Entrevistas individuais do tipo semi-estruturadas foram realizadas com gestores (presidente e gerente, portanto, n=2), com os ocupantes da função de líder (n=6), com o técnico de segurança do trabalho (n=1) e com trabalhadores rurais pertencentes ao Condomínio Rural Verde Grão (n=36). Todas, com exceção da entrevista com o presidente, foram realizadas na sede do Condomínio Rural Verde Grão.
O contato com líderes e trabalhadores foi intermediado pelo técnico de segurança do trabalho da organização. Tal aspecto dificultou, principalmente, no estabelecimento do contato com os trabalhadores rurais. Envolvido em suas atividades, por vezes, o técnico delegava para um segundo plano as necessidades da pesquisa. Foi este técnico também, o principal contato/mediador para acesso às informações documentais necessárias à realização da pesquisa e também para o acesso às propriedades rurais a serem visitadas para aplicação do Diagrama Corporal e observações da atividade de trabalho.
O foco – ou temas abordados nas entrevistas – tiveram como ‘norte’ as questões e os objetivos de pesquisa formulados, bem como outras questões pertinentes que surgiram no decorrer da inserção desta pesquisadora no campo.
O Quadro 6, apresentado na página seguinte, demonstra mais detalhadamente os temas abordados nestas entrevistas com os diferentes participantes, a média de duração das mesmas e o período do ano em que foram realizadas. Os roteiros de entrevista podem ser vistos nos Apêndices A, B e C (pp. 241, 242, 243, respectivamente) apresentados ao final desta tese.
Quadro 6 – Temas abordados nas entrevistas semi-estruturadas
Participantes
da Pesquisa Temas Abordados
Média de Duração (min.)
Período de Realização Representações sobre o trabalho e o trabalhador Rural
Dificuldades na gestão do trabalho rural Interações socioprofissionais
Condições de trabalho oferecidas
Características da organização do trabalho Gestores e
Técnico de Segurança no Trabalho
Queixas/reclamações por parte dos trabalhadores rurais
00:36 Ago./2006
Representações sobre o trabalho e sobre o trabalhador Obrigações do líder
Dificuldades encontradas no cumprimento das funções de líder
Relações socioprofissionais
Percepção sobre as condições de trabalho oferecidas Características da organização do trabalho
Líderes
Queixas/reclamações por parte dos trabalhadores rurais
00:17 Ago./2006
Descrição de um dia típico de trabalho Exigências do trabalho (CHT)
Estratégias de mediação utilizadas Vivências
Trabalhadores Rurais
Sugestões (aspectos valorizados/constrangimentos impostos)
00:12 Set./Out. 2006
De uma maneira geral, as entrevistas permitiram: a) conhecer as representações construídas sobre o ‘trabalho e o trabalhador rural’; b) conhecer as lógicas/percepções dos diferentes atores envolvidos; c) identificar aspectos essenciais da organização, das relações socioprofissionais e das condições de trabalho; e e) compreender o funcionamento da organização (papéis e estrutura). As entrevistas com gestores e líderes serviram para a compreensão do contexto pesquisado, dando suporte ou mesmo permitindo o confronto com as informações coletadas com os trabalhadores.
Além disso, as entrevistas semi-estruturadas realizadas com trabalhadores rurais possibilitaram conhecer “[...] às representações operativas dos sujeitos [...]” (FERREIRA, 2003), permitindo conhecer as estratégias colocadas ‘em jogo’ na realização das tarefas. Por meio destas, foi possível compreender, ainda, aspectos
referentes ao custo humano, nas suas diferentes dimensões, e do bem-estar/mal-estar
no trabalho.
Para seleção dos entrevistados, considerou-se o universo dos trabalhadores rurais contratados pelo Condomínio Rural Verde Grão, no período constituído pela
safrinha ou pós-safra, ou ainda, safra de inverno. Este período vai de maio a
setembro. Considerou-se somente os grupos de trabalhadores dedicados à colheita de feijão em propriedades localizadas no Município de Unaí/MG, já que a organização pesquisada tem estendido sua atuação para os municípios vizinhos.
