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Ao realizar as primeiras leituras das anotações do diário digital de campo, foi possí- vel notar que a questão da falta de tempo deveria ser um dos elementos ordenadores para as reflexões sobre o fenômeno da desistência dos mediadores. Quatro elementos foram, então, considerados para a construção das categorias de análise.

O primeiro constituiu-se nos objetivos do curso, com a incorporação das respectivas concepções teóricas:

possibilitar conhecimento e a utilização de novas tecnologias de comunica- ção e informação [...] refletir sobre e exercitar as diferentes capacidades e competências leitoras e de produção de textos e de linguagens, envolvidas na recepção e na produção de discursos em diferentes gêneros que circu- lam em diversos contextos, suportes e mídias contemporâneos, com espe- cial destaque para textos e discursos em gêneros de circulação na mídia di- gital (letramento digital) [...] refletir sobre a transdisciplinaridade inerente às práticas letradas de linguagem nos espaços sociais contemporâneos51

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Partes extraídas dos objetivos do curso, disponível em http://www.rededosaber.sp.gov.br/contents/SIGS- CURSO/sigscFront/default.aspx?SITE_ID=12&SECA O_ID=160. Acesso em: 10 out. 2008.

O segundo foi o resultado das primeiras leituras do diário digital de campo que apon- tavam a questão da falta de tempo com muita intensidade.

O terceiro baseou-se no fato contundente de que uma parcela considerável dos medi- adores (61,52 %) desistiu do curso abandonando suas turmas e os objetivos propostos pelo curso.

O quarto configurou-se no pressuposto de que, ao ser totalmente a distância e por meio das redes telemáticas, o Práticas agregava traços qualitativamente diferentes de um cur- so presencial e que, muito provavelmente, as concepções envolvidas nessas diferenças possam ter contribuído para a falta de tempo apontada pelos mediadores.

Em leituras subsequentes do diário digital de campo, foi possível notar que seria pos- sível considerar duas categorias distintas de problemas relacionados à falta de tempo. A pri- meira referia-se a aspectos implícitos e explícitos da mediação on-line cujas concepções im- plicassem demandas cognitivas diferenciadas no grau de dificuldades e, portanto, diferencia- das em relação tempo de processamento. A partir dessa categoria, a atividade de pesquisa ori- entava-se para encontrar temas teóricos relacionados às atividades de mediação do curso para uma análise crítica desses elementos à luz dos quatro parâmetros elencados anteriormente. A segunda categoria de problemas referia-se às atividades práticas do curso, que consumiam mais tempo que o previsto devido à aprendizagem necessária para executá-la a contento. Para essa segunda categoria, a investigação sobre os conflitos nas demandas de tempo, tornava-se possível pelas anotações do diário digital de campo.

A partir da primeira categoria e da análise dos dados do diário digital de campo, es- tabeleceu-se o seguinte roteiro de temas para a investigação teórica:

ƒ Formação de professores. Por se tratar de um curso de capacitação de professo- res da rede pública de ensino, as concepções a respeito dessa formação podem implicar diferentes conjuntos de atividades e, portanto, em diferentes tempos. ƒ Ambiente de aprendizagem. Pelas concepções adotadas no curso, as relações que

os participantes estabelecem com o ambiente de aprendizagem são fundamentais para a construção do conhecimento e dependem, em certa medida, de como cada usuário concebe esse ambiente.

ƒ Letramentos e autonomia. Por serem parte dos objetivos do curso e ideias que transitam bastante na esfera e na cultura escolar, são valoradas como alvo de conquistas necessárias e significativas para a construção da cidadania.

ƒ Domínio do computador e dos programas. Dado a inserção, cada vez maior, das tecnologias digitais na educação e o ainda incipiente nível de práticas sociais dos professores que as incorporem, esse domínio precisa ser buscado.

ƒ Aprendizagem on-line. A transposição pedagógica das teorias da aprendizagem presencial para a aprendizagem on-line, além de incorporar toda a complexidade das concepções originais, ainda está em processo de incorporação das contribui- ções teóricas de outras áreas.

