/09/03).
71 No mesmo sentido, também surgiram a literatura beatnick, o existencialismo, a pop art, a
música de vanguarda, a nouvelle vague do cinema francês, o cinema novo brasileiro, o tropicalismo e muitos outros. Esse conjunto de expressões artísticas de contestação e oposição à “velha ordem” é reunido no conceito de contracultura que, segundo Roszak (1972), eram sintomas de profundas mudanças sociais nas sociedades industriais do Ocidente.
O rock desempenha papel tão importante nesse contexto, transformando-se em cultura própria de contestação, que, apesar de alimentada pela música, não se restringe somente a ela. A intrínseca relação com a juventude serve para deixar o rock na condição de veículo das manifestações juvenis de cunho contestatório, artístico, social e político.
No contexto da década de sessenta, o rock deixa de ser somente um gênero da música popular que (...) expressava simbolicamente os conflitos entre as gerações, sobretudo, aqueles relativos à renúncia dos jovens de adentrar no “mundo adulto”.
(...) De fato, a década de sessenta, principalmente em sua segunda metade, ficou marcada na história do século XX como um momento no qual a possibilidade de uma “revolução juvenil” obteve seu maior êxito, apesar de não ter realmente acontecido (SARLO, 1997, p. 28).
Opinião similar é compartilhada por Hobsbawm (1999) e Morin (1999), que afirmam ter sido a juventude quem liderou a maioria daqueles novos movimentos de contestação artística, o que, tendo em vista o impacto dos diversos fatos dos anos 1960, demonstra a emergência dos jovens como agentes sociais relevantes.
Por isso, Morin (1999) diz que os meados do século XX viram nascer um
movimento cultural de juventude, transformando os jovens em uma nova classe
social, que chama de classe de idade. Para o autor, a adolescência é fase em que os valores da sociedade são retransmitidos. Na medida em que essa
classe de idade se nega a renovar tais valores, é sinal de que essa sociedade
está em crise e isso resultou na efetivação de um conflito geracional sem precedentes.
À mesma conclusão chega Hobsbawm:
O aumento de uma cultura juvenil específica, e extraordinariamente forte, indicava uma profunda mudança na relação entre as gerações. A juventude (...) agora se tornava um agente social independente (HOBSBAWM, 1997, p. 317).
Sarlo vai além e diz que “o rock cumpriu um de seus destinos possíveis: deixou de ser um programa para transformar-se em um estilo” (1997, p. 35).
O “conflito geracional sem precedentes”, reconhecido por Morin também, pode ser entendido como uma nova configuração das disputas na sociedade
ocidental entre “velha ordem” e “nova ordem”, pautada não somente em termos culturais, mas, principalmente, políticos e sociais. O rock e outras formas “experimentais” e contestatórias do período foram modos de expressão desses novos valores72.
Por isso, o fim dos anos 1960 foi o momento-chave da percepção de uma “revolução juvenil” tal qual afirma Sarlo e, não coincidentemente, datam desse período algumas das manifestações do rock mais relembradas e significativas até hoje73, conforme se percebe não somente na literatura a respeito do gênero musical, mas também nas falas dos entrevistados.
É a disputa entre a “velha ordem” e a “nova” que vai pautar o discurso contestatório do rock, dentro daquilo que Elias & Scotson (2000) chamam de
configuração estabelecidos-outsiders. Eles acentuam que o desenvolvimento
das sociedades ocorre pelo conflito entre duas esferas distintas do meio social: os estabelecidos, que representam a ordem, o status quo, a “normalidade”, a solidificação das instituições; e os outsiders, aqueles que se opõem à ordem e elaboram outros valores, outras instituições e diferentes normas de mediação.
Na disputa que se segue, os primeiros usam da ferramenta do estigma, que diminui a importância e marca pejorativamente qualquer um que conteste sua posição.
