5 Tilstanden på bunnen
5.2 Hardbunn
5.2.3 Nedre voksegrense for alger
A Casa Sonolenta é um livro de Don e Audrey Wood, publicado pela editora Ática, que conta a história de uma casa onde havia uma cama aconchegante. Nesta, uma avó, um menino, um cachorro, um gato e um rato viviam dormindo. A pulga também é uma personagem da história, mas, diferentemente dos seus companheiros de quarto, ela está acordada. A pulga acordada pica o rato, que vai desencadeando o despertar de todos os outros personagens. A cama aconchegante também não fica impune à confusão e acaba se quebrando. A estrutura cumulativa do texto, com suas repetições, dá o tom sonolento à narrativa. Além disso, essa forma de estruturação textual – cumulativa e recorrente – facilita a memorização e a compreensão da história pelas crianças.
A leitura deste livro ocorreu no início do ano, no dia 17 de maio de 2016, e contou com a participação de cinco crianças: Beatrice, Clara, Nara, Santiago e Tomaz e teve duração de 16’22’’ (dezesseis minutos e vinte e dois segundos). Esta história só não era conhecida por Santiago. As demais crianças, as veteranas, já possuíam experiência com a obra, uma vez que ela compõe a biblioteca da escola e as bibliotecas de sala da Educação Infantil.
Apresentei o livro às crianças pela capa e, ao mostrar a primeira página, perguntei o que estavam observando:
Professora Bruna: Quê que tá acontecendo aqui, pessoal?
FIGURA 84:
A Casa Sonolenta
Clara: Nada!
Tomaz: Tem uma planta aqui. Beatrice: Tem uma cerca.
Santiago (apontando para a caixa de correspondências): Olha isso aqui!
Professora Bruna: É! E sabe quê que é isso? Uma caixa de correspondências, onde o carteiro coloca as cartas.
Nara: Nossa! Tá sem cor.
Professora Bruna: Por que será que tá sem cor, gente? Clara: Porque tá apagado.
Professora Bruna: E por que que tá apagado? Nara: Olha! Tá chovendo!
Professora Bruna: Ah, tá mesmo, Nara! Tá chovendo. E o que será que a chuva faz com as cores?
Clara: Fica nublado!
Professora Bruna: Ah, então vamos continuar a ler.
Professora Bruna (lendo): “Nessa casa tinha uma cama, uma cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo”. Todos quem, pessoal?
Beatrice: A avó!
Professora Bruna: Ah, verdade! Tem uma avó deitada na cama. Mas olha só, o texto tá falando assim: “onde todos viviam dormindo”. Todos quer dizer mais de uma pessoa, né? Se fosse só a avó, estaria escrito assim: “onde uma avó vivia dormindo”. Vocês conseguem ver mais alguém dormindo nessa casa?
Santiago (apontando para o livro): Olha! Tem um mimino aqui! Professora Bruna: Aí, ó! Tem mesmo!
FIGURA 85:
A Casa Sonolenta
Santiago: Ó o auau!
Professora Bruna: Cadê? Me mostra, Santiago.
Santiago se levantou em direção ao livro e me mostrou o cachorro. Professora Bruna: Ah, tem mesmo. E tem mais alguém, vocês acham? Nara (apontando para o gato): Tem esse aqui, ó!
Professora Bruna: Ah! O que será que pode ser isso? Clara: Acho que um gato.
Beatrice: É um gato, é um gato!
Professora Bruna: Ah, então vocês tão me mostrando a avó, né? Aí tem o cachorro aqui (apontando para o cachorro) e isso aqui (apontando para o gato) que a gente acha que pode ser um gato, né? Então vão continuar.
Professora Bruna (lendo): “Nessa cama tinha uma avó, uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo”.
Nara: Agora o menino vai.
Professora Bruna: Vai pra onde, Nara? Santiago: Dormir.
Nara: Dormir na cama aconchegante. Professora Bruna: Ah, vão ver?
