2.2 N ORGE
2.2.3 Marked og konkurranseflater
Alguns objetos de leitura são socialmente mais valorizados do que outros. Dentre eles, o principal é o livro impresso. O criador da sociologia dos textos tentou romper com essa tradição, sobretudo em de seu território de atuação, marcado pelo vínculo entre texto e livro. Mckenzie (2005) estremeceu as bases dessa tradição ao estender a categoria de textos para os “dados verbais, visuais, orais, numéricos e em forma de mapas, impressos e músicas, arquivos de registros sonoros, de filmes, vídeos e a informação computadorizada” (MCKENZIE, 2005, p.31).
Chartier (2002) ao referir-se ao assunto intitula de non book texts os textos dados à leitura não na forma de livro e de non verbal texts os que utilizam ou não o recurso da linguagem verbal. É valido dizer que algumas dessas categorias de textos sequer pertencem à classe dos objetos impressos. Mckenzie, ao ampliar a noção de texto, estava preocupado com as mudanças que ocorriam a sua volta, pois seu objetivo era o de abarcar as novas formas de registros que o rodeavam.
Para justificar esta ampliação, Mckenzie (2005) recorre à origem do termo texto e encontra no Latim o correspondente tecer. Desse modo, se escrever é tecer, estes processos criam objetos materiais. E conforme afirma Mckenzie (2005), esses objetos não contêm uma substância ou formas exclusivas. Assim, “a idéia de que os textos são
registros escritos sobre pergaminho ou papel deriva somente do sentido secundário e metafórico de que a escrita de palavras é como o tecido de fios”. (MCKENZIE, 2005, p.31tradução nossa).
Sob este ângulo, cada um dos textos com os quais temos contato contém sempre uma materialidade específica como suporte. Fato que merece nossa atenção, sobretudo, para o que Chartier (2005) chama de “mecanismos específicos pelos quais cada forma de inscrição de uma linguagem particular produz sentido” (CHARTIER, 2005, p.7 tradução nossa). Dessa forma, reforço a idéia de que as formas materiais que oferecem os textos à leitura influenciam na atribuição de sentido ao escrito.
Em um estudo citado por Chartier (2002), Mckenzie analisou as inovações introduzidas em uma publicação, de 1710, das peças de teatro de Congreve. As mudanças forma feitas pelo autor e pelo editor da obra. Segundo Chartier (2002), a análise feita por Mckenzie evidencia um procedimento quase que oposto ao realizado pela crítica literária, sobretudo a estruturalista, em que a materialidade dos textos é desconsiderada, bem como seu autor e leitor. As inovações introduzidas na obra, conforme descritas por Chartier (2002) foram às seguintes:
[...] a passagem do in-quarto ao in-oitavo, a numeração das cenas, a presença de um adorno entre cada cena, a lembrança dos nomes dos personagens presentes no início de cada uma delas, a indicação à margem daquele que fala, a menção das entradas e saídas. (CHARTIER, 2002, p.249).
Estas mudanças, aparentemente, simples, conferiram, segundo Chartier (2002), um sobressalto ao estatuto da obra. Isso, segundo o historiador francês, por dois motivos: primeiro a passagem do in-quarto ao in-oitavo tornou o livro menor, o que facilitou sua manipulação, caracterizando uma maneira diferente de ler; o segundo diz respeito aos dispositivos tipográficos, as inovações fizeram com que o autor reformulasse em alguns pontos seu estilo, a fim de colocá-lo em consonância, torná-lo mais condizente, com o novo formato da obra.
Para Chartier (2002), as lições do estudo de Mckenzie são múltiplas; contudo, acredito que as duas principais são: a demonstração de que as formas materiais influenciam a atribuição de sentido a um texto; em outras palavras, “o estatuto e a
interpretação de uma obra dependem de suas materialidades” (CHARTIER, 2002, p.250). A segunda refere-se á relevância dada ao leitor, pois o sentido atribuído a um texto, nesse caso, obviamente depende dele. Sobre esse aspecto, é imprescindível dizer que as formas conferidas aos textos são elaboradas com vistas a satisfazer as possíveis expectativas dos leitores. No computador, a situação parece não ser muito diferente. A disposição do texto na tela, sua organização e estruturação são elementos que demandam decisões, as quais buscam atender às expectativas dos leitores. Na web, os textos concisos, objetivos, ou estruturados em tópicos e os links de hipertexto visam a facilitar a localização das informações desejadas. Entretanto, em razão do pouco tempo de existência comercial da Internet, esta tendência de organização dos textos, seguindo padrões de expectativas dos leitores, é recente. Ainda uma boa parte dos sites não está organizada de maneira a facilitar o percurso do usuário, do leitor.
Cabe ainda dizer, que a publicação dos textos na web, seguindo os padrões acima citados, de concisão, objetividade, textos topicalizados, com apenas uma idéia por parágrafo, além de facilitar, visam a acelerar o processo de localização das informações pelos leitores. As ligações de hipertexto, por sua vez, permitem o aprofundamento das informações buscadas. Eles podem levar o leitor a outros textos ou a outros websites. É importante assinalar, que os links são representativos da confiabilidade das informações veiculadas pelo site. Quanto mais links um website possui em outros, maior é a confiança dos usuários em seu conteúdo.
Estes elementos, que não são os tópicos verbais do texto, isto é, que configuram a organização do espaço, a forma dos textos e das materialidades que lhe dão suporte, segundo Mckenzie (2005) possuem uma função expressiva na produção de significado. O texto on-line, na Internet, ou gravado na memória de um computador é imaterial, não pode ser tocado com as mãos, mas, obviamente, é um objeto material que lhe dá suporte: o monitor ou a tela do computador. E esta nova materialidade, assim como as formas materiais dos livros, detém uma função expressiva ao influenciar na atribuição de sentido as palavras e códigos.
Assim, a sociologia dos textos, aqui explicitada, é uma contraposição às concepções dos textos como um conjunto de “signos impressos considerados marcas arbitrárias” (MACKENZIE, 2005, p. 32 tradução nossa) sobre o papel ou outros
materiais. Mackenzie (2005) se posiciona enfaticamente contra a abstração dos textos, assim como Chartier se posiciona contra a abstração da leitura.
Nesse sentido, com base nos dados coletados, é interessante notar que o sentido construído pelos leitores no material impresso foi sondado por meio do grupo focal, ou seja, a partir das discussões conjuntas realizadas ao final de cada atividade. Por outro lado, na leitura na tela on-line, o sentido construído pelos sujeitos era facilmente visualizado a partir dos textos por eles construídos ao longo de suas leituras. Refiro-me aos arquivos textuais que os leitores constroem extraindo trechos dos textos on-line, o que se convencionou chamar Ctrl C seguido de Ctrl V, ou copiar e colar. Esses textos são a materialização do sentido construído pelos sujeitos ao longo da leitura, isto é, são trechos das sacadas e saltos por eles realizados na busca pelas respostas às questões propostas para a pesquisa. Afinal, conforme escreve Lévy (1996): “Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular” (LÉVY, p.41, 1996).
No item a seguir se verá como se deu o processo de construção do sentido pelos participantes da pesquisa. As estratégias por eles adotadas se encontram descritas e refletidas com base em bibliografia pertinente.