O estigma é uma “marca”, algo que destaca o sujeito perante os demais. Goffman (1988) lembra que o termo nasceu na Grécia antiga e traz praticamente o mesmo sentido, embora nos dias de hoje seja mais bem aplicado à “desgraça” do que à marca corporal propriamente dita. Segundo o autor, quando o sujeito é estigmatizado, “deixamos de considerá-lo uma criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída”. (IDEM, p. 12).
72 Entre essas, a ascensão de outros movimentos políticos – como o movimento pelos direitos
civis nos Estados Unidos; a “nova esquerda”; o Maio de 68; a Primavera de Praga; e a resistência estudantil à ditadura militar brasileira – mobilizaram a juventude e criaram formas de participação. Também é possível pensar que manifestações como os hippies também eram políticas, mesmo sob um signo de negação ao convencional.
73 É na segunda metade dos anos 1960 que se desenvolvem subgêneros, como o
psicodelismo, e surgem outros novos, como hard rock e progressivo. Foi também a época do Festival de Woodstock e das mortes dos primeiros ícones.
Essa marca social desagradável pode se apresentar de várias maneiras, com Goffman destacando três tipos de estigmas diferentes: marcas físicas (deformidades, aparência incomum), marcas de caráter individual (viciados, criminosos, alcoólatras, desempregados) e o estigma grupal ou tribal, relacionado à raça, nação, religião etc.
Se se pensar os roqueiros por esse aspecto, se poderá localizá-los nas duas últimas categorias, pois o ser roqueiro exige determinada atitude que pode ser relacionada, de algum modo, a caráter; ao mesmo tempo em que esses sujeitos se constituem como coletivo social identificável e passível de estigma.
O estigma nasce da expectativa que determinados grupos sociais mantêm daqueles que carregam a marca. O autor trabalha duas noções complementares, a identidade social virtual e a identidade social real. Esta última corresponde às práticas (ou à situação) reais do sujeito, enquanto a primeira traz a visão que se tem dele.
Por vezes, é constituído um estereótipo em relação a alguns tipos de indivíduos e isso produz determinadas expectativas a qualquer um que seja a
priori identificado dentro de tal classificação. Não é preciso que a identidade
virtual (como o sujeito é visto) corresponda à realidade, mas o que importa é o fruto dessa relação.
Seja pelo processo social do qual se originou o rock ou pelo imaginário das gerações posteriores (de público e de artistas), os roqueiros são vistos de modo estereotipado pela sociedade em geral, muitas vezes sendo denominados de violentos e arruaceiros.
Muitas pessoas não vão pro show no Hey! Hoy! porque lá, as vezes em que passou, [dizem] “é muito escuro, só tem gente de preto”, tipo assim, preconceito (...). Agora se fosse no Mucuripe [Club], a música tocasse no rádio e fosse no Mucuripe, talvez tivesse uma recepção diferente, ta entendendo? (...) Eu conheço algumas pessoas que disseram que não iriam no Hey! Ho! porque lá é estranho, no Noise
[3D]é muito mais (...). [dizem] “Porque o Noise é gay, [e] o
Esse imaginário é tão forte que mesmo um dos roqueiros entrevistados admitiu que, antes de se envolver com seu agrupamento, também mantinha visão estigmatizada dos roqueiros:
Já tinha 16 [anos] (...), eu tinha medo de ir pro festival [de
rock], [pensava] “não, festival dá briga”, eu próprio
estigmatizava, mas aí, eu fui. (AMAUDSON XIMENES).
Quando uma turma de roqueiros caminha pelas ruas das periferias de Fortaleza, esses sujeitos são estereotipados pelos “outros” – os normais, como denomina Goffman (1988) – e marcados com o estigma. Em seu processo particular de socialização, o roqueiro estigmatizado aceita esse papel e passa a jogar com ele.
No caso dos roqueiros, o estigma vem acompanhado do discurso de
outsider. Os outsiders vivem sob esse estigma, mas trabalham com base em
outros valores (distintos daqueles do status quo).