Neste período – da safrinha – a grande maioria dos trabalhadores contratados reside em Unaí e, normalmente, já trabalhou anteriormente no Condomínio. Na safra de verão – outubro a abril – o perfil dos trabalhadores é alterado, na medida em que 60 a 70% dos trabalhadores costumam vir de outros municípios e Estados. Nesta, também, o número de contratados é consideravelmente ampliado.
Havia, assim, um total de 372 (trezentos e setenta e dois) trabalhadores contratados divididos em 6 turmas de trabalho. Cada turma constituída por, mais ou menos, 45 a 60 trabalhadores, 2 fiscais e 1 líder. Excluíram-se, para seleção dos entrevistados, os líderes, os fiscais, os trabalhadores com menos de 60 dias de contrato e as mulheres. Optou-se pela eliminação dos dois últimos grupos devido ao fato do trabalhador, com menor tempo de serviço, ter menos conhecimento sobre a organização e, no caso nas mulheres, por ser um grupo bastante reduzido (3,4% do total de trabalhadores rurais).
Do total acima referido, restaram 170 (cento e setenta) trabalhadores. Procedeu-se, então, da seguinte forma:
a) agrupou-se por faixa de tempo de serviço – de mais de 60 dias a 6 meses de trabalho; de 7 a 12 meses; de 13 a 24 meses; acima de 24 meses; b) colocou-se os trabalhadores, por grupo de tempo de serviço, em ordem
c) extraiu-se um a cada 5 trabalhadores da lista para serem os entrevistados; e
d) conferiu-se se os selecionados pertenciam às diversas categorias de idade.
Dessa forma, critérios como tempo de serviço na organização e idade foram considerados para a seleção dos entrevistados, restando assim, 36 (trinta e seis) trabalhadores selecionados (Cf. Tabela 2, abaixo). Esta conduta permitiu que a escolha dos entrevistados não fosse direcionada. Conforme ressaltado, o técnico de segurança da organização era quem fazia a mediação. Sendo assim, esta conduta impediu a escolha dos sujeitos por parte de um representante da organização, o que poderia ‘contaminar’ os resultados. Entretanto, o próprio termo ‘seleção’ adotado, em vez de amostragem, se deve ao fato de este último carregar “[...] conotações dos levantamentos e pesquisa de opinião onde, a partir de uma amostra estatística sistemática da população, os resultados podem ser generalizados dentro de limites específicos de confiabilidade” (BAUER; GASKEL, 2002, p. 67), não sendo este, o objetivo deste estudo.
Tabela 2 – Número total de trabalhadores que responderam à entrevista semi-estruturada por
faixas de idade
Faixas de Idade Número de entrevistados
16 a 25 anos 06 26 a 35 anos 07 36 a 45 anos 11 46 a 55 anos 05 Acima de 55 anos 07 Total 36
A dificuldade de seleção nos estudos qualitativos é expressa por Bauer e Gaskel (2002, p. 70), quando ressaltam que “[...] não existe um método para selecionar os entrevistados das investigações qualitativas”. Segundo eles, “[...] o pesquisador deve usar sua imaginação social científica para montar a seleção dos respondentes”. Com estas palavras eles apenas tentam expressar, mesmo que de forma extremada, a dificuldade que o pesquisador com enfoque qualitativo encontra na seleção.
Em função destas dificuldades e especificidades, buscou-se, também, levar em consideração o fato de que as experiências e representações, mesmo parecendo únicas ao indivíduo, são resultados de processos sociais, são compartilhadas pelo grupo (BAUER; GASKEL, 2002). Sendo assim, não faz sentido buscar um número ‘grande’ de trabalhadores, na medida em que, no decorrer das entrevistas, começa a ocorrer a “saturação do sentido” (BAUER; GASKEL, 2002, 71).
