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3.2 E T TEORETISK RAMMEVERK

3.2.3 Naturlig monopol

Em meios às muitas notas que retornavam ao velho continente dando conta dos destemperos sexuais dos visitantes ou habitantes da América portuguesa, observa-se a tentativa de compreender as razões para tantos descomedimentos. Um destes relatos, escrito por um viajante anônimo que desembarcou em terras brasileiras em 1748, registra que a cidade do Rio de Janeiro parecia contar com um contingente de negros digno de nota, até mesmo para visitantes europeus mais experimentados no mundo colonial. O número de escravos africanos era tamanho que um dos oficiais da embarcação refere-se à cidade como um “verdadeiro formigueiro de negros”.215 Tal “concentração funesta”, conforme avalia o viajante, poderia trazer consigo grandes contratempos aos cariocas, uma vez que a população escrava superava em muito o número de colonos, tornando constante, inclusive, o perigo de revoltas. A engenhosa solução adotada pelos portugueses para impedir a provável sublevação negra na cidade, conta-nos o navegador anônimo, foi “adquirir escravos de diferentes proveniências e utilizar a oposição entre seus caracteres para controlá-los”.216 Em geral, explica o estrangeiro, “os negros são capturados na costa vulgarmente chamada da Guiné e no reino de Angola”.217 Os primeiros “são [...] perspicazes, velhacos e preguiçosos”, já os provenientes de Angola se distinguem por serem “taciturnos, trabalhadores e honestos”, e os “primeiros não gostam dos últimos e vice-versa”.218 Tal antipatia natural entre os escravos era o que assegurava a tranquilidade dos cariocas e afastava o perigo de rebeliões. De acordo com o visitante, “quando essas duas espécies inconciliáveis se misturam, uma não consegue nada empreender sem que a outra rapidamente não delate”.219

Não foi, todavia, unicamente a parcela negra da população que mereceu destaque. O apontamento feito pelo desconhecido oficial do L’Arc-en-Ciel adianta também que “o Rio de Janeiro e seus arredores são povoados por brancos, mas há, na região, um número inacreditável de negros e mulatos”.220 O elevado contingente de mulatos vagando pela cidade em meados do Setecentos se devia, logicamente, à grande concentração de negros do lugar. Todavia, o anônimo credita o aumento de homens e mulheres mulatos no seio da população da baía de Guanabara a dois outros fatores peculiares à colônia lusitana: o clima do lugar e a

215 SONNERAT, Pierre. Voyage aux Indes Orientales et à la Chine. In: FRANÇA, Jean Marcel Carvalho.

Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial. Antologia de Textos (1582-1808). Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2000, p. 212.

216 Ibidem, loc. cit. 217 Ibidem, loc. cit. 218 Ibidem, loc. cit. 219 Ibidem, loc. cit. 220 Ibidem, p. 211.

ociosidade de seus habitantes. No entendimento do oficial do L’Arc-en-Ciel, no Rio de Janeiro, “a cada dia que passa, o sangue mistura-se mais e mais, pois o clima e a ociosidade

tornam o povo fortemente inclinado à libertinagem”.221 Para o anônimo, a hoste mulata em São Sebastião, além de apontar para a quantidade exorbitante de negros no lugar, indicava também o quão dissolutos eram os moradores da urbe. A corrupção moral observada na cidade parecia, aos olhos do visitante, estar relacionada tanto à ociosidade dos colonos, que, desprezando o labor, punham-se a flertar com as negrinhas pelos cantos da cidade, quanto ao clima do Rio de Janeiro, que tendia a exacerbar o sensualismo de seus moradores.

