Part I: Background and theory
4.1 Net present value calculation
Os trabalhadores do Cerest entrevistados consideram que houve um aumento do interesse dos profissionais das UBS pelos temas relacionados à saúde dos trabalhadores, na perspectiva de buscarem a compreensão da relação entre trabalho, saúde e doença, para promoção, proteção, prevenção e assistência à saúde, mas que esse processo não é homogêneo:
É que depende de Unidade pra Unidade. Têm algumas Unidades que atendem bastante o trabalhador, se interessam mais, conversam mais. Depois da reunião, são aqueles que vêm conversar com você e falar sobre um caso ou de um paciente para saber no que eles podem ajudar. Outras Unidades que não têm tanto esse olhar, às vezes porque não têm tanto pacientes, não têm demanda, não incorporam o conceito (Profissional ST 6).
Os profissionais entrevistados além de considerarem o aumento de interesse pela temática, também sinalizam uma mudança no olhar dos profissionais das UBSs sobre os trabalhadores atendidos. Numa perspectiva interdisciplinar, essa mudança no olhar aponta para uma mudança de paradigma, na medida em que os profissionais passam a ver o processo saúde, doença e intervenção de modo mais complexo e dinâmico (Campos e Domitti, 2007). A fala a seguir expressa esta questão junto aos ACS:“Ontem e num outro apoio que a gente foi pela segunda vez, duas Agentes vieram falar comigo que foram na casa do paciente e perceberam(...) achei legal que despertou nelas o interesse, elas vão na casa, vêem mais o dia-a-dia, os problemas” (Profissional ST 5). A mudança na percepção da complexidade no
processo saúde e doença opera uma transformação na investigação das causas da dor e na atenção à saúde dos trabalhadores atendidos na UBS. Assim sendo, os profissionais do Cerest relatam que os profissionais do PSF passam a ofertar propostas clínicas e curativas mais adequadas e menos medicalizantes (Domitti, 2006) para os trabalhadores. Isso se expressa numa preocupação maior dos profissionais do PSF em identificar a origem do problema de saúde, questionando onde se trabalha e como se trabalha, conforme ilustrado abaixo:
Antes a preocupação do atendimento médico era amenizar a dor (...)o cliente vinha com uma queixa, passava-se uma medicação. Aí ele retornava passava-se um exame. Aí ele retornava, novamente medicação ou vinha com uma queixa ósseo-muscular e procurava uma fisioterapia. Não focava a questão assim, a causa. Então, quando começou o trabalho do Cerest nós vimos a mudança. Quando o cliente vem com uma queixa de dor ósseo- muscular a primeira pergunta agora é: ‘Com o que você trabalha, qual a sua função?’ Isso foi o que o Cerest levou pras Unidades junto com o Apoio Matricial para os médicos. Além de amenizar a dor, procurar saber qual a função e tentar descobrir se essa dor não vem das atividades laborais(...) (Profissional ST 3).
Para além dos atendimentos de consultório, tipo queixa-conduta (Domitti, 2006) ou do entendimento da cura como sinônimo de eliminação dos sintomas e lesões (Campos, 2007), a incorporação de questões vinculadas à história de trabalho no espaço da clínica, à medida em que os profissionais buscam não somente compreender de onde vem a dor, mas, especialmente, pretendem encontrar outras saídas para intervir sobre sua origem.
A gente tem essa preocupação de ver com a pessoa onde aquilo está começando, para chegar à raiz do problema. Senão, fica naquele tratamento médico clássico: ‘está com dor dá um remédio pra dor, está inflamado dá um remédio pra inflamação’ e não cuida da causa e aí o caso fica crônico(...). Uma coisa que a gente vê, é que eles (profissionais da UBS) estão começando a perguntar mais, com os olhos mais amplos: ‘Da onde vem isso?’. É está engatinhando mais já está começando(…) (Profissional ST 7).
Assim sendo, o AM em ST contribui para que os profissionais repensem a lógica do processo saúde-doença, não mais centrado na dor ou doença, mas no sujeito (Gomes, 2006) e no seu contexto de trabalho. Uma das alternativas possíveis para intervir sobre os determinantes dos problemas relacionados à saúde dos trabalhadores, num modelo de atenção diferenciado, é aproximação da relação da AB com as atividades de vigilância nos locais de trabalho. Essa é outra mudança na abordagem do processo saúde-doença que identificamos através das entrevistas:
Hoje aconteceu que uma Unidade solicitou uma vistoria de uma empresa que estava atendendo o trabalhador. Não tinha dúvida nenhuma, estava atendendo o trabalhador e ia continuar atendendo, só que eles queriam conhecer o ambiente de trabalho. Aí solicitaram para nós fazermos uma vistoria. Então a gente vai à Unidade, discute o caso, vê do que se trata, vai à empresa, faz a vistoria e envia a cópia do relatório para Unidade (Profissional ST 4).
Os profissionais entrevistados relatam que o processo de identificação das causas do adoecimento do trabalhador produz uma demanda maior em relação as ações de vigilância nos locais de trabalho, seja com objetivo de estabelecer a relação causal com o adoecimento, seja para intervir sobre o trabalho de forma mais direta:
Como Autoridade Sanitária a gente vai dar continuidade desse serviço nas empresas(...)Você vê atividades que se pergunta: ‘Meu deus, isso existe, isso é real?’(...), porque a partir do momento que eles encaminham o trabalhador pra gente com alguma queixa de dor, que acham estar relacionado ao trabalho, quem vai ao local de trabalho é a equipe do Cerest e a gente tem que dar retorno também pra equipe: ‘Olha, de fato está relacionado ao trabalho, nós estivemos presente na empresa, aquela atividade laboral que ele exerce de fato tem relação’. Então, também isso é importante. (Profissional ST 3).
Finalmente, observamos uma tendência a mudança na abordagem dos profissionais do Cerest, visto que para eles os profissionais do PSF começam a acolher e assumir os trabalhadores adoecidos, ampliando o foco de orientação da assistência para a vigilância em ST e diversificando as possibilidades de ofertas terapêuticas para os mesmos.
3.4.2. O Apoio Matricial em Saúde do Trabalhador, na visão dos profissionais de saúde