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Navn: Ann Cathrin Madsen

In document Jubileumsnummer 2014 (sider 33-37)

Afirmar que o country singulariza a identidade goiana não significa afirmar que o goiano se defina como country ou qualquer coisa que o valha. Ao contrário, o country em sua pretensão de retomada das raízes rurais, reformulando o sentido do caipira e do

sertanejo, e de ser moderno ao mesmo tempo, passa a ocupar, a partir da segunda metade da

década de 1980, o núcleo definidor da interpelação pedagógica da identidade goiana. Isto não retira a ambivalência existente entre a região e a nação, tampouco uma ambivalência interna, goiana, presente nos embates por “capital cultural” (como podem ser denominados os embates culturais por recursos escassos que ocorrem sob o “imperativo social do desempenho”).

A identidade goiana permanece oscilando entre as imposições da identidade nacional e as próprias “tradições” goianas, como vimos, esquecidas e relegadas ao limbo da história até muito recentemente, na medida em que eram consideradas como símbolos do “atraso”. O prestígio do country se deve a uma bem sucedida re-elaboração do atraso, representado pelas categorias de caipira e sertanejo, homogeneizando-os e uniformizando-os na clave de uma classe rural brasileira moderna e bem sucedida. No entanto, este estilo adquire seu status atual em um momento em que diversas outras expressões culturais passam a ganhar visibilidade pública, tornando-o profundamente contestado, como ficou evidenciado pela controvérsia criada quando do projeto de outorga do título de “Goiânia Capital

Country”.

Assim, talvez possamos afirmar que pela primeira vez um traço cultural logrou singularizar a identidade goiana, na medida em que esteve sustentado por uma classe rural vencedora e pelo próprio processo de industrialização no estado, baseado na agro-indústria. Neste sentido, aparentemente o country elimina o anacronismo existente durante a formação da sociedade goiana, resultante da ambivalência entre atrasado e moderno. No entanto, pode-

se afirmar, também, que o caráter contestado dos significados dominantes no universo simbólico goiano possibilitou o desenvolvimento, gradual é verdade, de um cosmopolitismo goianiense que parece ser a síntese, neste final da década 2000, do próprio clima cultural de Goiânia. Portanto, ainda nos finais da década de 80, coincidente, portanto, com a emergência do country, registramos a existência de um movimento punk e de grupos de heavy metal na cidade que, ainda que com pequena participação numérica, resguarda a função de suplementação da diferença cultural como estudada por Bhabha (2003). Voltaremos a estas questões posteriormente, por hora é importante um breve relato da emergência do próprio

country como forma de expor as lutas por capital cultural e a gênese deste cosmopolitismo

que afirmamos acima.

Dessa forma, a partir da segunda metade da década de 80 o estilo passa a ser utilizado em Goiás para designar todas as manifestações da ruralidade no estado, a saber, dos rodeios, incluindo-se as festas agropecuárias, até a chamada música sertaneja. Neste momento Goiânia passa a fazer parte do circuito nacional do country, constituindo-se aí um grande mercado para os produtos relacionados a ele, desde chapéus até caminhonetes. O fenômeno central da ruralidade em nível nacional são as feiras ou exposições agropecuárias, no plano local a Exposição Agropecuária de Goiânia exerce esse papel, constituindo-se, segundo Silva (2001), em um misto de “feira de negócios, festa popular, música, shows, dança e até mesmo a reza, através das chamadas missas sertanejas que se popularizam em Goiás” (SILVA: 2001, p. 18).

A Pecuária, como é popularmente denominada, é uma festa composta por símbolos e representações que fazem parte do imaginário goiano e “sertanejo” em geral, que no período de duração da exposição, ocupam os mais diversos espaços da cidade,

Em maio, mês da Exposição, os comerciantes da cidade acrescentam o chapéu ao uniforme dos seus funcionários, quando, além disso, não determinam um uniforme totalmente country, como o fizeram o supermercado Carrefour, em 2000, e algumas lojas do Shopping Flamboyant. Essa adesão envolve também os freqüentadores da festa, como definiu a revista Isto é, de 27 de agosto de 1997, página 114: “Goiânia disputa com Barretos o título de Capital Country do país. Espécie de Dallas brasileira, tudo na cidade lembra o jeitinho caipira de ser. Cada vez mais, os espetáculos country conquistam os adolescentes da cidade” (Op. cit., p. 19).

