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2.2.1 Flows

O contexto produtivo rural Brasileiro é marcado pelo tradicionalismo, precariedades econômicas, sociais e tecnológicas. Conforme já ressaltado, caracteriza-se por apresentar fatores de agravamento dos riscos relacionados ao

trabalho (dificuldades no diagnóstico de doenças profissionais, baixa escolaridade, alto grau de diversidade tecnológica, condições ambientais incontroláveis, pobreza, longas jornadas de trabalho, dentre outras) (ALVES FILHO, 2001).

Tais fatores, assim como as mudanças e exigências tecnológicas enfrentadas pelo setor nas últimas décadas, têm contribuído para chamar a atenção de acadêmicos e pesquisadores, principalmente daqueles envolvidos com questões de Higiene e Segurança no Trabalho (boa parte destes profissionais com formação anterior em especialidades ligadas às ciências agrárias e/ou às engenharias). Por outro lado, sociólogos e economistas têm se preocupado, especialmente, com os aspectos relacionados às conseqüências da modernização no campo, desemprego, políticas públicas para o setor, relações de trabalho no campo.

Sendo assim, boa parte da produção acadêmica sobre Ergonomia tem sido produzida por engenheiros agrônomos e florestais que se especializam em Ergonomia, por intermédio de outras áreas (Engenharia Mecânica e de Produção, principalmente), ou são oriundos destas últimas e se especializam em Agronomia ou Engenharia Agrícola. Uma análise dos grupos de pesquisas em Ergonomia no CNPq permite esta afirmação. Dos 115 grupos listados, apenas cinco se voltam para estudos ergonômicos aplicados ao setor rural, sendo estes, ligados aos departamentos de Engenharia (mecânica, rural, florestal e de produção) das instituições às quais estão vinculados. 23

Temas ligados a antropometria, segurança, riscos químicos, projeto e avaliação de máquinas e implementos agrícolas, processos de trabalho agrícola, organização do trabalho e desenvolvimento de novas tecnologias no que se refere à relação homem X máquina são centrais nestes grupos. Percebe-se, portanto, uma forte influência da corrente Human Factors nos trabalhos desenvolvidos.

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Uma análise no âmbito internacional não parece ser diferente, a dedicação aos estudos ergonômicos no setor agrícola/rural é oriunda de pesquisadores com formação básica nas ‘engenharias’, assim como no Brasil, e a influência da abordagem anglo-saxônica também se faz presente.

Iida (2005) esclarece que a aplicação da Ergonomia neste setor não ocorre com intensidade desejável em função da dispersão das atividades, da carência de organização dos trabalhadores e do seu pouco poder de reivindicação. Ressalta que estudos com máquinas e implementos são comuns bem como estudos que analisam a colheita, transporte e armazenamento de produtos agrícolas. Entretanto, parte destes estudos restringe-se a determinados produtos, como por exemplo, pesquisas realizadas sobre o corte de cana de açúcar. Nesta revisão, não se encontraram pesquisas voltadas para a colheita específica do feijão.

Para retratar melhor o aspecto mencionado quanto à produção científico- acadêmica em Ergonomia no setor agrícola/rural, são descritos a seguir alguns estudos ergonômicos produzidos por estes diferentes grupos de pesquisadores. As pesquisas realizadas envolvem diferentes atividades rurais, nas áreas florestal, agrícola e pecuária.

Fiedler (1998), realizando na época doutorado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), fez uma análise da atividade de colheita florestal, no Litoral Norte da Bahia. Teve como participantes de estudo trabalhadores rurais, em sua maioria, analfabetos e com baixo treinamento para as atividades executadas. Realizavam atividades consideradas ‘pesadas’ e apresentavam problemas de saúde. Em sua investigação, preocupou-se, principalmente com a carga física do trabalho – avaliada por meio de medida de freqüência cardíaca – também com medidas ambientais, postura e segurança.

De uma maneira geral, detectou em seu estudo a falta de uso de equipamentos de segurança pelos trabalhadores e, como conseqüência, elevado número de

acidentes; sobrecarga térmica e ruído; máquinas com deficiências ergonômicas; posturas inadequadas, indicando necessidade de intervenção em todas as etapas da operação de colheita, além de demonstrar uma elevada carga de trabalho físico por parte dos trabalhadores.