O que o rock talvez tenha de diferencial em relação ao pensamento dos autores é que esse gênero musical – ou melhor, a juventude que o produz – assume para si o estigma e cria modos de ressignificá-lo, submetendo-o a um processo próprio de positivação. O estigma, que é mal visto pelo resto da sociedade (os “outros”), se converte, internamente dentro desse coletivo (os roqueiros), numa conotação positiva. Em certa medida, assume ares de capital
simbólico tal qual o entende Bourdieu (1992).
É nesta direção que os praticantes do estilo de vida roqueiro desenvolvem apreço por elementos ou valores que, aos olhares da sociedade em geral – ou seja, do status quo – parecem pejorativos, errados, negativos. Isso se apresenta desde o vestuário fora do padrão, à escolha de espaços degradados ou à valorização dos temas “obscuros”, conforme se discutirá adiante.
O uso do estigma em seu favor por parte dos outsiders também foi considerado por Elias (1995) em seu estudo sobre a vida de Mozart74, porém, o
74 O compositor austríaco rompeu com a produção musical de sua época, pautada em obras
de encomenda e serviços específicos para as cortes europeias. Tentou se impor em “novo mercado”, no qual o artista trabalha de modo autônomo e vende sua obra já finalizada àqueles
rock consegue manipular a condição de outsider, de modo tanto a se manter
em evidência (é uma das maiores fontes de renda do entretenimento global) quanto ainda ser objeto de “rebeldia”, pois mantém o discurso contestador.
Os roqueiros assumem essa condição de outsider e a apresentam sob o discurso de rebeldia; um tipo de rebeldia diferente daquela incorporada por partidos políticos de esquerda, por exemplo. Os roqueiros não vão às ruas fazer protesto, mas ocupam o espaço público de um modo que os torna singulares (pelo visual, por exemplo) e, com isso, rompem os “padrões” normalmente aceitos pela sociedade em geral.
A visão de mundo dos roqueiros também é uma forma rebelde de ocupar o espaço público, porque eles elaboram toda uma série de signos que se distinguem da sociedade em geral e causam certo incômodo por meio de sonoridades, linguajar, gestos e pensamentos, que expressam por meio de nomes de bandas, letras de canções etc.
Nos dias atuais, o rock continua usando os signos de rebeldia que firmou nos anos 1960 e 1970. A presença de tal elemento é tão forte que eles próprios reconhecem que “ser um roqueiro é ter um ideal”.
Acho que o reggae não tem aquela imposição que o rock impõe: se você é roqueiro, você tem que ter um ideal. [se] Você é roqueiro, não permite playboy, não permite
gangueiro, não permite forrozeiro, não permite patricinha, o
rock meio que impõe essa ideologia, do punk inglês e tal
(...). Acho que o rock tem muito do punk inglês, ali dos anos 80. Quando o rock surgiu, então, rock era rock, não tem
como não ter posição, tem que ter ideologia política. Então,
tem sempre essa ideologia política, rock tem que ter essa imposição. (DONIZETE ARAÚJO – grifos meus).
Nota-se a percepção do rock como um tipo de ideologia política, entendida como imposição da qual o roqueiro não tem como se eximir. É uma condicionalidade, uma senha de entrada. Também serve como elemento de distinção, pois esse relato identifica outros coletivos sociais que não teriam a que se interessam, através da comercialização de partituras, dos concertos pagos em teatros e das turnês por vários reinos. Mozart não foi inteiramente bem-sucedido, pois morreu jovem e relativamente pobre.
mesma “carga de ideal” que o estilo de vida retrocitado teria. O discurso deixa claro que determinados tipos sociais não são bem-vindos ao convívio roqueiro e por isso são rechaçados, como gangueiros, forrozeiros, playboys e
patricinhas75.
