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National interest – the main engine of the CCP’s pragmatic nationalism?

2.2 Theories on human rights

5.2.1 National interest – the main engine of the CCP’s pragmatic nationalism?

Anteriormente, pudemos ver que os termos memória e memória ferroviária foram constantemente utilizados nas publicações do Preserve/fe. Agora, instigados pela ideia de Prochnow (2014) que em sua dissertação afirma que os termos mencionados não foram utilizados pelos centros de preservação criados entre 1981 e 1992, seguiremos falando sobre os usos das expressões, porém analisando seus empregos na documentação administrativa do CPHFRGS.

Prochnow (2014) a partir da metodologia proposta por Koselleck para uma história dos conceitos buscou elementos significativos para abordar o conceito de memória ferroviária e atenta em seu trabalho “[...] para o fato de que os centros de preservação criados entre 1981 e 1992 não adotaram o termo memória, muito menos o de memória ferroviária”. (PROCHNOW, 2014, p.26). No entanto, contestamos a sua afirmação adotando as ideias de Candau (2016) e Halbwachs (2006) sobre memória e considerando que utilizamos outras fontes documentais que certamente não foram usadas por Prochnow (2014). Ao contrário do que assegura, no CPHFRGS na década de 1980, sob a direção da museóloga Clarissa Oliveira de Carvalho e coordenada pela secretaria executiva do programa, utilizou-se do termo memória na documentação administrativa do CPHFRGS. Ao averiguarmos as fontes, constatamos que houve menção do termo memória com bastante frequência, porém não foi utilizada a expressão

memória ferroviária nos documentos administrativos da instituição pesquisados, como podemos observar:

Logo, museu e bandeira são bens materiais relacionados com as tradições culturais de um povo. Sendo assim, devemos respeitá-los, pois a bandeira nacional é o nosso símbolo maior e o Museu do Trem é um bem que resguarda parte da nossa memória. (RFFSA, 1987b)

Preservar a memória do Ministério dos Transportes é conhecer e desenvolver tecnologia para o avanço do país. (RFFSA, 1987c).

Nos trechos retirados de fontes documentais, podemos perceber o uso do termo memória no CPHFRGS e, mediante sua análise, a partir das ideias de Halbwachs (2006), Catroga (2001) e Candau (2016), conseguimos refletir a respeito da importância das memórias reconstruídas e

reconstituídas que buscam novos consensos nacionais e sociais, o que fica evidente principalmente no primeiro fragmento que associa um símbolo nacional com a missão do museu. Também percebemos que o CPHFRGS coloca-se como o legítimo detentor da memória da estrada de ferro e desse modo, dispõe-se a apresentá-la para o público conhecê-la. No entanto, devemos considerar que as lembranças evocadas na documentação são representações parciais dos eventos do passado da ferrovia gaúcha e não se tratam do real acontecido como aparentemente os trechos sugerem. Sabe-se, contudo, que a memória institucionalizada pelos agentes do Preserve/fe no RS é socialmente construída, “[...] é óbvio que toda documentação também o é” . (POLLAK, 1989, p. 207). Portanto, a memória da estrada de ferro foi sempre permeada por escolhas feitas pela instituição do que é digno de ser lembrado ou não, porém, através das emoções que, segundo Halbwachs (2006) “[...] tendem a desabrochar em imagens e representações coletivas” (Halbwachs, 2006, p.123), o CPHFRGS conseguiu certa adesão social, fato que foi fortemente influenciado pelo importante papel que estava exercendo na proteção do patrimônio ferroviário.

Portanto, o Preserve/fe conseguiu constituir o CPHFRGS em um local de valor histórico, a primeira estação ferroviária do Rio Grande do Sul, e nela organizou um acervo de relevância qualitativa e quantitativa da estrada de ferro, sob o desígnio de que estava preservando a história e a memória da ferrovia. Sendo assim, o acervo formado na instituição foi concebido para guardar as recordações da estrada de ferro, sob o ponto de vista do governo federal. Fica a dúvida que Halbwachs (2006) aborda em seu livro Memória coletiva e que tentaremos responder através do estudo da inauguração e da primeira exposição do CPHFRGS: “Será que basta reconstruir (reconstituir) a noção histórica de um fato que certamente aconteceu, mas do qual não guardamos nenhuma impressão, para se constituir uma lembrança em todas as peças?” (HALBWACHS, 2006, p. 91).