A avaliação de carga de trabalho físico também foi estudada por pesquisadores vinculados a esta mesma instituição (UFV) (ALVES et al., 2000). Em um estudo com trabalhadores envolvidos na atividade de propagação de Eucaliptus ssp, os pesquisadores examinaram a carga de trabalho por meio de levantamento da freqüência cardíaca. Encontraram uma pesada carga de trabalho físico na atividade de transporte de mudas para os estaleiros e moderadamente pesada para transporte de mudas para as “casas de vegetação”.

Percebe-se que boa parte dos trabalhos enfatiza os esforços físicos e posturais presentes nas diferentes atividades que envolvem o trabalho rural (nos casos mencionados, mais especificamente o trabalho florestal). Esforços físicos e posturas incômodas são alguns dos aspectos que fazem da atividade rural uma das mais perigosas em termos de saúde e segurança. Meyers et al. (1997) afirmam que, apesar desta periculosidade envolvida, quase não existem estudos sobre fatores de riscos ergonômicos na agricultura. Interessados nestes aspectos, os autores mencionados realizaram um estudo envolvendo 3 viveiros de plantas ornamentais da Califórnia (atividade comum na região), por considerarem haver neste tipo de trabalho alto padrão de deslocamento e tensão e que poderiam contribuir para causar lesões.

Após observações das diferentes operações/etapas de trabalho, Meyers et al. (1997) apresentaram algumas conclusões: 1) o trabalho foi caracterizado como altamente repetitivo com o uso intensivo das mãos; 2) caracterizou-se também por inclinação prolongada do tronco em atividades de molhar, adubar, capinar, carregar transportar e rotular as mudas. Tais aspectos revelaram, segundo os autores, que a atividade envolve alto grau de risco ergonômico para desordens músculo-esqueléticas.

Gil Coury, Kumar e Jones (1999) também confirmam a periculosidade da atividade agrícola. Não somente chamam a atenção para a existência de elevada taxa de mortalidade presente neste setor na América do Norte, mas também para o elevado número de lesões. Os autores realizaram um estudo de análise e descrição de lesões, acidentes e fatalidades ocorridas em Alberta no Canadá e os resultados da análise não foram ‘consoladores’. Consideram a atividade agrícola com alta demanda física e exposição dos trabalhadores a ampla variedade de fatores de risco. Chamam a atenção para o fato de que os trabalhadores do Canadá estão acostumados com os perigos do trabalho, aceitando as lesões como parte deste.

Contudo, não são somente os trabalhadores canadenses os acostumados com os constrangimentos impostos pelo trabalho. Esta afirmação coaduna com o achado em uma pesquisa exploratória, realizada por Guimarães, Paula e Bonazina (2005) em um contexto produtivo agroecológico localizado no Distrito Federal. Nesta, um dos trabalhadores afirmou naturalmente que “[...] quase todo dia eu tomo um, até dois

comprimidos para a dor nas costas [...]”. Tal afirmação denota que os perigos

enfrentados, os constrangimentos e sofrimentos vividos no contexto de trabalho são naturalizados pelos trabalhadores.

Exigências físicas e posturais foram confirmadas como parte integrante e predominante no trabalho agrícola, assim como na construção civil, também por Landau, Imnhof-Gildein e Mücke (1996). Os pesquisadores analisaram um banco de dados coletados por ergonomistas que realizaram Análise Ergonômica do Trabalho entre 1979 e 1993 em 350 organizações na Alemanha. Por meio desses dados investigaram a predominância de alguns fatores no trabalho em determinados setores e por gênero. A intenção era identificar fatores de riscos nos diferentes segmentos.

Assim, Landau, Imnhof-Gildein e Mücke (1996) demonstraram prevalecer, tanto na agricultura quanto na construção civil, um trabalho que exige força dinâmica com uso amplo e forte dos músculos e uma postura passível de gerar estresse (de pé e

inclinado). Segundo os autores, os dados da AET na Alemanha revelam que, apesar dos processos de mecanização e automatização em alguns setores como agricultura, mineração e construção, não houve redução de estresse físico nos trabalhadores.

Devido a essas exigências do trabalho realizado no contexto produtivo rural, estudiosos têm identificado uma maior predominância de sintomas músculo- esqueléticos em trabalhadores rurais e pequenos produtores do que em outras categorias profissionais (HOLMBERG et al., 2003). Preocupados com este fato Holmberg et al. (2003) realizaram um estudo buscando verificar o quanto essas diferenças encontradas entre pequenos produtores rurais e não-produtores (trabalhadores de outras categorias profissionais, mas de regiões rurais) poderiam ser explicadas por diferenças nas condições físicas de trabalho. Por meio de questionários, entrevistas e avaliação de força muscular e de capacidade física de trabalho em 1782 pessoas residentes em municípios rurais da Suécia, os pesquisadores confirmaram a afirmação anterior.