Publicada apenas em 1806 como suplemento à segunda edição do Voyage aux Indes

Orientales et à la Chine, do naturalista e navegador francês Pierre Sonnerat, a relação

atribuída a um dos oficiais do L’Arc-en-Ciel não foi a primeira e nem seria a última obra estrangeira a relatar a influência nefasta do clima americano sobre os hábitos dos colonos. O leitor europeu já havia sido informado, sobre o quão danoso à natureza humana poderia ser o clima tropical, em 1716, quando foi impresso pela primeira vez o Voyage de la mer du Sud,222

de Amédée François Frézier. Enviado para o Novo Mundo pelas autoridades francesas com o desígnio de dar a conhecer os pormenores da costa oeste do continente, destino de grande número de embarcações francesas na época, o engenheiro não abre mão de dedicar algumas páginas de seu livro ao comportamento dissoluto que encontrou na Baía de Todos os Santos, cidade onde permaneceu por quase dois meses durante a viagem de retorno ao seu país natal. Escandalizado com os costumes da população local, sobretudo com as indiscrições das mulheres, Frézier reflete sobre a causa de tantos maus exemplos entre as gentes do lugar. Explica o estrangeiro:

A verdade é que, seja em razão do clima, seja porque sentimos uma especial atração pelo que é proibido, não há grande dificuldade em ter com as mulheres daqui as maiores intimidades.223

221 SONNERAT, Pierre. Voyage aux Indes Orientales et à la Chine. In: FRANÇA, Jean Marcel Carvalho.

Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial. Antologia de Textos (1582-1808). Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2000, p. 211. Grifos meus.

222 Nota sobre a obra: A narrativa do sábio Amédée Frézier foi editada pela primeira vez em 1716, seguido por

duas reedições, uma no ano seguinte, em 1717, e outra em 1739. O Voyage de la mer du Sud também se tornou bastante conhecido fora da França, graças às traduções para o inglês, em 1717, para o holandês no ano seguinte e para o alemão também em 1718.

223 FRÉZIER, Amédée François. Relation du Voyage de la mer du Sud aux côtes du Chili, Du Pérou, et du

Brésil, fait pendant les années 1712, 1713 & 1714, par M. Frézier. In : FRANÇA, Jean Marcel Carvalho. A construção do Brasil na Literatura de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII. 1. ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora/ São Paulo: Ed. UNESP, 2012, p. 509.

A julgar pelas notas do engenheiro francês, as mulheres de Salvador não eram grandes apreciadoras da vida casta. As maiores intimidades eram mantidas com as baianas sem muitos empecilhos. Essas, seduzidas pelos perigos que acompanhavam os romances proibidos ou afetadas pelas temperaturas da região, cediam facilmente às investidas do sexo oposto.

Exame semelhante ao proposto por Frézier proveio das observações do britânico James Kingston Tuckey, quase um século mais tarde. Ainda que advogue a favor das mulheres da América portuguesa, asseverando o melhoramento de seus costumes e não as achando tão condescendentes quanto haviam insinuado os viajantes anteriores, o oficial inglês não abre mão de terminar sua explanação sobre os habitantes da cidade sem antes anotar algumas linhas acerca da sexualidade exacerbada dos colonos: no Brasil, adverte Tuckey, “a permissividade no relacionamento entre os sexos é quase semelhante àquela existente na degenerada época do Império Romano”.224 Aos olhos do oficial da marinha, “a causa maior de tal degradação deve ser atribuída ao clima, cuja ação intensa potencializa as propriedades do amor”.225

Nota-se que tanto o autor do relato anônimo, quanto os senhores Amédée Frézier e James Kingston Tuckey – homens de distinção e dotados de um nível de instrução acima do verificado entre a maioria dos viajantes europeus que percorreram o território brasileiro nos tempos de colônia226 – descreveram, em suas relações, comportamentos lascivos ao discorrerem acerca dos hábitos dos habitantes destes cantos. Os três visitantes, da mesma forma, embasbacados com o suposto despudor generalizado, puseram-se a averiguar as causas de tal desregramento sexual e concluíram ser o clima austral o fator responsável pelas falhas de caráter verificadas.