ƒ Linguagem das interfaces (multimodal). Por ser a distância e via interfaces das redes telemáticas, a mediação e a aprendizagem on-line se misturam aos fenôme- nos comunicacionais produzindo possibilidades multimodais de comunicação e, consequentemente, novas relações espaço-temporais.

ƒ Construção do conhecimento em rede. A interconexão de pessoas pelas redes te- lemáticas propicia novas e inusitadas possibilidades de interação e de construção coletiva do conhecimento.

ƒ Níveis de interação da mediação on-line e alteridade. Como a aprendizagem está relacionada com a interação social entre as pessoas e entre elas e o meio, um maior grau de interação, com maior envolvimento, implica em relações temporais diferentes de uma interação de grau menor. Por outro lado, a alteridade, como componente da mediação, ajuda a otimizá-la.

ƒ Gêneros discursivos. Por terem sido a sustentação teórica das práticas desenvol- vidas durante o curso, embora, tanto do posto de vista prático quanto teórico, a- inda sejam bastante desconhecidos entre os professores, construíram um dos nor- tes desta investigação.

ƒ A falta de tempo. Presente ao longo de todo o curso como uma queixa multifor- me, a falta de tempo foi interpretada neste trabalho na sua forma negativa, tal como se apresentava no curso. Ou seja, como ausência ou exclusão de alguma coisa.

A Figura 05 representa a primeira categoria de análise e seu respectivo conjunto dos temas teórico-conceituais que davam sustentação às práticas desenvolvidas no curso:

Figura 5: Representação dos temas teórico-conceituais.

Em relação à segunda categoria, as atividades que disputavam o tempo dos ATPs e supervisores, a leitura dos dados do diário digital de campo possibilitou a estruturação de dez aspectos diferentes, embora inter-relacionados:

ƒ Acesso, manuseio e gerenciamento do computador e dos programas. São os ele- mentos básicos e necessários, embora não suficientes, para uma participação on- line e que, por não estarem garantidos plenamente, a priori, para cada participan- te, consomem parte significativa do tempo que deveria ser dedicado à mediação e à aprendizagem.

ƒ Manuseio e gerenciamento das plataformas. Ter habilidade no manuseio do computador não implica diretamente ter habilidade no uso das plataformas de e- ducação a distância. As diferenças nos aspectos semióticos e na lógica de funcio- namento implicam novas aprendizagens e, consequentemente, um tempo de a- daptação. Gêneros discursivos Aprendi- zagem on- line Conhecimento em rede Níveis de interação Formação de professores Domínio do computador

Operações formais necessárias (Piaget)

Funções mentais superiores (Vigotski) “Falta de tempo” Ambiente de aprendiza- gem Letramento Autonomia Linguagem das Interfaces

ƒ Mediação on-line. Por ter um peso da leitura e da escrita bem maior do que nas relações presenciais, pelo fato de as habilidades leitoras e escritoras do professo- rado serem pouco desenvolvidas e pelo fato de toda comunicação ficar registrada na plataforma, expondo os participantes, a mediação on-line demanda um proces- so de aprendizagem e adaptação intenso, que não necessariamente está ligado ao conteúdo e objetivos do curso.

ƒ Avaliação on-line. A transposição pedagógica da avaliação presencial para a on-

line era um aspecto novo para o professorado e demanda um período de adapta-

ção. Essa atividade requer o desenvolvimento de habilidades e competências na leitura e na escrita on-line, no manuseio simultâneo de plataformas e de progra- mas, além das habilidades e competências de avaliação previamente desenvolvi- das na vida profissional.

ƒ Navegação on-line. Por ser intrínseca ao processo de educação a distância, a ati- vidade requer habilidades e competências lógicas de navegação em redes e em estruturas hierárquicas de diretórios por meio dos hipertextos.

ƒ Supervisão on-line. De modo semelhante à avaliação on-line, essa atividade re- quer o desenvolvimento de habilidades e competências na leitura e na escrita on- line, no manuseio simultâneo de plataformas e de programas, além das habilida- des e competências de supervisão previamente desenvolvidas. Assim, a transpo- sição pedagógica da supervisão presencial para a on-line era um aspecto novo pa- ra o professorado e demanda igualmente um período de aprendizagem e adapta- ção.

