• No results found

Part III: Key findings and discussion

8.3 Overall LCOE comparison

Com o AM em ST, os profissionais das UBS expressaram nas entrevistas maior interesse pelas temáticas relacionadas à saúde dos trabalhadores. Desse modo, passam a dar mais importância ao tema, visando melhorar a resolutividade dos casos atendidos, mantendo um contato permanente com a equipe do Cerest, mesmo que por telefone, a exemplo da seleção seguinte:

Depois que a gente começou a trabalhar com o Cerest despertou na equipe a questão da doença do trabalhador. Até então era um caso que podia desdobrar, mas a gente não envolvia tanto com relação ao trabalho. Com a vinda do Cerest a equipe ficou mais atenta pra questão do trabalho e com a perspectiva de conseguir resolver essa questão. Então o Cerest, pra nós, não é o centro de referência que a gente encaminha os pepinos, a gente discute, a

gente troca idéia, a equipe é disponível pra discussão pra fazer apoio matricial, mesmo que a distância, a gente discute por telefone, encaminha, eles dão retorno; tem contra referência (Profissional PSF 1).

Obviamente que essa mudança na compreensão não ocorre de modo uniforme entre todos os profissionais de saúde, no entanto, para os entrevistados da UBS o trabalho junto ao Cerest promoveu uma transformação importante na produção de um olhar mais atento da própria equipe de SF na apreensão da relação entre trabalho e saúde. Olhar esse que modifica o atendimento ao trabalhador, com a incorporação de questões como: “onde trabalha?” e “o que faz?”, que representariam um passo a frente em torno da construção da história de trabalho.

E a equipe (da UBS de São Dimas) começou a ficar mais atenta. Então você vê, quando a gente atende, por exemplo, a gente pergunta que tipo de trabalho você faz, quanto tempo faz. A equipe está atenta. O agente comunitário trás também, olha, fulano tá assim; principalmente as costureiras, que são informais e as pessoas que elas têm mais contato. Ó fulana tá assim, trabalha de costura, não pára. A equipe está mais atenta pra essas questões (Profissional PSF 1).

Interessante notar que esse despertar inicial sobre a questão da ST para os profissionais da UBS representa uma novidade no entendimento da lógica do processo saúde-doença. Isso porque, há relatos de que essas questões não estavam presentes na sua formação ou na experiência profissional pregressa no trabalho em saúde na própria UBS, antes do AM. A ilustração do texto seguinte expressa exatamente esse fato:

Quando eu entrei pra trabalhar aqui eu tinha acabado de sair da faculdade, eu não sabia, eu sou enfermeira, mas a gente não vê isso na formação, muito pouco. Então com a entrada do Cerest, a gente teve algumas capacitações pra saber de lei trabalhista, de qual passo que eu tenho que seguir, de que papel eu tenho que preencher. E antes você ficava de mão atada. Na verdade você não conseguia fazer o seu trabalho, você não dava uma devolutiva legal pro paciente, porque você também não sabia. Com certeza, mudou bastante (Profissional PSF 3).

De acordo com Lacaz (1996) o projeto da ST esbarra nos limites da formação técnica- profissional, sua potencialidade então se opera com o descortinamento do desconhecido, cujo desvendamento se relaciona à vontade de saber inter e transdisciplinar. Assim, além da modificação do olhar sobre o adoecimento dos trabalhadores, a prática do profissional da UBS parece se alterar, com a incorporação dos elementos da ST levados para as reuniões temáticas de AM, como as orientações trabalhistas. Os profissionais de SF relatam que conseguem melhorar a atenção à saúde e a devolutiva para os trabalhadores atendidos, num processo de ampliação de sua prática clínica. Outro fato relevante ocorrido após a

implantação do AM na UBS diz respeito à possibilidade de uma atenção à saúde dos trabalhadores mais integrada, no sentido de associar as ações de assistência e vigilância em ST. A investigação sobre a causa do adoecimento leva os profissionais da UBS a demandarem para o Cerest ações de vigilância e vistorias nos locais de trabalho, a fim de intervir sobre o trabalho adoecedor, mas não participam diretamente dessas ações. No que diz respeito ao PSF e PACS, Machado e Porto (2003, p. 128) consideram “(…)de grande importância a articulação desses programas a um sistema de vigilância à saúde mais abrangente, que leve em consideração o território como base operacional e de planejamento (…)”. No entanto, não foi possível observar essa aproximação, apenas a afirmação pelos profissionais da UBS da relevância da ação de vigilância para o próprio trabalho em saúde e também para prevenir novos quadros de adoecimento, conforme os seguintes exemplos:

A gente na verdade, nós não fazemos intervenção. A relação do trabalho mesmo a gente detecta e percebe, a intervenção, a visita ao ambiente de trabalho é o Cerest(...)e aí depois eles dão o retorno pra gente (Profissional PSF 1).

Eu acho que o trabalho que desenvolve o Cerest e a Vigilância nas diferentes firmas, fez com que algumas firmas tivessem mais consciência de que o trabalhador precisa de um ambiente legal, com condições boas de trabalho (Profissional PSF 2).

Enfim, consideramos que o AM auxilia os profissionais do PSF a repensarem o processo saúde-doença e a lidar com a saúde dos trabalhadores de forma mais ampliada e integral. Através da construção de um saber e uma ação interdisciplinar, os casos passam a ser de responsabilidade mútua dos profissionais, numa lógica em que a ação de reabilitação parece mais associada a prevenção e promoção da saúde, tal qual preconizado para a integralidade do SUS.

3.5. Dificuldades e Desafios para o Apoio Matricial em Saúde do Trabalhador na