A promotora da Exposição, desde a sua primeira edição em 1942, é a Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), uma entidade que representa os produtores agropecuários do estado de Goiás. A partir da atuação da SGPA e da realização da Exposição Agropecuária a atividade de criação animal goiana recebeu forte impulso, que

viria a se concretizar nos anos 90 com o cruzamento entre pecuária e a indústria. Segundo Silva (2001)

Para o atual presidente da SGPA, a realização das Exposições Agropecuárias, com a organização de palestras e incentivo à introdução de novas técnicas de inseminação e melhoramento genético, ao longo dos últimos 50 anos, e o incentivo à importação de animais e sêmen nos últimos 20 anos, levaram a pecuária goiana ao atual estágio de desenvolvimento qualitativo e quantitativo. E salienta que a pecuária agora está voltada para o cruzamento industrial, destinado a fornecer carne e leite de qualidade ao mundo inteiro (Op. cit., p. 22).

As atrações da exposição diversificaram-se, a partir dos anos 70 e, principalmente, nos anos 80. Em 1971, o local onde é, ainda hoje, realizada a festa foi ampliado, através da doação por parte do governo estadual de um terreno contíguo ao que era realizada e, também, sofre uma reforma completa nas suas instalações, “a Prefeitura respondeu pela urbanização interna e o Estado construiu o restante dos pavilhões, pista de desfiles, tattersal, etc.” (Op. cit., p. 23). A partir de então tornou-se possível a realização de leilões, shows artísticos, exposições de maquinas, entre outras, com cada vez maior participação popular. Neste momento a festa adquire, também, uma grande importância econômica. Ela

é vista pelos criadores como uma grande oportunidade de comercialização de animais e de incremento do intercâmbio com outros centros produtores, além de ser uma importante fonte de informações e de atualização no que se refere às novidades sobre genética anima, cruzamento, combate a doenças e pestes, alimentação etc., abrindo possibilidades para aumentar a produtividade de seus rebanhos (Op. cit., p. 24).

Além disto, ela guarda também um forte impacto comercial e financeiro, incluindo a venda de roupas, carros, idéias, pesquisas e financiamentos, sendo vista pelos empresários goianos como “um momento importante de divulgação e realização de negócios em diversas áreas” (Op. cit., p. 31).

Todos os anos, desde 1989, tradicionalmente nos primeiros dias de exposição, ocorre, a chamada Cavalgada; trata-se de uma apresentação, organizada por criadores de cavalo, com desfiles de animais, cavaleiros e amazonas que percorrem ruas e avenidas importantes da cidade. Para Silva (2001), o significado da Cavalgada é abrir

espaço na vida urbana para celebrar uma identidade com os símbolos do rural, que se manifesta de inúmeras formas no cotidiano da cidade, desde pinturas nos prédios mais altos retratando boiadas, até anúncios publicitários que freqüentemente recorrem a fazendas, chácaras, peões, caipiras, gado, chapéus, para falarem da identidade goiana (Op. cit., p. 34).

Além disto a autora identifica neste evento uma característica sócio-política das mais importantes, para ela a Cavalgada sugere a imagem de uma “classe rural vencedora”,

isto é, “um grupo que se apresenta como a elite de Goiás e olha, literalmente do alto, no lombo do cavalo manga-larga, orgulhoso, altivo, para os outros segmentos e populares que assistem ao desfile” (Id. Ibid.).

Neste sentido, Silva (2001) observa que, no ano em que fez sua observação de campo sobre a Cavalgada e a Exposição Agropecuária, a Praça Cívica, em Goiânia, local onde se localiza o Palácio do Governo e a Residência Oficial do Governador, foi fechada por policiais militares quando passou pela cidade a Marcha dos Trabalhadores Rurais do Movimento dos Sem-Terra (MST), que se dirigia a Brasília para protestar contra a chacina de Eldorado dos Carajás. Cerca de um mês depois a Cavalgada era recebida pelo governador, em plena Praça Cívica. Para a autora, isto “deixa claro que a classe representada na Cavalgada é o segmento legitimado pelo Estado como representação da riqueza gerada pela agricultura e pecuária em Goiás e, portanto, deve ser privilegiada como portadora dos símbolos da ruralidade goiana” (Id. Ibid.).

Na Cavalgada, especificamente, o rural se encontra simbolicamente com o urbano. Homens vestidos de peões (botas, chapéus, cintos com fivelas largas) marcham pela cidade com seus cavalos de raça, anunciando o tempo da festa agropecuária. O governador interrompe suas atividades administrativas para receber os representantes do rural. Para se adequar a esse “novo tempo”, a cidade tem o seu transito alterado. É o tempo de suspensão da urbanidade e de celebração do que seriam as nossas origens rurais. A Cavalgada simboliza a morte temporária do urbano, da cidade, que renasce, potencializada de elementos rurais, no Parque Agropecuário (Op. cit., p. 35).