ƒ Trabalho de conclusão de curso (TCC). Acompanhada e supervisionada pelos ATPs e supervisores, essa atividade prevê um grande envolvimento, uma vez que a conclusão do trabalho é decisiva para a diplomação completa no curso.

ƒ Trabalho cooperativo on-line. É um dos comportamentos esperados e solicitados durante o curso, mas requer um grau de letramento (VALENTE, 2008) maior que o efetivamente apresentado.

ƒ Leitura e escrita nas atividades. Por ser à distância, o peso da leitura e da escrita é bem maior do que nas práticas sociais letradas presenciais. Esse fato, em rela-

ção a um curso presencial, aumenta significativamente a dificuldade de participa- ção de um público carente de letramento (SOARES, 1998) e dilata o tempo de aprendizagem.

ƒ Espaços de atuação profissional. Por ter sido um curso de formação continuada em serviço, cada participante, além das relações criadas no curso, já tinha um conjunto de relações profissionais, de atividades e de instâncias de participação pré-estabelecido. Esse fato apontava para a possibilidade de interferências entre a estrutura do curso e os espaços de atuação profissional, gerando demandas e con- flitos não previstos inicialmente e acarretando alterações de cronograma.

O esquema da Figura 6 apresenta as dimensões dessa segunda categoria de ativida- des, que demandavam tempo do mediador.

Figura 6: Representação das categorias de atividades.

Os aspectos teóricos e práticos elencados podem oferecer um panorama geral das dimensões que se apresentavam no ambiente de aprendizagem e permitir uma análise qualita- tiva e crítica do conflito existente entre a mediação prevista no curso e a mediação que se efe- tivou no seu decorrer, tendo o tempo como elemento central desse conflito. O cruzamento dos dados qualitativos e quantitativos em relação ao tempo poderá levar, portanto, a possíveis ex- plicações para o elevado número de mediadores desistentes, bem como apontar os aspectos

ESPAÇOS DE ATUAÇÃO PRO-

FISSIONAL

LEITURA E ES- CRITA NAS ATI-

VIDADES TRABALHO COOPERATIVO ON-LINE TCC SUPERVISÃO ON-LINE NAVEGAÇÃO ON-LINE AVALIAÇÃO ON-LINE MEDIAÇÃO ON-LINE MANUSEIO E GERENCIAMEN- TO DAS PLATA- FORMAS ACESSO, MANUSEIO E GERENCIAMENTO DO COMPUTADOR E PROGRAMAS ATP SUPERVISOR “Falta de tempo

que devem ser considerados para um aprimoramento do conceito de mediação pedagógica em cursos de educação a distância.

Embora as duas categorias de análise possam auxiliar na investigação das questões temporais, não são capazes de analisar a qualidade das mediações realizadas. Assim, para checar a fala de alguns desistentes de que não havia tempo para uma mediação de qualidade, torna-se necessário aferir essa qualidade, comparando-a com parâmetros pré-definidos, geran- do a necessidade de categorias de análise para a mediação on-line.

As categorias de análise usadas para aferir a qualidade das mediações foram apresen- tadas na página 47, na apresentação do Práticas, como concepções e critérios de mediação adotados no curso. Tal como foi definido pela coordenação do curso, as mediações desejáveis deveriam ser caracterizadas por serem praxiológicas; conceitual-problematizadoras; afetivas, baseadas em papéis colaborativos, e/ou interativo-discursivas. As mediações indesejáveis se- riam as caracterizadas como conceitual-centralizadoras; descontextualizadas; afetivas, porém baseadas em papeis hierárquicos, e/ou superficiais conclusivas.

Assim, uma vez definidos os objetivos e as questões metodológicas que emergiram do contexto do Práticas, cabe dar início ao roteiro de investigação teórica que será desenvol- vido nos Capítulos 3 ao 5, iniciando pelo debate sobre mediação on-line, aprendizagem e le- tramentos.