4 A NARRATIVA PRODUZIDA NA INAUGURAÇÃO E NA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO DO CENTRO DE PRESERVAÇÃO DA HISTÓRIA FERROVIÁRIA DO RIO GRANDE DO SUL

“Não há uma verdade que se auto apresente e que dispense a construção e o discurso. Se há discurso, há sujeito. Se há sujeito, há construção”. (REIS, 2003, p. 155).

Anteriormente, destacamos o valor histórico do antigo recinto da estação ferroviária de São Leopoldo e o tratamento do seu prédio que se adaptou às exigências do valor utilitário (RIEGL, 2014) abrigando um museu com espaço expositivo para a visitação. Com o objetivo principal de rememorar “[...] a evolução e tecnologia dos transportes no Brasil” (RFFSA, 1979, f.1) “[...] visando sua recuperação como fonte de informação para o público em geral e pra os estudiosos, particularmente” (RFFSA, 1979, f.1), os centros de preservação estabelecidos pelo Preserve/fe imprimiram representações a partir de um sistema ideológico articulado pelo próprio programa preservacionista. Os agentes do Preserve/fe tentaram tornar o CPHFRGS como lugar de memória da ferrovia gaúcha, por intermédio do qual passaram a reproduzir e a transmitir a partir dos suportes materiais sociais e simbólicos a recordação vivida como comemoração institucionalizada 1.

Desse modo, na primeira parte deste capítulo, vamos estudar a organização da solenidade de inauguração e suas relações com a memória e a história, observando a institucionalização das “[...] representações da ancestralidade, em que o passado é reelaborado, estão presentes”. (WEBER, 2014, p.72). Além disso, analisaremos as representações construídas por meio da exposição museológica que explicita os objetivos do CPHFRGS, ou em outras palavras, que enuncia a versão da história da ferrovia que os seus organizadores pretendiam divulgar. Para esta parte da pesquisa, amparamo-nos principalmente em fotografias produzidas em 1985 e em documentos administrativos emitidos pelos próprios funcionários do Preserve/fe, que se encontram no Museu do Trem de São Leopoldo/RS. As fotografias aqui utilizadas como fontes são consideradas vestígios que foram produzidos com uma finalidade pré-determinada pelos agentes do Preserve/fe: a de conservar e atestar a festividade de inauguração do CPHFRGS e o seu espaço museológico instituído. Sendo assim, as fotografias não serão apreciadas como meras ilustrações, mas como um produto de um pensamento político

1 “[...] domínio de repetição em que a memória pública aparece integrada num ordenamento do tempo comandado

a que estavam atreladas. (KOSSOY, 2001). Como fonte essencial para discorrer sobre o assunto deste capítulo, a fotografia emitiu-nos uma série de dados que não poderiam jamais ser mencionados a partir da escrita, pois ela nos “[...] dá a noção precisa do microespaço e tempo representado, estimulando a mente à lembrança, a reconstituição, a imaginação”. (KOSSOY, 2001, p. 156).

Além disso, os objetos recolhidos às coleções e a formulação das exposições serão considerados como produções intelectuais e, desse modo, buscamos cruzar o valor de uso das peças expostas2 com seu valor de representação, pois entendemos que não são objetos neutros já que “[...] a sua localização na exposição podem nos fornecer subsídios para a interpretação do discurso proposto pelo museu.” (LOPES, 2012, p.92). Portanto, poderemos refletir por meio dos vestígios, documentos, fotografias e memórias dos entrevistados sobre as condições que permitem sustentar um discurso histórico como representação e também examinar a maneira como a narrativa do CPHFRGS conduziu a apropriação da história da ferrovia pelos visitantes “[...] a uma nova norma de compreensão de si próprio e do mundo”. (CHARTIER, 1990, p.24).