Os comportamentos rebeldes associados aos roqueiros se cristalizam em modelos e valores a serem seguidos por qualquer um que almeje ser
roqueiro. Como o estilo de vida roqueiro “resgata” os modelos de rebeldia dos
anos 1960, aqueles que hipoteticamente não os compartilham não têm acesso a essa condição. Com isso, se cristaliza o discurso de que o rock é “rebelde por natureza” e, por conseguinte, os roqueiros também:
No lado social, tem N bandas, né? É o que tem mais. O
rock é a música de protesto por excelência. (...) Aí, junta a
música com a ideologia e aí vai. (...) Ideologia, assim, mais no modo de pensar em geral. (...) Eu acho que o rock já é
rebelde por natureza, né? (risos) Você formar uma banda de rock já é uma rebeldia, já. É uma loucura pros pais: “esse
menino não quer nada!”. (risos) Já é muita coisa pros pais. (...) Geralmente (...), há muito preconceito. E o rock termina
mesmo sendo essa válvula de escape, de rebeldia da adolescência mesmo. Do jovem, da adolescência. (...) Pra se
expressar, jogar suas angústias... (...) O rock é a música de rebeldia por essência. (ADJACY FARIAS – grifos meus).
O interlocutor aponta duas questões importantes. Primeiro, ressalta o aspecto de que, como o rock é uma “ideologia de rebeldia”, o simples ato de
ser roqueiro já é rebeldia. Em consequência – e este é o segundo ponto – o
indivíduo tem que sofrer o estigma que recai sobre si, ligado à imagem de “desocupado”, “vagabundo” e outras representações que cercam o imaginário daqueles “de fora”, dos “outros”, os não-roqueiros, ou seja, a identidade virtual de Goffman (1988).
Apesar de alguma preocupação com esse estigma, as falas deixam transparecer determinado orgulho da condição de outsider que esse discurso de inadequação elabora.
75 O relacionamento dos roqueiros com esses outros agrupamentos e o que eles significam
Lá no Casarão, no Casarão do Rock, eu me lembro que eu fui com uma trupe, todo mundo de preto, e a gente... e um cara que tava no meio da rua, vendendo churrasco, ele fez uma brincadeira, e quando ele fez essa brincadeira, eu fiquei feliz, porque eu entendi: “isso aqui ta dando certo, isso aqui é visível, isso aqui é algo que finalmente você se encontrou num grupo”, que era um grupo que nunca aconteceu dentro da escola propriamente dita, mas fora da escola. Essa visão de coesão grupal, de finalmente fazer parte de um grupo, pra mim, foi muito importante. Foi uma coisa pra mim que me preenchia. Essa idéia dessa marca, de ta todo mundo ali por um propósito e você não ser identificado como o modista. (DANIEL VALENTIM).
A estigmatização vivida despertou no interlocutor o sentimento de
pertença a um coletivo maior. Sua turma se viu reconhecida como algo
“diferente” dos outros. O entrevistado destaca ainda que, nas periferias, o ato de ser roqueiro já é afronta considerável “aos outros”, incomoda por ser estranho demais à realidade, porque rompe com a expectativa – que em Fortaleza está ligada ao “gosto” por gêneros musicais como o forró, a axé music ou o pagode.
[Meus amigos] Eram pessoas que curtiam um estilo de
música na periferia, que andavam de preto em uma
periferia, que tinham um estilo de cabelo diferente numa
periferia... Então, essa característica, pelo local, isso já era
muita coisa, já era transgressão, sabe? O simples fato de
você ouvir coisas como Offspring76 já era muito, já perturbava a cabeça de muita gente, o barulho, o som alto, [a
gente] sempre tomava vinho em uma praça, perto da casa de
um amigo, ficava tocando violão e tal. (DANIEL VALENTIM – grifos meus)77.
A imagem dos roqueiros como estranhos, violentos ou indesejados é corrente no imaginário dos “de fora”. Como algo estranho ao mundo social
76 Banda estadunidense de hardcore surgida em 1993 e que foi popular na segunda metade
dos anos 1990. Apresentaram-se em Fortaleza em 2008.