Professora Bruna (lendo): “Em cima dessa avó tinha um menino, um menino sonhando, em cima de uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo”.
FIGURA 86:
A Casa Sonolenta
Nara: Foi ele mesmo!
Professora Bruna: Foi mesmo. E agora, será que vai alguém? Tomaz (rindo): É o cachorro. Ele já tá até espreguiçando. Clara: E depois o gato então.
Professora Bruna: Por que, Clara, que você acha que é o gato? Clara: Porque eu acho, uai.
Professora Bruna: E depois do gato?
As crianças não responderam a última pergunta, o que nos permite afirmar que, até este momento da história, elas não haviam localizado o rato e a pulga na ilustração.
Professora Bruna (lendo): “Em cima desse menino tinha um cachorro, um cachorro cochilando, em cima de um menino sonhando, em cima de uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo”.
FIGURA 87: A Casa Sonolenta Fonte: WOOD, 2003 Fonte: WOOD, 2003 FIGURA 88: A Casa Sonolenta
Beatrice: Olha o gato!!!
Professora Bruna: Olha lá! Bem que você disse, Clara! Vão ver se ele vai subir...
Professora Bruna (lendo): “Em cima desse cachorro tinha um gato, um gato ressonando, em cima de um cachorro cochilando, em cima de um menino sonhando, em cima de uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo”.
Professora Bruna: E agora, gente? Nara: Vão ver.
Professora Bruna: Será que mais alguém vai subir? Clara: Não sei.
Continuo a ler:
Professora Bruna (lendo): “Em cima desse gato tinha um rato, um rato dormitando, em cima de um gato ressonando, em cima de um cachorro cochilando, em cima de um menino sonhando, em cima de uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo”. FIGURA 90: A Casa Sonolenta FIGURA 89: A Casa Sonolenta Fonte: WOOD, 2003 Fonte: WOOD, 2003
Nara: Tinha um rato!
Professora Bruna: Tinha um rato. E será que esse rato tá desde o início na história?
Santiago se levanta em direção ao livro e começa a voltar as páginas a fim de tentar encontrar o rato. Mas acaba precisando da ajuda de seus colegas, que também se colocam de pé em frente ao livro para procurar o personagem. Nara acaba encontrando e instiga as outras crianças a procurar o rato nas páginas seguintes. A busca pelo rato se torna uma divertida brincadeira de “procure e ache”. Ao perceber a diversão e o interesse das crianças motivados pela tentativa de encontrar o rato, provoquei-as:
Professora Bruna: Gente, e vou contar pra vocês que tem mais um personagem escondido aí. E é um bicho!
As crianças retomam a brincadeira, mas não conseguem encontrar a milimétrica pulga em cima da cadeira. Peço para elas voltarem a seus lugares e dou continuidade à leitura.
Professora Bruna (lendo): “Em cima desse rato tinha uma pulga... Será possível? Uma pulga acordada, em cima de um rato dormitando, em cima de um gato ressonando, em cima de um cachorro cochilando, em cima de um menino sonhando, em cima de uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo”.
Nara: Nossa, ela é muito pequena.
Professora Bruna (voltando as páginas do livro): E olha onde ela tava o tempo todo (aponto para a pulga em cima da cadeira).
Nara: É porque ela tava acordada.
FIGURA 91:
A Casa Sonolenta
No decorrer da narrativa, perguntei às crianças sobre a chuva e sobre a falta de cor. Nara foi a primeira a perceber o término da chuva:
Nara: Parou de chover!
Beatrice: Tá tudo colorido agora.
Nara (se levantando em direção ao livro e apontando para a janela): E olha... Professora Bruna: Olha o que a Nara tá mostrando, gente.
Clara: O jardim.
Professora Bruna: O jardim agora tem flores, né? Nara: Tá tudo parecendo novo, agora.
Professora Bruna (voltando às páginas iniciais): E antes, aqui ó, não tava parecendo novo, não?
Clara: Não!
Professora Bruna: Por que?
