Os projetos pedagógicos dos cursos superiores, além de constituírem exigência legal para a implantação de cursos de Graduação de qualquer natureza, têm-se constituído como
preocupação constante das instituições, por representarem um instrumento vital, pelo seu potencial transformador, para a avaliação e retroalimentação das instituições e seus cursos.
São nos projetos pedagógicos de seus cursos que as instituições de ensino expressam suas intenções, seus desejos e traçam as estratégias pedagógico-administrativas para atingir a execução do planejamento do curso proposto e a formação desejada do profissional a ser formado e suas características.
Uma preocupação presente nos projetos pedagógicos dos cursos mais arrojados e comprometidos socialmente tem sido não se pensar na formação de um profissional que domine unicamente a técnica, mas que se diferencie pela sua capacidade de ler e analisar o cenário, os fatores e os condicionantes de situações favoráveis ou adversas, compreender, com base numa profunda formação humanística, os fenômenos sociais e o comportamento humano. Quer-se não apenas um profissional bem informado, mas alguém que transforme a informação, que a manuseie com destreza e agilidade, transformando-a em conhecimento.
Busca-se, na atualidade, na educação em geral, um processo interativo que deve ser caracterizado pelo modelo no quais todos ensinam e todos aprendem; o aluno deve ser fundamentalmente agente de construção do seu saber e o professor, o mediador, responsável por facilitar a transformação das informações em conhecimento.
A aprendizagem deve ser significativa e relacionar-se ao universo de conhecimentos do educando, permitindo que este formule problemas e soluções. Deve permitir ao aluno entrar em confronto experiencial com problemas práticos de natureza social e viabilizar a aplicação daquilo que aprendeu para outras circunstâncias de vida. Em síntese, toda aprendizagem deve suscitar modificações.
O projeto é uma antecipação, uma vez que o prefixo “pro-” significa antes. Para Veiga (2000, p. 185) o projeto pedagógico possui uma dimensão utópica, que significa o futuro “a fazer”, um possível a se transformar em real, uma ideia a transformar-se em ato. O projeto se compromete com o futuro. A autora ainda afirma que a utopia
é a exploração de novas possibilidades e vontades humanas, por via da oposição da imaginação à sociedade do que existe, só porque existe em nome de algo radicalmente melhor que a humanidade tem direito de desejar e por que merece lutar (VEIGA, 2000, p. 185).
Nesse sentido, para Veiga (2000, p. 186) a utopia será sempre algo realizável num futuro próximo, um tornar possível algo, uma possibilidade de sua existência. Nesse sentido, “reforça o caráter político da educação e valoriza o papel da universidade e do projeto
político-pedagógico voltado para o desenvolvimento de um projeto histórico de transformação da ordem social”.
Na EaD, o projeto pedagógico, sendo uma construção coletiva, tem efeito mobilizador da atividade dos atores envolvidos, principalmente do docente, que passa a ter, após a construção de uma prática social coletiva de construção do projeto, um forte sentimento de pertencimento e identidade.
O projeto político-pedagógico é entendido por Veiga (2000, p. 193-194) como prática inovadora que pressupõe integração em diversos níveis, como em sua origem, concepção, objetivos, exigências, características e implicações.
Quando nos referimos aos AVAs, a estrutura e a gestão do curso também são bastante diferenciadas. Enquanto, no ensino presencial, o curso é concebido normalmente por um professor, podendo sofrer adaptações durante sua execução, um curso a distância depende obrigatoriamente de árduo planejamento, produção e coordenação desse processo e tem um custo inicial alto de planejamento e produção. Os cursos a distância se constituem com menor número de docente e maior número de tutores que orientam a aprendizagem e são assessorados pelos docentes. Há também a presença de assessores pedagógicos específicos para a EaD e técnicos com formação e sensibilidade para as especificidades do trabalho nessa modalidade, tema que poderá ser explorado em outro texto. Deve haver uma grande aproximação entre os múltiplos profissionais envolvidos no processo. Os docentes, administradores, assessores e técnicos precisam estar em sintonia e são de essencial importância no desenvolvimento do projeto.
Assim, o projeto pedagógico como instrumento de ação política deve estar sintonizado com uma nova visão de mundo, expressa no paradigma emergente de ciência e educação, a fim de garantir uma formação global e crítica para os envolvidos nesse processo, como forma de capacitá-los para o exercício da cidadania, formação profissional e pleno desenvolvimento pessoal. (VEIGA, 2000, p. 187)
A Educação a Distância, por sua própria estrutura e objetivos, oferece um âmbito de aprendizagem no qual o adulto pode aprender aquilo que pessoalmente lhe interessa e responde às suas próprias necessidades, resultando em uma vida mais satisfatória e cheia de sentido.
Um grande desafio a ser enfrentado nesse cenário
(...) é o aprofundamento das reflexões e o esclarecimento da comunidade universitária sobre a necessidade de conjugar a construção de projetos político pedagógicos diferenciados que começam a se delinear nas faculdades/ institutos/ departamentos com um projeto institucional. É a partir da construção e do desenvolvimento dos projetos pedagógicos que o projeto institucional aprimora suas
intencionalidades. Nesse sentido, os projetos de cada curso, coordenados entre si, revelam o compromisso educacional da instituição universitária. (VEIGA, 2000, p. 216).
As possibilidades disponíveis para utilização em AVAs são numerosas. O importante é dar-se conta de suas potencialidades em termos de aprimorar as chances de autoria e as atitudes pedagógicas dos estudantes, dos professores e das instituições educacionais e fazer o uso apropriado desse recurso que pode proporcionar a aprendizagem significativa para qualquer usuário, independente de idade, desde que bem programado por instituições educacionais.
Muitos são os recursos e as estratégias utilizadas para tentar envolver os aprendizes em atividades significativas: alguns preferem a noção de aprendizagem por problematização, outros, pela construção de hipóteses de como funciona a realidade; outros, ainda, pela aprendizagem situada, usando para tanto simulações virtuais – embora sejam simulações, podem simular a realidade de tal forma que pareça mais real que o real. O que se busca na utilização desses recursos em AVAs é, principalmente, a autonomia para criação, a capacidade de ter proposta própria, saber desconstruir e reconstruir conhecimento, argumentar e contra-argumentar, saber ler e contra-ler (DEMO, 2009). O que mais se busca, portanto, é capacidade da construção do texto próprio, do individual e, ao mesmo tempo, do coletivo.