Entre os pequenos produtores estudados havia aqueles que se dedicavam à produção de leite, agrícola, suinocultura, recria de gado, entre outras. Os resultados demonstraram que os pequenos produtores informaram mais sintomas músculo- esqueléticos que aqueles não envolvidos com atividades agropecuárias. Os produtores apresentaram mais dores lombares e sintomas nos quadris além de maior carga de trabalho, maior exposição a vibrações, carregamento de peso, posições de trabalho incômodas, longas horas de trabalho e mais tempo de trabalho na atividade corrente; informaram menos tempo de férias, lazer e menor atividade física que os não-produtores. Ao mesmo tempo, eles possuem significativamente maior força muscular e capacidade física de trabalho. As análises estatísticas realizadas permitiram aos pesquisadores afirmarem que a carga de trabalho, vibrações, carregamento de peso e posições incômodas de trabalho estavam correlacionadas com os sintomas músculo-esquéleticos.

Além das exigências físicas, aspectos antropométricos também são relatados em estudos ergonômicos voltados para o setor. Victor, Nath e Verma (2002), por exemplo, realizaram um estudo em uma importante região produtora de arroz na Índia. Preocuparam-se com medidas antropométricas que consideram necessárias à concepção de máquinas e ferramentas. O estudo demonstrou haver diferenças consideráveis dos trabalhadores rurais masculinos daquela região com os de outra parte do mundo, tendem a pesar menos, apresentarem estaturas mais baixas bem como diferenças na amplitude do quadril e do tórax.

Em um estudo realizado no Brasil, em uma empresa florestal localizada na região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais, Sant’Anna, Malinovski e Piovesan (2000) avaliaram antropometricamente operadores de motosserra. O objetivo dos pesquisadores foi analisar a influência de fatores ergonômicos e antropométricos na produtividade de operadores de motosserra no corte de eucalipto. Para isso foram levantados também os aspectos nutricionais, o somatótipo, a segurança e tempos e movimentos no trabalho. O estudo foi essencialmente quantitativo e revelou que 5 variáveis afetavam significativamente a produtividade: a idade, a experiência na atividade, dobra cutânea do tríceps, percentual de gordura corporal e índice de massa corporal. Por meio da análise os autores definiram um ‘perfil ideal de operador de motosserra’ para trabalhar em regiões montanhosas.

O estudo supracitado parece ir ‘na contramão’ dos estudos ergonômicos, principalmente naqueles respaldados na corrente franco-belga. Contraria, por exemplo, a afirmação de Wisner (1987) de que é a todas as pessoas que os postos de trabalho são destinados. Chamando, assim, a atenção para o risco que se corre quando se leva em consideração somente o ponto de vista econômico.

McNeill e Westby (1999) também utilizaram medidas antropométricas, análise de posturas e de desempenho para avaliação ergonômica de uma máquina manual de descascar mandioca. O estudo foi realizado em um país africano (Gana), onde a

mandioca constitui-se em importante alimento, além de ser exportado para países da União Européia. O estudo demonstrou, segundo os autores, que o desenvolvimento de máquinas pode ser melhorado quando se dá devida atenção aos fatores humanos. A análise ergonômica no processo e desenvolvimento da máquina possibilitou a melhoria na produtividade, no desempenho e na satisfação dos usuários. Melhorou, ainda, a postura adotada na operação e reduziu o estresse físico e o desconforto, antes sentido.

Os problemas advindos da usabilidade de máquinas, ferramentas e equipamentos têm alertado pesquisadores (ergonomistas ou não) em função dos constrangimentos que estes impõem aos trabalhadores. Uma das conseqüências da modernização agrícola tem sido a substituição do trabalho manual pelo mecanizado, o que pode aumentar os riscos a que estão sujeitos os trabalhadores rurais.

No caso do Brasil não é diferente. A modernização trouxe consigo novos problemas que ampliaram o número de lesões e acidentes sofridos por trabalhadores (JURZA, 2001; SCHLOSSER et al., 2002; TRAPÉ, 1993). Em função disto, muitos estudos têm se voltado para a avaliação da Segurança no Trabalho no que tange ao uso de equipamentos, ferramentas, operação de tratores e máquinas agrícolas diversas (DEBIASI; SCHLOSSER; WILLES, 2004; SCHLOSSER et al., 2002) e mesmo dos constrangimentos ergonômicos impostos pelo maquinário utilizado (FONTANA et al., 2004; MCNEILL; WESTBY, 1999; RAGNI et al., 1999; SALIS et al., 2002; SOLECKI, 2000).