É comum também, nos estudos qualitativos, considerar a disponibilidade e facilidade de encontrar com os sujeitos (TRIVIÑOS, 1987). Na primeira seleção para realização da entrevista, por exemplo, havia dois trabalhadores que estavam literalmente presos, optou-se então, por escolher o trabalhador que, na lista já mencionada em ordem alfabética, vinha a seguir.
O critério de validade neste caso, não é o mesmo tomado nos estudos por amostragens. Conforme afirma Richardson (1999, p. 95) “a procura da validade aplica- se em cada etapa do processo de pesquisa, iniciando no projeto e terminando nas conclusões do relatório”. A preocupação centra-se mais “[...] na validade das informações coletadas, isto é, se os dados expressam autenticamente a visão do entrevistado, com interferência mínima do processo de pesquisa” (RICHARDSON, 1999, p. 95).
Reforçando a questão da validade dos dados colhidos nas pesquisas do tipo qualitativas, Chizzotti (2001) acrescenta outros critérios importantes a serem
considerados. Estes critérios são descritos integralmente conforme as proposições do referido autor.
[...] fiabilidade (independência das análises meramente ideológicas do autor), credibilidade (garantia de qualidade relacionada à exatidão e quantidade das observações efetuadas), constância interna (independência dos dados em relação à acidentalidade, ocasionalidade, etc.) e transferibilidade (possibilidade de estender as conclusões a outros contextos). (CHIZZOTTI, 2001, p.90).
Mantendo coerência com estas proposições, as entrevistas com os trabalhadores rurais foram analisadas, utilizando-se de técnicas específicas de análise de conteúdo, conforme proposto por Bardin (1977). Para isto, um auxiliar realizou a escuta e a transcrição de todo material gravado, sendo que, posteriormente, este material, foi escutado e conferido pela pesquisadora.
Para Bardin (1977, p. 38), a análise de conteúdo permite “[...] a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção [...]”. Tem, portanto, três pressupostos que a sustentam: 1) toda mensagem contém informações relevantes sobre seu autor; 2) o produtor/autor seleciona o conteúdo de sua mensagem e esta seleção não é arbitrária, mas é, para ele, o mais importante e representa uma teoria e uma visão de mundo; e 3) esta teoria, da qual é o expositor, orienta sua concepção da realidade (FRANCO, 2003).
Os procedimentos para pré-análise e para a criação de categorias foram:
a) leitura flutuante a fim de estabelecer maior contato com o material a ser analisado;
b) construção de quadros (para cada questão elaborada na entrevista semi- estruturada) para facilitar os procedimentos de agrupamentos, de classificação, de pré-análise e posterior criação de categorias;
c) estabelecimento de hipóteses, permitindo a escolha da forma mais indicada para exploração do material e de criação de categorias;
d) criação de categorias não-apriorísticas que emergiram da ‘fala’ dos entrevistados, implicando numa constante ida e volta do material de
análise e à teoria que dá suporte (FRANCO, 2003). Foram sendo criadas, durante a análise do material categorias mais globais e sub-categorias. e) em função do material analisado e de sua importância para os objetivos da
pesquisa, determinadas questões foram quantificadas em termos de freqüência absoluta e relativa;
f) análise/interpretação dos dados à luz da teoria adotada e incorporação aos demais resultados da pesquisa.
Para criação das categorias, respeitou-se as regras: de homogeneidade dos documentos; da pertinência do material com o quadro teórico definido; de objetividade e fidedignidade de forma a não permitir diferentes resultados e de produtividade, segundo a qual as categorias construídas devem possibilitar resultados que sejam férteis em índices de inferências e em resultados relevantes que permitem o aprofundamento de teorias. Como unidades de registro, levou-se em conta o tema (unidade de significação) e o objeto ou referente (temas eixo) (BARDIN, 1977).