77 A presença maciça de roqueiros ainda causa estranheza à população em geral, como pude
observar, por exemplo, durante a fila da bilheteria do Forcaos, na tarde do domingo 22 de julho de 2007, no Centro Dragão do Mar. Enquanto centenas de jovens vestidos de preto se aglomeravam a espera de seus ingressos, um casal de “adultos” chegou trazendo o filho para comprar suas entradas. O rapaz ficou no último lugar da fila e o casal se afastou, com o pai comentando com a mãe em tom de piada: “Parecem um bando de coadjuvantes de um filme de terror”.
onde se desenvolve, o roqueiro se transforma em um elemento não somente
outsider, mas um tipo de alvo de resistência ou mesmo repugnância, deixando
o aspecto de inadequação evidente. Veja-se, por exemplo, a fala deste outro entrevistado:
Por isso que eu digo que o rock and roll é uma coisa foda. Ou você gosta de rock ou não gosta. Então, rock... Você
nunca vai ver o pessoal do rock como bem visto (...). E eles
são roqueiros, eu acho que eles deviam se unir mais, porque são odiados pelos forrozeiros, são odiados pelos pagodeiros, são odiados pelas mães deles, são odiados pelos pais deles, são odiados pelos padres por que são roqueiros, ta entendendo? A mídia não gosta deles, do rock, só do
popzinho. (DONIZETE ARAÚJO – grifos meus).
O interlocutor relaciona a resistência ao roqueiro por meio de vários
locus sociais, como família, religião, meios de comunicação e outros
agrupamentos que se formam no tecido urbano. Este discurso situa o roqueiro não apenas como outsider ou estigmatizado, mas quase na condição de pária social.
A agressividade anexada à visão de mundo representada pelo ser
roqueiro pode decorrer do contato constante com os “de fora”, os “outros”.
Goffman (1988) assinala que os momentos de contato, de socialização, dos estigmatizados com os normais são marcados por angústias de ambos os lados, pois os dois atores percebem o modo como são vistos, como um percebe o outro. Daí, a agressividade ser uma das táticas utilizadas para esse encontro por parte do primeiro grupo, num tipo de ação defensiva.
Para reafirmar essa condição de rebeldia e de inadequação, criam-se
atitudes que os roqueiros devem assumir perante si e os outros. Tais atitudes
serão fiscalizadas por eles mesmos a fim de medir se são condizentes com o que se espera de um “verdadeiro” roqueiro.
Um exemplo disso se deu na bilheteria do Forcaos, já citada. Em uma turma de jovens, um dos rapazes afirmou que esperava que o show terminasse cedo, porque tinha que voltar para casa às 22h por ordem dos pais.
Imediatamente, foi alvo de risos e brincadeiras dos demais por se submeter a essa “ordem”, já que o comportamento “esperado” do roqueiro é de
rebeldia, de transgressão. Em sua defesa, o jovem afirmou que não era sempre que obedecia desse jeito e que “quando tem rave78 eu só volto pra casa de
manhã!”.
Outra atitude que demarcava os roqueiros de Fortaleza era a data original do Forcaos Festival, que ocorria exatamente nos mesmos dias da “micareta” Fortal, no último final de semana de julho. Para alguns, a posterior mudança da data comprometeu a “integridade” da festa.
O Forcaos foi criado pra competir com o Fortal que já acontecia há quatro anos, acho (...). E o pessoal [roqueiros] não queria [o Fortal], aí o pessoal criaram: “a gente não quer, a gente gosta é de rock!”. Ficava um monte de gente lá fora
[do Casarão do Rock, onde ocorriam os primeiros Forcaos],
(...), o Fortal era ali perto, na Praia de Iracema79 (...). Naquela época era legal, aí, as coisas desandaram... começou a entrar