Preocupados com estes aspectos, Salis et al. (2002) realizaram uma pesquisa buscando avaliar, por meio de entrevistas, observações sistemáticas, de registros fotográficos e em vídeo, os constrangimentos ergonômicos impostos aos operadores de colheitadeiras de arroz em duas regiões produtoras localizadas no Rio Grande do Sul. Os resultados demonstraram haver sérias disfunções ergonômicas como: a) problemas interfaciais: que exigiam dos operadores a manutenção de posturas

incorretas e prejudiciais, resultantes da inadequação do campo de visão; b) acionais: exigindo dos operadores esforços repetitivos dos membros superiores durante os comandos acionais da colheitadeira; c) informacionais: deficiência na detecção, discriminação e identificação de informações que são resultantes da má compreensibilidade dos signos visuais, levando o operador a confundir as alavancas de comando; d) físico-ambientais: constância de ruído ao longo da jornada de trabalho devido a elevada rotação do motor além de vibração causada pelos movimentos da bandeja de seleção de grãos; e) operacionais: ritmo de atividade intenso, juntamente com repetitividade e monotonia além de pressão no prazo de colheita em função de condições temporais, financeiras e de qualidade do produto. Além destes, os autores citaram ainda problemas químico-ambientais e comunicacionais.

Fontana et al. (2004) também avaliaram as características ergonômicas de máquinas agrícolas (colhedoras) utilizadas na colheita de milho em Minas Gerais. A avaliação realizou-se por meio de medidas a partir do ponto de referência do assento (SIP), que é considerada, segundo os autores, válida pela NBR NM 5353. Quatro tipos diferentes de colhedoras foram examinadas e buscou-se comparar aspectos como o acesso à máquina, o conforto do assento, acesso aos diversos comandos (alavanca, embreagem, volante) e visibilidade dos instrumentos. O objetivo central era detectar as máquinas que possuíam maior número de comandos dentro de uma área considerada ‘ótima’ e de ‘máximo acesso’ aos comandos.

Estudo semelhante também foi realizado por Lima et al. (2005), onde foram avaliadas ergonomicamente duas marcas de tratores utilizados em sistema mecanizado de colheita de madeira em povoamento de eucalipto. Neste, também foram avaliados quantitativamente as dimensões de acesso, o comando, o assento, o campo, visual, as condições térmicas e vibrações. Com base na avaliação os autores demonstraram os aspectos positivos e negativos de cada uma das máquinas.

Dentre os constrangimentos ergonômicos impostos por máquinas, tratores e implementos agrícolas os ruídos e vibrações também têm chamado a atenção. Segundo Solecki (2000), no contexto rural há uma ampla variedade de fontes de barulho, podendo causar diferentes desordens e sintomas. Estudos têm demonstrado que tratores de baixa potência e pequenos cultivadores são capazes de provocar, às vezes, mais constrangimentos que máquinas ou tratores de grande porte (RAGNI et

al., 1999; SOLECKI, 2000). Este fato tem gerado inquietação por parte de estudiosos

que se preocupam, principalmente, com as condições e a segurança no trabalho nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento e onde prevalece a agricultura do tipo familiar (JAFRY; O’NEILL, 2000; O’NEILL, 2000; RAGNI et al., 1999; SOLECKI, 2000; YISA, 2002).

A vibração e ruídos ferramentas de potência foram estudados por Ragni et al. (1999, p. 403). Segundo eles, são constrangimentos passíveis de afetar fisicamente o operador, dependendo do nível e da duração da exposição. Acrescentam, ainda, que a vibração pode produzir uma síndrome denominada como “Hand Arm Vibration

Syndrome – (HAVS)” na qual inclui doenças vasculares, neurológicas e esqueléticas,

dentre elas, o fenômeno de Raynaud24. Já o ruído, também leva a diferentes

desordens e sintomas, tanto físicos quanto neurológicos, podendo, com o tempo, causar danos ao aparelho auditivo.

Em função disso, os autores supracitados realizaram um estudo investigando quatro dos principais implementos utilizados na agricultura chinesa. Em relação à vibração, o estudo detectou que todas as máquinas estavam na classe de alto risco, segundo a norma ISO 5379 (1998), podendo levar parte dos trabalhadores que as utilizam a apresentar problemas vasculares em período relativamente curto.