Tomaz: Porque tava todo mundo dormindo.
Professora Bruna: Uai, mas com todo mundo dormindo não é novo, não? Nara: É cor de sono.
Beatrice: E tá triste!
Professora Bruna: Ah, Beatrice. Você tá achando que tá triste? Por quê? Nara (sussurrando): Porque tá todo mundo dormindo.
Professora Bruna (lendo): “Numa casa sonolenta onde ninguém mais vivia dormindo”.
FIGURA 92:
A Casa Sonolenta
Clara: É porque tem o arco-íris.
Professora Bruna: E o quê que isso quer dizer? Clara: Parou de chover.
Professora Bruna: Ah, entendi. E agora, quando tá tudo novo, igual a Nara tá falando. Tá triste?
Nara: Não!
Professora Bruna: Por que? Clara: Porque parou de chover. Beatrice: E eles tão brincando, até.
Professora Bruna: É, parou de chover, né? Dá pra sair pra brincar...
Este evento nos permite refletir, dentre outros aspectos, sobre o papel das imagens nos livros infantis. Fittipaldi (2008) nos conduz para essa discussão ao afirmar que “a imagem narrativa, ao bem ilustrar um texto literário, não se perde na pretensão de superar o texto, mas se adere a ele com a intenção de colaborar na sua percepção [...] (p. 105). Assim, as imagens dos livros ilustrados, com suas possibilidades narrativas, contribuem para que o leitor amplie os sentidos textuais, uma vez que todo um conjunto perceptivo e imaginativo é evocado, introduzindo a criação.
Um livro ilustrado bem cuidado possui imagens polissêmicas que permitem leituras múltiplas, “portas secretas” que convidam as crianças a transpô-las e a realizar suas próprias imaginações, criações e fantasias. Sendo assim, existe uma “gramática imagética” da qual os ilustradores lançam mão para realizar seu trabalho de narrar através das imagens. Segundo Oliveira (2008),
FIGURA 93:
A Casa Sonolenta
“toda ilustração possui suas prioridades dramáticas, que, mesmo assim, são hierarquizadas em escala de importância pelo ilustrador” (p. 60).
Em A Casa Sonolenta, é importante observar que a composição dos elementos da ilustração privilegia a cama, que está em primeiro plano, realçando o papel que esse móvel representará no interior da narrativa. A cor é outro elemento de destaque na construção dos sentidos imagéticos, uma vez que simboliza o estado emocional do ambiente da casa e de seus personagens. Nara, logo na primeira página do livro, explicita a ausência de cor e Clara completa justificando que “tá apagado”. Ao final da história, quando todos os personagens já estão acordados, Beatrice menciona o fato de tudo ter ficado colorido e Nara observa que agora tudo está novo. O aparecimento do arco-íris orienta Clara a reafirmar o que já havia sido dito por Nara sobre o fim da chuva. Para confirmar o entendimento das crianças sobre o ambiente descrito pelas cores, retomo a história perguntando: “E antes, aqui ó, não tava parecendo novo, não?”. Nara e Beatrice respondem: “tá com cor de sono”; “tá triste”. Podemos inferir, a partir dessas retomadas, que a cor foi fundamental para a compreensão da narrativa por estas crianças. Mais que isso, a fala de Nara destaca o diálogo entre o texto verbal e visual e a experiência de ver o texto. Como diz Fittipaldi (2008), “uma escuta que olha” (p. 107).
Além disso, fica evidente o aspecto descritivo das ilustrações, uma vez que as crianças conseguem perceber qual será o próximo personagem a subir na cama mesmo sem a referência do texto escrito. Reiterando a relação entre texto verbal e visual, Fittipaldi (2008) retoma Mario Quintana acerca de uma experiência compartilhada de leitura, na qual “a leitura de imagem, alimentada pela fantasia, é compreendida também como experiência estética; as formas plásticas são tão abertas às interpretações imaginativas quanto as formas da linguagem verbal” (p. 109).