5. Fra oppdagelse til gradvis åpenhet
5.5 Negative sanksjoner og utestengelse
determinada teoria, não consegue ver além dessa e acaba por reduzir tudo a
essas explicações, pois assim tudo parece. Como o médico, que tudo vê como
hábitos corpóreos; ou o teólogo, que tudo reporta ao divino; o matemático, aos
números. Da mesma forma os caldeus, acostumados com a medição dos
movimentos celestes, todas as coisas, para este povo, referiam-se às estrelas.
A astrologia, assim, afirma Pico em sua obra, torna-se concepção geral da realidade, raiz de toda a árvore do saber. Por isso, sustenta Garin, Pico persegue-a muito coerentemente iniciando pelas questões de lógica e metafísica. Segundo Pico:
“[Os astrólogos] não consideram suficientemente a realidade física, de modo a entender bem o que distingue a causa universal das particularidades, qual é a função desta e daquela, o que convém e o que é adverso à substância dos céus, o que é substância e acidente (…), que diferença existe entre as obras da natureza e da arte humana, se um sinal pode indicar uma coisa sem dela ser causa.”102
Como afirmamos anteriormente, uma das intenções de Pico della Mirandola era um acordo entre a filosofia de Aristóteles e o platonismo. É neste ínterim que podemos melhor compreender a linha teórica que segue na sua crítica à astrologia. Do aristotelismo provinha a insistência na impossibilidade de derivar de causas universais os casos particulares e, do neoplatonismo, a defesa das infinitas possibilidades da mente humana. A sua insistente polêmica contra egípcios e caldeus, segundo Garin, também pode ser compreendida segundo uma intenção anti-Ficino ou, pelo menos, contra uma certa “moda” que o hermetismo de Ficino lançara.
Na sua refutação à astrologia não deixa escapar a ligação entre medicina e astrologia, os dias críticos e as influências lunares; a teoria das marés; a doutrina das “eleições”; as grandes conjunções com o horóscopo de Cristo e das religiões em geral; a questão da natureza das forças celestes, luz, calor, movimento. Como também já fora dito e talvez seja o âmago da sua questão: a autonomia humana, a dominação do homem, na qualidade de alma e mente livre vontade construtora, relativamente à natureza material. Para Pico, é impensável conceber a grandeza de Aristóteles por causas celestes, por exemplo. Muitos homens nasceram sob o mesmo signo de Aristóteles não foram como o famoso estagira, assevera Pico. Não só na sua obra
Disputationes, mas também na Apologia fica evidente sua intenção de defender, com
a cabala, a magia. Sua posição não ficaria imune a uma condenação, em 1489, na volumosa refutação de Pedro Garcia (Determinationes magistrales contra
conclusiones apologiales…), na qual o futuro bispo de Barcelona tocava talvez naquilo
que seria o ponto mais importante da questão: a relação entre o momento teórico do conhecimento das causas universais (astronomia) e momento prático experimental (magia). Segundo Garcia, a mediação que Pico procura entre astrologia (e cabala) e magia, isto é, entre momento teórico e momento prático, é ilusória. Não há, nem pode haver, relação dialética.
Por seu turno, Pico crê poder dar uma resposta no Oratio com o miraculum
magnum, com o homem que faz e se faz, que é mediador entre os mundos,
conhecimento e ação. Em Disputationes reforça a imagem aristotélica dos céus como
causas universais, racionalmente conhecíveis, em antítese com o mundo particular, experimentável, variável, individual, não determinado a priori, e nem sequer campo de uma qualquer operação científica. O limite máximo das Disputationes de Pico não é inteiramente o geocentrismo ptolomaico, é a antítese aristotélica entre céu e terra, entre física dos céus e física terrestre. E, simultaneamente, a ilusão de superar a ligação entre o mundo da necessidade e mundo da liberdade, após ter acentuado o destaque entre matéria e alma, entre destino e livre-arbítrio. 103 A liberdade do homem é justificada com uma ruptura da unidade do todo, o homem não entra na estrutura ontológica do real.
É justamente por isso, afirma Garin, que as Disputationes foram um grande feito cultural, pelo impacto que determinaram no plano teórico, do fundamento da ciência, pondo em questão os pontos centrais do conhecimento do mundo; por colocar em questão a astrologia, que agia impregnando a vida com seus conceitos, não se tratava de uma técnica de previsão, mas uma concepção geral da realidade e da história, em todo o lado presente e decisiva. Dos hábitos do cotidiano à prática médica, da concepção dos ciclos históricos às temáticas religiosas, a crença do destino sob o signo das estrelas encontrava-se em todos os lugares. O livro de Pico procurava chamar atenção para a razão e liberdade do homem, para a possibilidade da crítica e da investigação histórica. A discussão sobre a astrologia não poderia deixar de tocar na questão da astronomia, sobre o universo físico, sobre o homem, sobre a natureza e seu destino. Trata-se do debate sobre a alma e sua imortalidade postos por Ficino e Pomponazzi, é também a questão das necessidades humanas e sobre o Estado; esse último, posto por Maquiavel. São os três pontos fulcrais da revolução filosófica da Idade Moderna: o sistema de mundo, o conceito de “eu” e o Estado. 104
Dentre os muitos pontos a serem destacados na obra de Pico, sem dúvida a questão da crise e dos dias críticos, tão cara aos médicos, que tinha reflexos imediatos, não só sobre as curas e os medicamentos, mas também sobre as intervenções cirúrgicas e sobre os seus tempos em geral. Pico não fora o primeiro a questionar tais pontos, contudo fora o primeiro a juntar essas questões e a indicar suas implicações no plano teórico tanto da lógica e da metafísica, quanto da religião e da política.
103IDEM. pp. 111. 104IBIDEM. pp. 112.
Já Steven Vanden Broecke, em seu Between astrological reform rejection: Giovanni Pico’s Disputations, afirma que o intuito de Pico não é a astrologia em si ou a prática astrológica, mas sim a proliferação de prognósticos baseados nas teorias de Albumasar por toda a península italiana durante o fim dos Quatrocentos
e o impacto social acarretado com a divulgação desses. 105
Giovanni Pontano, por exemplo, combate Giovanni Pico resgatando toda a fascinante sedução e o aspecto poético da astrologia e insistindo nos céus como sinais mais que como causas. Essa era uma forma de retomar o pensamento dos antigos. Cornelio Agrippa, por seu turno, afirma que as adivinhações são charlatanices ou, no máximo, poesia e irá quase parafrasear Pico, ao afirmar que a concepção astrológica da realidade, não só subverte a religião, negando a providência, bem como seus aspectos negativos naquilo que concerne à filosofia e à medicina, além das disciplinas morais, substituindo aquilo que seriam as “verdadeiras causas” por “fábulas”.