O country e suas representações, os rodeios, a Exposição Agropecuária e a Cavalgada, constituem-se na configuração simbólica hegemônica em Goiânia e Goiás e unificadora dos signos da ruralidade, o caipira e o sertanejo, ao atualizá-los e revesti-los com símbolos da modernidade e da urbanidade. Estes, agora, passam a ser considerados como originais e são essencializados como definidores da identidade do “povo” goiano. Um dos mecanismos de identificação em jogo aqui é a indústria cultural, que re-significa aspectos das tradições locais e difunde-os sob a forma mercantil para um público massificado, inserindo-se em uma nova demanda por bens simbólicos, fruto, entre outras coisas, da ambivalência da identidade nacional e regional.

Neste sentido, em Goiás o estilo country resgata aspectos ancestrais da formação do estado, de uma memória coletiva da ruralidade, especialmente as boiadas e os peões de boiadeiros representados por Hugo de Carvalho Ramos20 como o sertanejo, para se legitimar

20 Hugo de Carvalho Ramos (1885-1921), nascido na antiga Vila Boa de Goiás, foi poeta e escritor. É o autor de um dos livros mais importantes da literatura goiana, Tropas e Boiadas.

em um contexto urbano. Neste sentido, é encenada a adesão e a unificação de todas as classes em torno do universo simbólico do country, na época da festa a cidade praticamente se transfere para o parque agropecuário e “os goianos são autorizados coletivamente a serem sujeitos rurais, a publicidade se volta para os símbolos e referências à festa” (Op. cit., p. 31), dando a impressão de um espaço democratizado, em que todas as classes se encontram sob um princípio unificador comum.

Contudo, como mostra Silva (2001), na própria festa estão implicadas formas de diferenciação de classe, na medida em que, de fato, a cidade se transfere para o local de realização, com lojas, bancos, farmácias, órgãos públicos, restaurantes, universidades e uma infinidade de serviços. Estas formas de diferenciação se revelam desde os meios de locomoção utilizados pelas pessoas para se dirigirem ao parque até as formas de recriação das desigualdades sociais, através da existência de espaços altamente hierarquizados e rigorosamente demarcados, como as lojas, os bares, os restaurantes e os camarotes reservados aos convidados.

No entanto, o resgate da memória coletiva goiana pelo country se expressa não apenas na indústria cultural ou na essencialização da identidade, mas também no estilo. Segundo Silva (2001),

Se comportar como cowboy na Exposição Agropecuária de Goiânia, pode ser traduzido como vestir-se com calças justas, botas e chapéus, falar alto e errado, andar movimentando os braços de forma a insinuar disposição para um duelo, ao estilo dos filmes de faroeste, cantar e dançar de acordo com o estilo country norte-americano, assumir gestos grosseiros e atitudes machistas, enfim carnavalizar um personagem diferente do cotidiano (Op. cit., p. 47).

Todos estes aspectos configuram o country – através da indústria cultural e da influência da matriz estadunidense – como o resultado de uma atualização do imaginário goiano, este, fundamentado nas idéias de rural e sertão e difundido pela literatura, pela historiografia, pelos contos populares, pelos versos e pelas músicas. Neste sentido o country, ao re-elaborar a noção de sertão, acaba por manter vivo o imaginário rural e, por conseqüência, suas representações, tais como as festas, os significados, os símbolos, as musicas, os versos e o vocabulário.

Assim, além de singularizar a cultura goiana, o country também surge sob o signo do imperativo social do desempenho. Os “cowboys” e agroboys goianos têm que encenar nos espaços propícios a isto os modos e os costumes rurais, pois seu contato real com a terra é mínimo em um contexto altamente urbanizado. Esta performatividade country

é legitimada, ainda pelo apoio público, pela classe rural e pelo resgate e atualização da memória coletiva goiana.

Contudo, apesar de singularizar a goianidade, frente à nação, do ponto de vista interno (local e regional), podemos perceber a relevância, as fissuras da identidade assim definida. Estas já podem ser notadas nos anos 80 com os movimentos punk e heavy metal, mas principalmente nos anos 90 com o surgimento de diversas expressões culturais e movimentos de jovens, marcados, do mesmo modo, pelo imperativo social do desempenho, que passaram a questionar a legitimidade do country, ocupando espaços urbanos, institucionais e políticos – antes exclusivos daquele – cujo resultado foi a produção do atual clima cultural em Goiânia, que estamos denominando de cosmopolita.

In document Jubileumsnummer 2014 (sider 33-37)