24 O fenômeno caracteriza-se por redução do fluxo sanguíneo para órgãos e tecidos. Cf. National Institute

Arthritis and Musculoskeletal and Skin Dieseses (NIAMS/National Institues of Health. Questions and

Answers about Raynaud’s Phenomenon. 2001. Obtido em:

Concernente ao ruído, somente uma das máquinas investigadas não seguia o padrão exigido por um decreto lei (de 80dB(A)). As restantes respeitavam o padrão.

Solecki (1999) também se preocupou com o ruído de máquinas e equipamentos utilizados na agricultura. Realizou um estudo envolvendo 30 pequenos proprietários de terra poloneses envolvidos com produção agrícola e animal. Os resultados indicaram que o tempo individual de exposição ao ruído foi altamente variável e amplamente variado durante todo o ano. O maior tempo de exposição ao barulho foi observado nos meses onde se realizam o transporte e armazenamento de cereais (agosto, setembro e outubro), bem como durante o cultivo e tratamento químico da terra (abril). A pesquisa revelou que nesses períodos os trabalhadores ficavam também expostos a ruído mais elevado que o permitido por lei no país. Um dos aspectos que chama a atenção no estudo mencionado foi o fato de os trabalhadores investigados serem pequenos proprietários, portanto, não se sentiam obrigados a respeitar o tempo de trabalho e de exposição ao barulho.

Como pode ser percebido, os constrangimentos impostos pelo uso dos equipamentos e máquinas agrícolas são variados e freqüentes. Estes constrangimentos incentivaram Pheasant e Harris (1982 apud IIDA, 2005) a criar uma figura caricatural de um tratorista ideal: com uma coluna de ferro, três pernas e dois olhos a mais por trás da cabeça. Tudo isto para dar conta das exigências impostas pela atividade.

Gonzaga (2004, p. 4) fez uma análise de luvas utilizadas por cortadores de cana-de-açúcar de Araraquara, no Estado de São Paulo. Seu objetivo foi “avaliar o uso de luvas de proteção na atividade de corte manual de cana-de-açúcar”. Com fins na segurança e no conforto e na possibilidade de melhor adequação dos trabalhadores às normas regulamentadoras, a autora chegou a algumas conclusões sobre aspectos que reduziriam o atrito e que facilitariam a atividade, dentre estes estão: o tipo de luva a ser utilizada, a condição da luva e o tipo de superfície.

Um estudo diferente dos demais foi realizado por Tillmann (1994). A diferença se faz presente não somente no suporte teórico – Ergonomia de origem franco-belga e psicodinâmica – mas também na metodologia adotada. A autora, em sua atividade clínica, percebeu uma diferença (de comportamento e queixas) entre dois grupos de trabalhadores rurais de uma empresa de pesquisa agropecuária (EMBRAPA). Havia um grupo envolvido no cultivo de batatas e um grupo volante que se dedicava a atividades diversas. Diferenças marcantes na organização do trabalho, da qual os grupos participavam, foram responsáveis pelas queixas e comportamentos de seus integrantes. Um dos grupos – o da cultura da batata – possuía uma estrutura mais flexível, onde os integrantes participavam ativamente de algumas decisões, além de conhecerem e dominarem todo o processo de trabalho. Tal estrutura favorecia o reconhecimento do ‘saber operário’ que, segundo a autora, levava ao sentimento de valorização e a confiança nas relações. Enquanto o outro grupo – o volante – possuía uma organização do trabalho do tipo taylorista, sendo mais rígida e ausente a possibilidade de participação e negociação por parte de seus integrantes. As tarefas eram diversificadas e impostas, sendo impossível aos trabalhadores o acompanhamento/domínio de todo processo de trabalho. Estes aspectos, juntamente com outros, como a precariedade das relações interpessoais, levavam os seus integrantes a vivenciarem mais sentimentos negativos em relação ao trabalho e a apresentarem maior número de queixas psicossomáticas.

Gemma, Abrahão e Sznelwar (2004) também respaldados na escola franco- belga, realizaram uma análise ergonômica do trabalho (AET) em um sítio de produção de frutas orgânicas. Encontraram neste contexto produtivo, uma exigência, sobre produtores e trabalhadores, de domínio de uma grande variedade de técnicas produtivas, em função da (também) grande variedade de frutas produzidas. Estas exigências eram ampliadas pelo cumprimento necessário de uma diversidade de tarefas para obtenção da certificação. Dentre outros aspectos investigados pelos